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Como etapa para se discutir essas perguntas, é preciso pensar na antologia como um gênero, um todo concebido por um organizador. Dessa maneira, faz-se razoável encará-la como um projeto de ambições autorais. Se para Foucault a autoria diria respeito não só à associação de um texto a um indivíduo, mas também a questões de “circulação e funcionamento de alguns discursos no interior da sociedade” (FOUCAULT, 2002, p. 46), é adequado pensar nas intenções e implicações que movem a autoria; bem como nas forças que nela atuam.

José Paulo Paes relata ter tido dificuldades em selecionar textos e autores. Um desses motivos, segundo ele, era um moralismo da sociedade, que se fazia presente no âmbito editorial. Com isso, o panorama da poesia erótica no Ocidente que ele construiu se deu com muito esforço e ajuda de amigos e leitores dessa temática.

A tensão entre discursos (o religioso e o autoral) foi discutida por Foucault em O

que é um autor? no qual ele expõe que a maior visibilidade dada à questão da autoria

veio com a intenção de punir autores que poderiam ameaçar instâncias religiosas, políticas, econômicas. O tradutor paulista comenta que sentiu tal força como um empecilho de ordem prática. Caso exemplar de tal coerção no século passado aconteceu com Natália Correia46, organizadora de Antologia portuguesa de poesia erótica e

satírica. Essa autora tinha a antologia como um projeto político, ético, ao construir um

(livro-)texto que iria contra obscurantismos religiosos, pois por meio da “realidade ficional”, poder-se-ia contribuir para “Normalizar o que uma civilização empecida pelo

remorso desfrutou envergonhadamente no irresistível gozo do proibido”. (CORREIA, 2008, p. 12).

Essas impressões de coerção, essa tentativa de abafamento permitem pensar na teoria dos Polissistemas Literários, de Itamar Even-Zohar47. Para ele, a literatura de uma nação48 é formada por diversos sistemas literários que se interpenetram no Polissistema Literário. Influenciado principalmente pelos formalistas russos, ele concebe essa teoria para falar do lugar (por vezes marginal) da tradução de textos literários. O autor de Tel Aviv fala de uma estrutura aberta, complexa e heterogênea, dotada de uma mobilidade. Ela seria formada por diversos elementos dinamicamente relacionados entre si, tais como escritores, textos, revistas literárias, editores, críticos literários, consumidores etc., sendo que eles próprios alternariam entre si as funções de condicionadores e condicionados dos repertórios instaurados.

E a tradução, por sua vez, poderia contribuir ou não para “acentuar tendências conservadoras do sistema”. (BERNARDO, 2009, p. 598). Seguindo “normas” pré- existentes (tal como a falta de textos eróticos), a literatura traduzida contribuiria para a manutenção de um sistema literário que Even-Zohar chama de conservador. É por isso que o autor fala que o Polissistema de chegada acabaria condicionando o transfer. A (leitura que o tradutor faz da) ausência de determinados textos/autores atuaria então nessa circunstância (como parecia haver no contexto brasileiro, em relação à temática do erótico). Esse é um momento em que a teoria de Even-Zohar se torna menos descritiva (cf. BERNARDO, 2009, p. 601), e mais especulativa, ao projetar tal cenário.

Para trabalhar esse conceito, é de grande valia a contribuição de Ana Maria Garcia Bernardo, em cujo doutorado realizou portentosa investigação sobre a tradutologia contemporânea alemã. Em sua pesquisa, ela estudou o “Projeto de Investigação

47 Como será exposto à frente, uma importante referência para se conhecer a pesquisa de Even-Zohar é a

tese de doutorado de Ana Garcia Bernardo, professora da Universidade Nova de Lisboa, intitulada A

Tradutologia Contemporânea: Tendências e Perspectivas no Espaço de Língua Alemã. Nesta, Bernardo

traz à luz, para não leitores do alemão, cuidadosa pesquisa sobre o grupo de pesquisa (do qual Even-Zohar fez parte) em tradução da Universidade de Göttingen, realizado na década de 1980.

48 É sabido que o conceito de nação é caro aos Estudos Culturais e à chamada Pós-Modernidade. Contudo,

por questões de pertinência temática, não cabe adentrar em tal questão nesta tese. Cabe, todavia, uma ressalva (no que tange à ideia de nação como construção, como unidade imaginada): a de que Even-Zohar não reduz um sistema literário a uma língua. O eventual leitor que se interessar pelas discussões sobre nação pode recorrer autores como Benedict Anderson (Comunidades imaginadas), Néstor G Canclini (A

Específica sobre Tradução Literária, da Universidade de Göttingen”. A professora da Universidade Nova de Lisboa cita Even-Zohar para falar da estrutura dos Polissistemas:

(...) um polissistema – um sistema múltiplo, um sistema de vários sistemas que se interconectam uns aos outros e se sobrepõem parcialmente, usando concorrencialmente diferentes opções, contudo funcionando com um todo estruturado cujos membros são dependentes entre si49. (EVEN-ZOHAR, 1990, p. 11 apud BERNARDO, 2009, p. 592).

É por esse motivo que o grupo de Göttingen vê com tanto apreço publicações como as antologias de tradução, já que estas podem influenciar um Polissistema Literário. Por meio desse tipo de publicação poder-se-ia discutir como a tradução poderia renovar o rol de escritores lidos dentro de um contexto. A antologia de poemas traduzidos pode ser entendida como um produto entre culturas.

A ideia de troca cultural não se restringiria “somente” à circulação dos textos. O transfer cultural (cf. BERNARDO, 2009, p. 592) pode se dar no próprio processo

tradutório. Para esse grupo (do qual faz parte Itamar Even-Zohar), uma das principais propostas é discutir as trocas culturais que ocorrem na tradução. Ou seja, a tradução seria como

lugar em que convergem as tradições e as convenções das duas culturas em questão, a de partida e a de chegada. (...) É portanto uma perspectiva da recepção da tradução enquanto transacção literária, cultural e linguística com um valor específico e criadora de diferenças culturais, no âmbito dos estudos filológico-históricos, de cariz descritivo. (BERNARDO, 2009, p. 592).

Para o grupo de Göttingen então não haveria uma concentração no texto de saída, mas no

transfer cultural que ocorreria no processo tradutório, salientando-se assim a importância

também do texto de chegada. Para o crítico israelense, por meio dos mais diversos incentivos (e censuras), os textos seriam (ou não) consagrados. Assim, escolhas de, por exemplo, acadêmicos, de prêmios literários (dentre vários outros) seriam estímulos legitimadores dessas dinâmicas. Nesse sentido, caberia perguntar: o que motivam

determinadas publicações? Quais as razões de selecionar determinados temas e textos? O que faria deles “consagráveis”?

É interessante então pensar nas instâncias que constroem e legitimam o canônico. Para Even-Zohar, haveria sempre intenções em traduzir uma obra para um sistema literário (seja por reforço de ideologias, seja para desconstruir estas, ao preencher lacunas de temas, autores, estilos, ausentes no sistema literário de chegada). De maneira análoga, a concepção de antologia usualmente atua nesse sentido, sendo ela um projeto autoral que lida com necessidades do sistema que a produz. No contexto do Polissistema Literário brasileiro, havia uma carência de antologia dessa temática. E Paes percebendo tal falta organiza a publicação que, pela temática, teria papel fundamental não só do ponto de vista editorial, mas da experiência da leitura de textos eróticos frente ao caráter fugidio do gozo.

Benzer Belgeler