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5. TMS 23 Borçlanma Maliyetleri Standardı
Consoante Bobbio (1986, p. 18-20), o Estado liberal é tanto pressuposto histórico como jurídico do Estado democrático, ligando-se à democracia reciprocamente: para esta ser efetiva, são necessárias certas liberdades afirmadas pelo liberalismo; e, para garantir a existência daquelas liberdades centrais no ideário liberal, é mister um governo democrático. Entretanto, se Bobbio (1986, p. 21), de um lado, credita à interdependência entre o Estado liberal e o democrático o fato de que, se caem, caem juntos, os críticos da liberal-democracia, de outro, consideram errada a frequente menção a uma crise da democracia que, para eles, não passa de declínio do modelo liberal de democracia (ACQUAVIVA, 1987, p. 155; BONAVIDES, 2010, p. 233).
Como ressalta Azambuja (2008, p. 246), a democracia de moldes liberais sofreu, desde sua ascensão, a oposição e, consequentemente, a influência transformadora de outras correntes doutrinárias e passou por mudanças significativas especialmente após a Primeira Guerra Mundial, impulsionadas pela reconfiguração de valores, pela instabilidade das ideias e da prática nos campos político e intelectual e por fatos históricos que indicaram a necessidade de nova concepção do regime democrático.
Pode-se afirmar que, apesar de ter enfrentado no século XX decisivos desafios, a democracia tem passado por um processo de alargamento: expansão dos direitos que são considerados inerentes a ela, do âmbito de participação ativa dos cidadãos e da própria esfera da sociedade em que se considera que a democracia deve atuar.
Tal como, gerações antes, a ascensão da sociedade burguesa levara à consagração dos direitos do homem, a pressão exercida pelas lutas trabalhistas e propagação das doutrinas socialistas acarretou, no século XX, a tentativa das democracias liberais de expandir a participação democrática dos cidadãos e compatibilizar os direitos liberais positivados com direitos sociais, econômicos e culturais (BONAVIDES, 2001, p. 154-156). Com efeito, a
positivação e efetivação destes se fazia necessária pela crescente percepção das classes trabalhadoras da insuficiência – ou, para muitos socialistas, do caráter fraudulento (LÊNIN, 1987, p. 268) – das liberdades asseguradas às pessoas em sua exclusiva dimensão individual, sem qualquer proteção à sua vulnerável situação no campo socioeconômico (CANOTILHO, 1999, p. 361-362).
Destarte, segundo Bonavides (2001, p. 143-147), o Estado Social veio a firmar-se como esperança das sociedades em face de um Estado liberal clássico em decadência e da ascensão de teorias socialistas favoráveis à ditadura do proletariado. O Estado Social teria emergido a fim de preservar os ideais liberais voltados à personalidade num contexto de crise e contestação, desfazendo a antiga concepção do individualismo e adotando um intervencionismo outrora desconhecido, porém distinto do dos Estados marxistas em razão de sua natureza consensual, “de baixo para cima”.
Progressivamente, o “Estado Social do Estado” inicial, de cunho dirigista e pautado por normas programáticas, teria evolvido para um “Estado Social da Sociedade”, em que ganha proeminência a sociedade, e os direitos fundamentais são dotados de normatividade (BONAVIDES, 2001, p. 151-152). Nessa esteira, aduz Canotilho (1999, p. 323), que “a
realização da democracia económica, social e cultural é uma consequência política e lógico- material do princípio democrático” (grifo nosso).
Como já citado, para Canotilho (1999, p. 95-96), o Estado de Direito liberal, alcançando a legitimação do direito, permaneceu impotente para legitimar o poder estatal, dilema que contribuiu para o desenvolvimento do Estado Democrático de Direito expressamente vitorioso na ordem constitucional de diversos países, incluindo o Brasil (art. 1º, caput, da Constituição Federal de 1988) e Portugal (art. 2º da Constituição de 1976). Nesse modelo, conciliam-se o governo “sob e através das leis”, de herança liberal, e o governo da participação ativa e permanente do povo soberano.
Sucedâneo do Estado Liberal, o Estado Social de Direito prometia justiça social, mas não assegurava seu caráter democrático. De fato, emergiram formas de Estado Social em países autocráticos, tanto no modelo socialista (BONAVIDES, 2001, p. 145) como no fascista ou nazista. Em virtude disso, na Alemanha e na Espanha, procurou-se enfatizar o regime adotado, explicitando na Lei Fundamental a denominação de Estado Social e Democrático de Direito (SILVA, J. A, 2000, p. 119-120).
Na feliz expressão do autor luso (CANOTILHO, 1999, p. 226), “o Estado de direito é democrático e só sendo-o é que é Estado de direito; o Estado democrático é Estado de direito e só sendo-o é que é democrático”. Não se confunde, porém, com uma simples
“colação” dos elementos do Estado de Direito clássico, liberal, com o Estado democrático, na verdade congregando ambos para constituir um conceito novo de democracia, que José Afonso da Silva (2000, p. 123) descreveu brilhantemente em referência à Constituição Federal brasileira:
A democracia que o Estado Democrático de Direito realiza há de ser um processo de convivência social numa sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, I), em que o poder emana do povo, e deve ser exercido em proveito do povo, diretamente ou por representantes eleitos (art. 1º, parágrafo único); participativa, porque envolve a participação crescente do povo no processo decisório e na formação dos atos de governo; pluralista, porque respeita a pluralidade de idéias, culturas e etnias e pressupõe assim o diálogo entre opiniões e pensamentos divergentes e a possibilidade de convivência de formas de organização e interesses diferentes da sociedade; há de ser um processo de liberação da pessoa humana das formas de opressão que não depende apenas do reconhecimento formal de certos direitos individuais, políticos e sociais, mas especialmente da vigência de condições econômicas suscetíveis de favorecer o seu pleno exercício.
Em geral reconhecida a inviabilidade da democracia direta dos antigos gregos nos Estados modernos, por suas dimensões territoriais e humanas (ACQUAVIVA, 1987, p. 155; CANOTILHO, 1999, p. 288), são numerosos os doutrinadores e os ordenamentos constitucionais hodiernos que conformam uma democracia que supera a oposição entre o sistema representativo e o governo democrático com participação direta dos cidadãos. Assim, a essência do princípio democrático passa a estar tanto na preservação das instituições e princípios concernentes à representação popular quanto na otimização dos mecanismos de participação política, que tendem à democratização da democracia. Logo, cuida-se de democracia simultaneamente representativa e participativa (CANOTILHO, 1999, p. 282-283, 293).
Para Friedrich Müller (2003, p. 132) – crítico da democracia burguesa, a seu ver reducionista no tocante à autodeterminação do povo –, os variados instrumentos formais e informais da democracia participativa, em espaços geográficos relativamente pequenos, serviriam para realizar o máximo possível a experiência da democracia direta, que não reputa uma utopia, mas sim uma meta factível para a construção da democracia legítima. Não obstante, Müller (2003, p. 127) concorda que a atividade democrática depende de direitos humanos eficazes, prestação de políticas de redução das desigualdades e, o que é relevante, a preservação de procedimentos do Estado de Direito, vias de manifestação das atividades e da resistência democráticas.
Bonavides (2010, p. 226-227) também aborda o declínio do sistema representativo clássico de “duplicidade”, isto é, distinção entre a vontade soberana do povo, exercida basicamente nas eleições, e a vontade autônoma dos representantes eleitos. No contexto de
evolução da democracia supracitado, as ordens constitucionais, já desde a Constituição de Weimar (1919), vêm absorvendo uma nova concepção da representação democrática, marcada por maior imperatividade dos cidadãos e partidos sobre a atuação dos representantes. Isso se reflete na expansão dos instrumentos de participação popular direta em meio ao sistema representativo tradicional.
Em conjunto com esse compromisso entre democracia representativa e direta – e não substituição de uma pela outra, como alguns autores aduzem –, Bobbio (2007, p. 155- 157) assevera que tão ou mais importante no presente alargamento da democracia tem sido o fenômeno pelo qual a democratização desborda das instituições estritamente políticas (democracia política) para abranger também as demais esferas de atuação da sociedade, cujo caráter democrático passa a ser visto, igualmente, como condição para se aferir a existência ou não de uma ordem democrática.
A democracia, assim, adentra o âmbito social (democracia social), não se relacionando com o indivíduo-cidadão apenas, mas com o indivíduo inserido em seus múltiplos papéis e identidades. Consoante o filósofo italiano, os cidadãos das democracias avançadas perceberam que a participação política em bases democráticas, sozinha, não era suficiente, porque todo o espectro político está inserido no espaço mais amplo da sociedade civil, de modo que, se suas várias instituições e grupos não são dirigidos democraticamente, resta ameaçado o próprio caráter democrático do Estado.
Segundo Sartori (1993, p. 5-6), a concepção de democracia social remonta ao
Democracia na América de Alexis de Tocqueville e demais interpretações do “espírito” da república nos Estados Unidos. Esta seria uma democracia instaurada num ambiente em que os indivíduos se relacionam como iguais não só no âmbito estatal, mas social. Portanto, consistiria numa democracia como modo de coexistência da sociedade, em que comunidades e associações influentes na sociedade civil reforçam a “macrodemocracia”, ou seja, o ente político estatal.
As democracias buscaram, no século XX, preservar o sistema capitalista sem deixar de fazer concessões, ainda que só superestruturais, às demandas que os próprios cidadãos começaram a fazer em prol não de si, mas de grupos sociais ou da sociedade inteira. Essas transformações, conforme Bonavides (2001, p. 146), refletem a histórica e essencial tensão entre o individual e o social, porém o autor admite a crescente influência dos grupos sociais intermediários na sociedade contemporânea. Efetivamente, a democracia contemporânea também se amoldou para admitir a presença de entes de intermediação entre o povo e o poder decisório estatal, sobretudo os partidos, que já desde o século XIX foram
sendo integrados como corpos de congregação de pessoas com interesses comuns (BOBBIO, 2007, p. 153-154).
Uma das transformações contemporâneas da democracia, também relacionada ao declínio do individualismo liberal, foi o gradual reconhecimento de que os indivíduos pertencem a grupos sociais e, mais, de que esses núcleos devem ser juridicamente estimulados e protegidos, garantindo-lhes, inclusive, e até certo ponto, participação nos processos decisórios da democracia (AZAMBUJA, 2008, p. 248).
Nas atuais democracias, Canotilho (1999, p. 71-72) argumenta que o povo deve ser entendido como “grandeza pluralística”, consoante o pensamento de Peter Häberle, a significar o amplo complexo de “forças culturais, sociais e políticas” que participam das deliberações e influenciam a formação da ordem constitucional. Assim, o “povo” não é mais limitado por critérios de etnia ou raça, nem é mero conjunto de indivíduos, identificados como “eleitores”, “cidadãos ativos” ou “proletários”.
Ademais, Canotilho ressalta que o povo político não constitui nem o “povo ativo”, visto como minorias pretensamente representantes do povo, nem o “povo maioritário”, no sentido de maioria que estabelece as decisões que valem como a do povo, uma vez que as minorias subsistem como “povo”. Para o autor, o povo não pode ser identificado meramente em sentido normativo, ou seja, como os titulares do direito de sufrágio, pois inclui outros indivíduos que não os eleitores.
Contudo, Bonavides (2010, p. 80-81) insiste em que, como formação histórica recente e decorrente da vitória da ideologia burguesa, o conceito de povo passou da concepção política, que o definia como o corpo eleitoral, para uma caracterização jurídica a seu ver insuscetível de controvérsias e variações. Assim, define o povo como o conjunto das pessoas com vínculo de cidadania para com o Estado, sendo essa relação o traço primordial do conceito de povo.
Na verdade, o elemento humano que constitui o povo dos Estados contemporâneos sofreu, sobretudo ao longo do século XIX, alterações significativas. Processos de imigração e diversificação cultural acarretaram a perda de homogeneidade das sociedades políticas, reduzindo sua identidade comunitária e fazendo surgir sociedades cada vez mais plurais, privadas de laços que as unam somente pela comunhão de cultura e de origem. Sinal desse fenômeno foi a adoção pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1992, da Declaração dos direitos das pessoas pertencentes a minorias nacionais ou étnicas,
religiosas e linguísticas (CANOTILHO, 1999, p. 363). Nas sociedades plurais, não surgem somente essas minorias étnico-culturais, mas também grupos sociais com influência decisiva
na vida dos indivíduos e nas decisões coletivas, tais como associações, sindicatos, etc. (BOBBIO, 1986, p. 23).
Ao descrever a democracia, aduz Paulo Bonavides (2007b, p. 232) que, nessa forma de governo, as minorias devem não só existir e ser amparadas, mas também ter possibilidade efetiva de ingerir nas decisões políticas:
Governo democrático, por fim, que postula, como outra de suas características, de seus axiomas fundamentais, o princípio que garante a existência das minorias, as quais, para existirem e para terem os seus direitos convenientemente amparados, precisam também, segundo a lição dos constitucionalistas democráticos, da possibilidade de representação política.
A proteção e inclusão das minorias tornou-se tema urgente na democracia contemporânea. Discute-se, até mesmo, a atribuição de caráter fundamental não só aos direitos dos indivíduos que integram as minorias, mas também a direitos coletivos específicos das minorias consideradas em si mesmas (CANOTILHO, 1999, p. 363), em virtude da artificialidade da definição do “povo” como mero agrupamento de indivíduos em sociedades com múltiplos grupos com os quais os homens formam laços espontâneos de pertencimento (ACQUAVIVA, 1987, p. 146-147).
Pelos argumentos acima expostos, conclui-se que a democracia contemporânea apresenta certas características consolidadas, bem como tendências que na doutrina são largamente reconhecidas: a) apesar de superado, não são rejeitados os fundamentos do Estado de Direito herdado do liberalismo, o qual é, porém, reconfigurado como Estado Democrático de Direito; b) direitos sociais, econômicos e culturais são consagrados pelas ordens jurídicas, implicando para o Estado a intervenção e a prestação de serviços que o conclamam a atuar democrática, mas intensamente na vida social; c) a otimização da participação efetiva dos cidadãos torna-se indispensável para a democratização do Estado, sendo acompanhada pela introdução e ampliação de instrumentos de participação direta do povo nos processos de decisão coletiva; d) e ganham reconhecimento e influência as comunidades e grupos da sociedade civil, que exigem participação e proteção na ordem democrática.