Review of The Export Development Canada(EDC) and The Canadian Economy
C. Kanada’nın Teşvikleri Ve Uygulamaları
Democracia direta é um termo normalmente aplicado à forma de autogoverno pelo povo existente na Grécia Antiga e algumas cidades medievais (BOBBIO, 2000, p. 32), cujos contornos já foram expostos acima. Conforme Francesco Nitti (1933, p. 41 apud BONAVIDES, 2010, p. 291), as democracias gregas se caracterizavam pela garantia da
isonomia (igualdade perante a lei), isotimia (livre e igual possibilidade de acesso às funções públicas) e isagoria (liberdade para expressar-se e deliberar sobre questões públicas).
Sem embargo, espécies de democracia direta sobrevivem residualmente, a exemplo dos cantões suíços dos dois Appenzell, Unterwald Alto e Unterwald Baixo, Glaris e Uri (BONAVIDES, 2010, p. 294). Nesses entes políticos, o órgão supremo é uma assembleia popular, a Landsgemeinde, que delibera e vota leis ordinárias, emendas constitucionais, tratados intercantonais e outras questões, embora com a participação e auxílio de um Conselho formado por representantes eleitos (DALLARI, 1998, p. 152-153). Azambuja
(2008, p. 250) ressalta que, assim como as antigas poleis gregas, tais cantões são de população limitada, e sua democracia, questionável quanto à eficiência. Para isso, cita o fato de que, em Uri, em 1911, o povo debateu, em várias sessões, sobre a permissão de dança aos domingos, mas, em uma só, aprovou um Código Civil.
A democracia direta se refere à forma de governo em que o povo, na maioria das questões, delibera e define a vontade estatal sem mediações. Bobbio (2007, p. 154) aduz que ela se realiza nas formas de participação no poder que dispensam a representação política ou orgânica: o governo por delegados com mandato imperativo, isto é, revogável pelo povo; o governo pelas assembleias diretas do povo; e o governo por referendos. Todas essas formas, contudo, seriam insuficientes para um Estado democrático contemporâneo.
Em princípio, a democracia direta não exclui a possibilidade duma democracia alternativa mediante representação. Contudo, na teoria política, há quem a compreenda não só como uma das formas de regime democrático, mas a própria forma essencial da democracia: a “verdadeira” democracia (MADUZ, 2010, p. 1). É nesse sentido a mais famosa oposição à democracia indireta, feita por Rousseau, para quem é impossível a soberania popular se fazer representar, de modo que o povo, ao ter representantes e não governar por si próprio, deixaria mesmo de ser livre e, mais, de ser povo (ROUSSEAU, 1996, p. 114-116).
Apesar disso, a democracia direta é reputada pela maioria dos autores como inviável nas complexas e grandes sociedades modernas, justificando-se sua substituição pelo sistema representativo. A democracia direta teria sido uma forma de governo circunscrita a sociedades e a uma época com características determinadas e há muito superadas. Com efeito, as democracias diretas sempre existiram em Estados minúsculos, com densidade demográfica menor que a atual, uma estrutura socioeconômica que permitia a uma minoria de cidadãos exercer intensamente a vida política sem os afazeres absorventes do homo oeconomicus que predomina na modernidade e, por fim, um Estado com atribuições bem menos amplas e complexas que as atuais (AZAMBUJA, 2008, p. 249-250; BONAVIDES, 2010, p. 293-294).
Além de ditas considerações práticas, a democracia direta foi objeto de desconfiança e crítica por diversos autores modernos, sendo frequentemente contraposta à “democracia dos modernos”, representativa. Já a primeira república democrática da contemporaneidade, os Estados Unidos, foi construída sobre a rejeição à democracia direta (então denominada simplesmente “democracia”) por questões práticas e axiológicas. São significativos os comentários de James Madison (1993c, p. 137) em O Federalista, que exprimem sucintamente a concepção geral que, no século XIX, consagrou como modelo adequado de democracia o sistema representativo:
Assim é que tais democracias sempre ofereceram espetáculos de turbulência e luta; sempre se mostraram incompatíveis com a segurança pessoal ou com os direitos de propriedade; e tiveram, em geral, vidas tão breves quando violentamente interrompidas. [...] Os dois grandes pontos de diferença entre uma democracia e uma república são: primeiro, a delegação do governo, nesta última, a um pequeno número de cidadãos eleitos pelos demais; segundo, o maior número de cidadãos e a maior extensão do país que a última pode abranger.
Para Maluschke (2007, p. 71), se se conceber a democracia direta com fulcro na noção de soberania do povo, conclui-se que tal modelo não tem Constituição ou a coloca à disposição do povo, afastando-se os princípios de supremacia e rigidez da Lei Maior, que predominam nas ordens constitucionais contemporâneas. Como esclarece Peter Graf Kielmansegg (1988 apud MALUSCHKE, 2007, p. 72-73), essa democracia direta deveria ser refutada, dado que as Constituições fixam as “regras do jogo”, autorizando, mas regulando os conflitos e competições na sociedade política, bem como cumprem a função de proteger as minorias contra o risco de ficarem à mercê das considerações de “maiorias do dia”.
Quiçá devido à inviabilidade de um sistema de democracia direta “puro” nos Estados contemporâneos, é usual, sobretudo na doutrina estrangeira, a menção à “democracia direta” como um conjunto de institutos ou procedimentos de participação direta do povo nas deliberações político-jurídicas. Nessa esteira, Linda Maduz (2010, p. 1) afirma que “in
practice, direct democracy is a term denoting a variety of processes and institutions, guaranteeing people’s (direct) involvement in political decision-making”. Por sua vez, Theo
Schiller (2003, p. 4) aduz que “direct democracy as an institution (defined as initiative and referendum) gives all citizens the right to decisive voting on political issues and therefore comes as close as possible to the principle of political equality”.
Para Dallari (1998, p. 153) e Bonavides (2007b, p. 497), os óbices técnicos e práticos à adoção da democracia direta não mais são invencíveis com o avanço dos recursos tecnológicos. A resistência a esse regime adviria mais de temores e dúvidas de parte da população e, especialmente, da sustentação da democracia representativa por uma elite política e econômica que dela se beneficia. Percebendo uma crescente perda da credibilidade do sistema representativo, no tocante à realização da vontade popular, Bonavides (2007b, p. 493-500) aduz que a democracia, a qual erige ao estatuto de direito fundamental, só é possível como democracia direta, porém com seu conceito reformulado para assegurar a participação imediata do povo com inclusão subsidiária de mecanismos representativos.
Por outro lado, C.B. MacPherson (1978, p. 99) considera um tanto mais complexa a construção de uma democracia direta factível no mundo moderno:
A idéia de que os recentes e esperados avanços na tecnologia do computador e telecomunicações possibilitarão conseguir uma democracia direta apropriada para as comunidades muito populosas é atraente não apenas para os teóricos da tecnologia como também para os teóricos da sociedade e filósofos políticos. Mas essa idéia não presta atenção a uma exigência irrecusável de qualquer processo decisório: alguém deve formular as questões.
Os elementos da democracia direta podem e, de fato, são combinados com elementos da democracia representativa. Contudo, Maluschke (2007, p. 73) entende que, como conceitos puros, não haveria possibilidade de tal integração (uma democracia direta com soberania popular e sem primazia da Constituição, de um lado, e uma democracia indireta constitucional e sem soberania, do outro), sendo aquela possível apenas como conceitos históricos. Ao que parece, é nesse sentido atento à variada combinação entre elementos de representação e de deliberação direta nas democracias reais que Bobbio (1986, p. 52) argumenta:
[...] entre a democracia representativa pura e a democracia direta pura não existe, como crêem os fautores da democracia direta, um salto qualitativo, como se entre uma e outra existisse um divisor de águas e como se a paisagem mudasse completamente tão logo passássemos de uma margem à outra. Não: os significados históricos de democracia representativa e de democracia direta são tantos e de tal ordem que não se pode pôr os problemas em termos de ou-ou, de escolha forçada entre duas alternativas excludentes, como se existisse apenas uma única democracia representativa possível e apenas uma única democracia direta possível; o problema da passagem de uma a outra somente pode posto através de um continuum no qual é difícil dizer onde termina a primeira e onde começa a segunda.
A defesa da democracia direta persistiu na era contemporânea, sobretudo por parte de grupos políticos radicais que refutaram a democracia representativa e a declararam enganosa e, na realidade, antidemocrática e burguesa (BOBBIO, 2007, p. 154). De Rousseau a Lênin, a ascensão da democracia indireta foi acompanhada dessas críticas. Assim, a demanda por participação popular direta levou à adoção de alguns dos instrumentos de democracia direta nos regimes políticos de feição predominantemente representativa, o que esta pesquisa abordará no próximo capítulo.