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3. TÜRKİYE UYGULAMASI

3.5. TL/$ Esaslı Döviz Futures Sözleşmesi ve Borsası İçin Öneriler

Pierre Bourdieu (2004), a partir de uma concepção mais tradicional da sociologia, de uma acepção estruturalista, na qual utiliza a noção de “campo social”, “capital científico“ e “habitus”, tecerá fortes críticas ao construtivismo social de Latour, em especial à dimensão deste ator que pode adquirir uma força quase sobre humana na interação com o mundo que o cerca. Ainda assim, Bourdieu preocupa-se com os mecanismos que impulsionam o individuo para a ação, tendo em vista a sua perspectiva construtivista. Mas a ação individual do investigador estará em grande medida condicionada pela estrutura do campo no qual atual.

O campo científico disciplinar é o lugar das lógicas práticas do investigador, que tem, por sua vez, como mola propulsora o habitus científico, entendido como “teorias realizadas, incorporadas,” a ciência constituída e consolidada que orienta e organiza as práticas do pesquisador. Tal idéia se contrapõe a percepção consciente da teoria e dos métodos a serem aplicados sobre o objeto de pesquisa. As práticas científicas estariam, então, vinculadas e guiadas pela percepção do sentido do jogo científico, que é adquirido com o tempo pelo investigador, pela sua familiarização e experiência com as regras e regularidades disciplinares e cognitivas. O sentido do jogo configura-se como uma noção fenomenológica, não plenamente racionalizada, que em geral direciona a percepção e as práticas do pesquisador à ação, para além do uso de métodos e técnicas formais, mas com base nestes. Deduz-se que é

este sentido enunciado por Bourdieu que predispõe as intuições do pesquisador e seus insights em suas práticas inventivas.

As normas e princípio, que determinam (...) o comportamento do cientista, só existem enquanto tal – ou seja, enquanto instâncias eficientes, capazes de orientar a prática dos cientistas no sentido da conformidade às exigências de cientificidade – porque são entendidas por cientistas familiarizados com elas, o que os torna capazes de as perceber e apreciar, e ao mesmo tempo dispostos e aptos a cumpri-las. Em suma, as normas só os condicionam porque eles se propõem a cumpri-las por um acto de conhecimento e reconhecimento prático que lhes confere eficácia ou, por outras palavras, porque estão dispostos (ao fim de um trabalho de socialização específica) de tal maneira que são sensíveis as diretrizes que elas encerram e estão preparados para lhes responder de forma sensata. (BOURDIEU, 2004a, p. 62)

Em síntese, habitus, para Bordieu, é o principio geral da teoria da ação, subentendendo-se que o indivíduo geralmente, ou não necessariamente, tenha consciência plena do caráter diferenciador que o induz a desenvolver práticas científicas específicas; habitus é entendido, portanto, “como princípio específico, diferenciado e diferenciador, de orientação das ações de uma categoria particular de agente [no interior de uma disciplina], ligado a condições particulares de formação.” (BOURDIEU, 2004a, p. 64)

Tais ações se desenvolvem por sua vez em um campo social específico e estruturado e, por isso mesmo, informadas e condicionadas pela estrutura do campo. Bourdieu define genericamente campo como “o universo no qual estão inseridos os agentes e as instituições que produzem, reproduzem ou difundem a arte, a literatura ou a ciência. Este universo é um mundo social como os outros, mas que obedece a leis sociais mais ou menos específicas” (2004, p. 20).

A idéia de campo social, como espaço estruturado no qual forças sociais atuam e interagem delimitando as possibilidades da ação do sujeito, é central em Bourdieu. As possibilidades de ação e oportunidades do ator científico estarão condicionadas à posição que ocupa no campo social frente ao conjunto da força relativa de outros atores. Esta força relativa do ator, individual ou coletivo, é percebida, ou atestada, mediante o jogo de forças composto pelo capital científico individual de cada investigador. Este capital é constituído, por sua vez, e em grande parte, pela trajetória de formação que se consolida através do reconhecimento de sua capacidade cientifica atribuída pelos pares. Tal modelo teórico, como já enfatizado anteriormente, descreve a ação social condicionada e limitada pelo meio social no qual o individuo atua, distinguindo-se da percepção de Latour.

Segue-se que, contrariamente ao que leva a crer num construtivismo idealista, os agentes fazem os fatos científicos e até mesmo fazem, em parte, o campo científico, mas a partir de uma posição nesse campo – posição essa que não fizeram – e que contribui para definir suas possibilidades e suas impossibilidades. (...) É preciso, primeiramente, lembrar que nada é mais difícil e até mesmo é impossível de “manipular” do que um campo. É preciso dizer, por outro lado, que, por muito versado que possa ser [os construtivistas] na “gestão de rede” (...), as oportunidades que um agente singular tem de submeter as forças sobre o campo aos seus desejos são proporcionais à sua força no campo, isto é, ao seu capital de crédito científico ou, mais precisamente, à sua posição na estrutura da distribuição do capital. Isso é verdadeiro, salvo nos casos inteiramente excepcionais, nos quais, por uma descoberta revolucionária, capaz de questionar os próprios fundamentos da ordem científica estabelecida, um cientista redefine os próprios princípios da distribuição do capital, as próprias regras do jogo. (BOURDIEU, 2004, p. 25)

A noção de campo produz uma série de rupturas (BOURDIEU, 2001) epistemológicas. Além de questionar a idéia de ciência desenvolvida sem ser “contaminada” pelo meio social, totalmente autônoma, exclusivamente pela sua lógica interna cognitiva, também se contrapõe a idéia de “comunidade científica” ao mostrar que os cientistas não constituem um grupo uniforme e homogêneo. Pelo contrário, o campo científico seria repleto de lutas internas, já que, semelhante ao mundo econômico, se estabelece por relações de força, concentração de capital (simbólico e material), relações sociais de dominação, que por sua vez implicam na apropriação e controle dos meios de produção e de reprodução. A noção de campo não adere à visão idealista unilateral de uma comunidade cientifica solidária, nem a de um espaço de lutas de todos contra todos. Existem elementos que unem e outros que separam os investigadores no interior do campo científico.

Esta natureza dinâmica e dual do campo científico está relacionada, em parte, à constituição de duas formas específicas de poder científico, que estariam, por sua vez, correlacionadas a duas espécies distintas de capital científico.

(...) de um lado, um poder que se pode chamar temporal (ou político), poder institucional e institucionalizado que está ligado à ocupação de posições importantes nas instituições científicas, direção de laboratórios ou departamentos, pertencimento a comissões, comitês de avaliação etc, e ao poder sobre os meios de reprodução (contratos, créditos, postos etc) e de reprodução (poder de nomear e de fazer as carreiras) que ela assegura. De outro, um poder específico, “prestígio” pessoal que é mais ou menos independente do precedente, segundo os campos e as instituições, e que repousa quase exclusivamente sobre o reconhecimento, pouco ou mal objetivado e institucionalizado, do conjunto de pares ou da fração mais consagrada dentre eles. (BOURDIEU, 2004, p. 35)

Segundo Bourdieu, a acumulação destes dois tipos de capital (temporal/institucional e científico puro) ocorre de forma distinta. No primeiro caso, o capital dito “institucional” se adquire por estratégias políticas que exigem tempo e participação em comitês, comissões,

reuniões, cerimônias etc. Já o capital científico “puro” se obtém e se amplia, principalmente, “pelas contribuições reconhecidas ao progresso da ciência, as invenções ou as descobertas” (2004, p.36), ou seja, está associado ao reconhecimento das contribuições científicas pelos pares no interior das disciplinas. A constituição destes diferentes tipos de capitais e sua inter- relação pode levar a diferentes situações do campo científico. Uma destas variantes seria a maior ou menor autonomia do campo em relação a outros campos ou forças externas. A perda de autonomia do campo, por exemplo, estaria relacionada à maior cisão entre os poderes científicos puros e institucionais.

Esta dualidade ou ambivalência do campo científico mostra de um lado que este espaço social jamais estará livre das ações externas e por outro que os “conflitos intelectuais são também, sempre, de algum aspecto, conflitos de poder. Toda estratégia de um erudito comporta, ao mesmo tempo, uma dimensão política (específica, temporal) e uma dimensão científica, e a explicação deve sempre levar em conta, simultaneamente, estes dois aspectos.” (BOURDIEU, 2004, p. 41). Portanto, a estrutura das relações do campo científico é definida pela estrutura da distribuição destas duas espécies de capital (temporal e científico).

Bourdieu afirma que a interferência de agentes externos no campo científico, especificamente na produção do conhecimento, não suscita um efeito direto, mas de forma refratada. A perda de autonomia estaria relacionada ao enfraquecimento do capital científico coletivo de um determinado campo científico. Neste sentido, líderes científicos – aqueles que se destacam pelo fato de se encontrarem em posições privilegiadas no campo científico – desempenham um papel fundamental na atividade científica, em geral, atuando sob a perspectiva política e científica na construção da tecnociência. São eles, por exemplo, que desenvolvem a capacidade de atrair estudantes e outros investigadores, grupos de pesquisa ou mesmo instituições para um tema específico de pesquisa (SOBRAL, 2008).

Mas aonde Bourdieu observa falta de força do campo científico, pela interpenetração de interesses estranhos ao mundo da ciência, num certo sentido Latour vislumbra conexões interessadas, que estariam compondo ao lado daqueles mecanismos típicos do campo científico, os condicionantes da construção da tecnociência. Do mesmo modo que o universo da ciência mostra-se mais permeável a jogos de interesses, prevendo o intercâmbio com outros campos sociais (econômico, principalmente), o mundo da ciência (instituições, pesquisadores ou grupos cientificos) também estabelece conexões e pontes com o mundo exterior, procurando interferir, traduzir e transpor sua lógica a outros campos da sociedade quando, por exemplo, procura influenciar políticas ambientais.

Bourdieu destaca o papel dos agentes científicos de uma forma distinta a de Latour, observando e fornecendo maior importância às relações de poder que se constituem no interior do campo científico. Latour, por sua vez, sem atribuir previamente força a este campo social e sem identificar fontes de poder político dos agentes, privilegia as relações sócio- técnicas que vão surgindo no ato da construção da ciência. Este autor não diferencia e nem atribui diferentes pesos às relações que aí se constituem, pois não identifica estruturas anteriores a elas.

No entanto, os elementos histórico-institucionais, econômicos, culturais e políticos traduzem insígnias e imprimem características muito específicas, não desprezíveis, ao processo de construção da ciência e tecnologia. Tais elementos incorporados a ação de líderes científicos encerram ainda importantes vínculos com a formulação das Políticas de Ciência e Tecnologia, relações estas que busca-se destacar nesta pesquisa. Tais atores têm participação na elaboração de editais de pesquisa, influenciando a definição dos temas de pesquisa bem como a distribuição de recursos para as mesmas e o modo como será desenvolvida. A abordagem de Bourdieu traduz com maior pertinência as relações de poder que se constituem no interior do campo científico, com grande potencial de aplicação em estudos de caso brasileiros. Pesquisadores e a comunidade científica do País ocupam, cada vez mais, papel central nas negociações que envolvem interesses não somente dentro do próprio campo, como também em temas que assumem uma dimensão extra campo cientifico, como mudanças climáticas, transgênicos, células-tronco, políticas ambientais etc.

Cabe ainda destacar um último aspecto presente na lógica da condução da produção da C&T. Segundo Bourdieu (2003), entre os usos sociais da ciência, há alguns que consistem em colocar a ciência a serviço do seu progresso e outros ao atendimento de demandas sociais e econômicas. No entanto essas duas dimensões não são necessariamente excludentes. O problema é que as mesmas se apresentam como portadora de racionalidades mais eficientes que à da outra, procurando convencer públicos interessados no debate e com isso angariar apoio e adesão às suas idéias, para enfim obter respaldo à intenção de se tornar visão dominante de PCT. Percebe-se cada vez mais nas práticas políticas neste campo, de um lado, o uso estratégico de retóricas que destacam o caráter utilitário da ciência, procurando assegurar legitimidade social à ênfase no desenvolvimento de determinadas linhas técnico- científicas e, de outro, a retórica da pesquisa autônoma e descompromissada como única forma da ciência inovar e apresentar resultados.