3. TÜRKİYE UYGULAMASI
3.3. Bankalardaki Uygulamalar
Os autores desta corrente de pensamento têm como pressuposto comum o fato de que a C&T não é neutra e nem autônoma. Os principais pontos salientados pela nova tendência da CTS, de forma geral, são:
a) Inclusão do conteúdo técnico da ciência dentro do escopo da análise sociológica. A sociologia funcionalista [mertoniana] não se preocupava com o conteúdo da ciência, que seria determinado exclusivamente pela realidade estudada (tese esta que era compartilhada pela visão recebida da filosofia da ciência). (...) A nova sociologia rompe a distinção entre o social e o científico.
b) Valorização de uma metodologia internalista, que se concentra nas práticas internas da ciência. Isso leva a estudos "microscópicos" da prática científica, uma ênfase na descrição antes da explicação, e à análise de como o conteúdo da ciência é "construído". Esse internalismo, porém, não elimina a preocupação com os aspectos "externalistas" (influência do social).
c) Virada lingüística: uma valorização do estudo das "ações lingüísticas" na ciência. Isso inclui uma abordagem semiótica das "inscrições literárias" em um laboratório, uma análise das negociações de significados em conversas científicas, estratégias de persuasão, ou uma análise exclusiva do discurso (ignorando ações e crenças). (PESSOA JR., 1993, p.7) Por esta nova perspectiva da sociologia do conhecimento científico (e tecnológico), a C&T não estaria propriamente sob um controle externo, tal como na concepção adotada pelos Instrumentalistas, mas sob um constante “reprojetamento”, num processo através do qual valores e produtos de ciência e tecnologia não são percebidos de forma separada, mas imbricados como realizações e materializações únicas, indissociáveis. Por tal acepção as dicotomias do tipo natureza x cultura; interno x externo (ao mundo da C&T), desaparecem. E tal como a natureza, percebida como algo intermediado pela percepção carregada de valor, o social também deve ser compreendido da mesma forma. Portanto, natureza e sociedade recebem um tratamento simétrico, ambos intermediados por observações não neutras, que antecedem as formulações e concepções.
Esta nova forma de se conceber a produção do conhecimento levou a uma relativismo extremo do que seria considerado verdadeiro pela ciência. Tal aspecto, se por um lado inovou o modo da ciência ser percebida, por outro, quando levado às últimas conseqüências revela um lado extremamente fragilizado do próprio conhecimento científico.
Lacey (1972) procura resguardar a objetividade científica e ao mesmo tempo as novas bases sob as quais a ciência estaria sendo compreendida. Se, por um lado, afirma a impossibilidade da neutralidade da ciência, argumenta, por outro, a possibilidade de garantir imparcialidade na produção da C&T. Para ele, imparcialidade significa que “uma teoria é corretamente aceita quando os únicos valores que entram na sua apreciação são os cognitivos (adequação empírica, poder explicativo, consistência etc.)” (LACEY, 1972, p. 52). Contudo, o autor não admite a neutralidade do conhecimento científico, já que é falsa a afirmação de que as teorias científicas não teriam qualquer tipo de compromisso com interesses de determinados grupos, empenhados em defender prioridades e direcionar recursos para o financiamento de pesquisas e projetos em diversas áreas. A ciência, apesar de seu caráter
imparcial, o que lhe confere validade do saber produzido, não é neutra, pois os valores sociais “intervêm na determinação teórica e prática do tipo de ciência que (socialmente) se quer” (idem, p 52).
Para Pinch & Bijker (1984), no entanto, o tratamento dado ao conhecimento científico como socialmente construído implica que não há nada especificamente epistemológico sobre a natureza do conhecimento científico. Tal abordagem leva à proposição da efetiva quebra da caixa preta da C&T, na qual se incluem não somente aspectos epistêmicos, mas também aspectos e fatores sociais que interferem igualmente na produção da C&T. Estes autores, considerados os fundadores do construtivismo social aplicado à C&T, dão início ao esforço de integração em direção a uma mesma base metodológica para os estudos do campo da Ciência, Tecnologia e Sociedade14. Para isso, eles vão fazer uma revisão crítica em relação às análises que implícita ou explicitamente consideram ciência e tecnologia como elementos distintos quanto a sua natureza ontológica, desprovidos de uma noção contextual, abordados a partir de uma lógica de conteúdo.
A ciência e tecnologia e suas relações a partir de mundos distintos e separados, sob a observação de modelos analíticos rígidos, não representariam a dinâmica interdependente destas duas esferas tal como se apresentam no mundo contemporâneo. Pinch & Bijker enfatizam a relação simbiótica entre cientistas e tecnólogos que capturam a cultura um do outro em suas produções (BARNES, 1982). A moderna tecnologia envolve cientistas que “fazem” e tecnologistas que funcionam como cientistas, derrubando a velha imagem de que ciência básica gera todo conhecimento que tecnologistas aplicam (LAYTON [1977], apud PINCH & BIJKER, 1984)15.
Esta nova perspectiva em torno da C&T levou autores como Latour e Woogar (1997), Knorr-Cetina (1981) e Callon (1980), entre outros, a um vigoroso programa de pesquisa empírica, dedicado ao entendimento do processo de construção do conhecimento científico, escolhendo uma variedade de locais e contextos estratégicos para as suas análises. Latour e
14 Tal proposta é desenvolvida no artigo The Social Construction of Facts and Artefacts: Or How the Sociology
of Science and the Sociology of Technology Might Benefit Each Other, marco das bases do construtivismo social da produção da C&T. Latour, na obra Ciência em Ação fará um esforço no mesmo sentido. Neste livro, ele revisa estudos empíricos situados dentro do campo da Ciência, Tecnologia e Sociedade com vistas a formulação de uma plataforma metodológica comum que permitisse esboçar um modelo analítico, através do qual seus partidários pudessem dialogar.
15 Sobre este assunto, Trigueiro (2009) com base em Heidegger (2006) e nas formulações de Ihde (1979) para uma sociologia da tecnologia, critica a prevalência da ciência sobre a tecnologia na tradição da Filosofia da Ciência e defende a anterioridade ontológica da tecnologia (prática) sobre a ciência (conceito).
Woogar se concentraram em estudos em torno dos contextos associados à produção científica em laboratórios16, Callon dedicou-se às controvérsias tecnológicas17.
Neste sentido, Pinch & Bijker argumentam que os estudos do Programa Empírico do Relativismo (EPOR – Empirical Program of Relativism), inseridos na Sociologia do Conhecimento Cientifico (criada em contraposição a Sociologia da Ciência, de enfoque mertoniano), no qual se inserem Latour e Woogar, trouxeram grandes contribuições à perspectiva do construtivismo social aplicado aos estudos do conhecimento científico, em especial nas ciências duras.
A proposta de Pinch & Bijker de integração de correntes distintas do campo da Ciência, Tecnologia e Sociedade baseia-se na identificação de três níveis de objetivos explicativos tanto no EPOR como na corrente construtivista da Sociologia da Tecnologia (SCOT), a qual se filiam. Num primeiro estágio, os estudos do EPOR mostram que achados científicos são abertos a mais de uma interpretação, apresentando a “flexibilidade interpretativa” nas descobertas científicas. Os estudiosos associados ao SCOT descrevem o processo de desenvolvimento de artefatos tecnológicos como que alternados de variações e seleções, constituindo-se como um modelo multidirecional. A mesma idéia do modelo multidirecional estaria presente na concepção de flexibilidade interpretativa.
O segundo estágio está relacionado à descrição de mecanismos sociais que limitam a flexibilidade interpretativa e que, portanto, permitem “resolver” ou conduzir as controvérsias científicas. Embora esta flexibilidade interpretativa possa ser recuperada em certas circunstâncias do ponto de vista da análise, é mais provável que desapareça rapidamente do ambiente científico, assim que emerge um consenso científico em torno do estabelecimento de uma “verdade”. Nos termos do SCOT, este processo é descrito como uma fase de estabilização das controvérsias científicas.
Entrevistas conduzidas com cientistas engajados nas controvérsias revelam, normalmente, fortes e diferentes opiniões sobre achados científicos. Collins (1981) enfatizou a importância dos “grupos de controvérsia” na ciência pelo uso do termo “core set” (grupo central), que seriam cientistas envolvidos mais intimamente com os tópicos controversos da pesquisa.
O terceiro estágio, por sua vez, estabeleceria uma relação entre os “mecanismos de fechamento” e um fundo sócio-cultural mais amplo, que para Pinch & Bijker, não teriam sido,
16 O estudo etnográfico foi desenvolvido no Laboratório de Neuroendocrinologia do Instituto Salk, em San Diego, na Califórnia, Estados Unidos.
17 Michel Callon desenvolveu um estudo pioneiro sobre controvérsia tecnológica ao analisar o desenvolvimento do veículo elétrico na França (1960-1975).
até então, explorados adequadamente pelos estudos do EPOR. Tal possibilidade, afirmam, poderia ser desenvolvida a partir de uma investigação mais detalhada a partir da noção de core set, apresentada pelos estudos do SCOT, tal como procuram demonstrar com a descrição e análise dos desdobramentos sócio-tecnicos que levaram à conformação de um design padrão e definitivo da bicicleta no final do século XIX18.
O método do SCOT, de descrever artefatos tecnológicos com foco nos significados dados a eles pelos grupos sociais relevantes, parece indicar um caminho promissor de investigação. A situação e as condições políticas e sócio-culturais de um grupo social, do mesmo modo com que molda suas próprias normas e valores, também influenciam o significado dado a modelos de um artefato em conflito. Pelo fato de o SCOT demonstrar como diferentes significados podem constituir diferentes linhas de desenvolvimento, Pinch & Bijker argumentam que seus modelos descritivos ajustam a relação entre o mais amplo fundo sócio-cultural ao real conteúdo da tecnologia.