Jane Pinheiro: Gostaria de chamar Larissa Cavalcanti, Txai Ferraz e Vinícius Gouveia,
diretores dos filmes que acabamos de assistir. Depois de quase quatro horas de projeção, nossa conversa será breve.
Não sei se perceberam que esse grupo, que agora está sentado aqui na primeira fila e que pode se colocar no debate a qualquer momento, assistiu aos filmes no mezanino do cinema. Reservei esse espaço para as pessoas envolvidas na realização dos filmes: diretores, roteiristas, câmeras, atores, preparadores de elenco, atores que desistiram do projeto no meio do caminho, amigos... Fiz isso para que pudéssemos rir à vontade, e não precisássemos conter os comentários.
Posso lhes dizer que se para alguns de vocês assistir a esses dois longas foi cansativo, para nós, que estávamos lá em cima, foram três horas e meia de diversão, lembranças, nostalgia... e muitas, muitas piadas! Acho que entrei num pequeno túnel do tempo. Por mais de três horas pude reviver o clima que marcou a filmagem e o que movia o
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desejo de realizá-las. Na base desses dois filmes, estava uma vontade de se divertir entre amigos, ou mesmo criar novos amigos... Como eu ouvi Kelle Lima, atriz do filme, falando: “Bárbara, a bárbara foi uma brincadeira! Foi literalmente uma brincadeira. Apesar de ser longa, era uma brincadeira. Ele uniu, talvez, a gente. Ele fazia rir, ele estressava.”4
E enquanto ela revia a cena do lançamento do filme: “o lançamento não foi só um lançamento, foi a emoção da gente tá começando a absorver a ideia de se separar. Porque a gente passou um grande tempo fazendo esse filme. E, acho que a gente tava no primeiro ano, primeiro ou segundo [do Ensino Médio], e quando a gente tava passando, todo mundo tava naquela nostalgia de ‘a gente vai sair do colégio... daqui a pouco a gente vai sair do colégio’. A gente até repassou umas partezinhas dele no vídeo do terceiro ano. Porque ele fez parte, apesar de não ter feito parte de todo mundo, ele fez parte da turma. Então ele não foi um filme qualquer... Pelo fato dele ter unido muita gente, da gente ter feito muita palhaçada, ele teve uma emoção no meio. Eu mesma interagi com muita gente que eu não interagia”.5
Jane Pinheiro: Poderíamos conversar sobre inúmeros aspectos desses filmes. Produzidos
de maneira precária, ainda assim, apontam de forma aguda questões muito caras ao momento que vivemos: consumismo; obsessão, sob pressão, pelo corpo ideal; identidade de gênero e orientação sexual; culto às celebridades e a rapidez com que são produzidas e descartadas; uso de drogas; exposição pública da intimidade. A escolha do pastiche, do uso de clichês, e do humor trash entrelaçado ao terror não é fortuita, agrega um certo grau de deboche e amplifica a crítica satírica a uma sociedade onde tudo é líquido.6
A própria realização de Bárbara, bárbara 1 se impõe como ação crítica à liquidez dos tempos que vivemos. Estreitando laços de convivência no mundo real, desafiando a inconstância das relações e projetos, nos lança perguntas: Por que passar dois anos e meio produzindo um filme aos catorze, quinze anos de idade? Como surgiu a ideia e a vontade de fazer esses filmes? Imagino que o público esteja curioso para saber... Optamos por utilizar esse espaço para nos concentrar nesse mistério oculto na série Bárbara: Por que um grupo de adolescentes decidiu fazer dois longas quando tudo no mundo em que vivem é um convite à fugacidade, rapidez, imediatismos? Com a palavra, os diretores... [risos]
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Txai Ferraz: Bárbara, a bárbara, esse clássico do cinema pernambucano... [risos] Como
foi?... Eu lembro, assim, Jane, tava... Era uma época que, eu lembro que o YouTube era novidade. A gente não tinha essa consciência de nenhum vídeo viral, como hoje. Mas existiam alguns vídeos... Tinha um vídeo que era o ‘Pastor Cerafim [sic]’8, um menino
tirando onda de igreja evangélica, bem famosão, na época. Mas isso tava chegando, a gente ficava fazendo piada disso... A gente ficava fazendo piada de muitas coisas, era um pouco dessa coisa da cultura que tem hoje na internet, do meme, da piada pronta, de um humor pelo exagero, de tirar de contexto completamente, e, não sei, tinha essas câmeras, a Cyber-shot, que na época era massa! Era a câmera digital! Tirava fotos em 5 megas, era muito massa isso, pô![rindo] Eu me lembro que a gente tinha acabado de conhecer Larissa. E a gente sabia que ela tinha um humor bizarro também, que toparia fazer uma coisa desse gênero! Eu sei que começou meio como uma brincadeira. Aí Vinícius disse, peraí, eu vou fazer esse roteiro! Aí me passou pelo msn [The Microsoft Network] – o roteiro de Bárbara é bem assim, sabe? Ele, depois eu, depois ele, e vai fazendo um roteiro assim, e não mexe na parte do outro não!9
Vinícius Gouveia: Sim. O roteiro ia e vinha muito. Eu escrevi um pequeno roteiro, aí Txai
foi e acrescentou novos personagens. Só que a história não estava acabada ainda, aí me mandava. Eu ia, acrescentava mas outra personagem e mais um pedaço da história. Mandava pra ele. Ele escrevia mais um pouquinho... mandava pra mim. Eu não fazia nem ideia de estrutura de roteiro, nem nada. A gente ia escrevendo e, sei lá, a estrutura aconteceu do filme daquele jeito. É o que Txai fala sempre: “Ah, é um filme para as piadas, não as piadas são para o filme!” Txai sempre fala isso. Enfim, Woody Allen tá aí. Fez muito isso no início da carreira dele e deu certo! [risos].10
Fernanda Lima: Isso bate com uma lembrança que eu tenho, de eu, Vinícius e Txai, que a
gente adorava esse personagem da freira que cantava tudo, que eu me lembro até hoje, [cantando:] Você quer um copo d’água? E eu me lembro que cantar “Você quer um copo d’água?” era o nosso vício de linguagem! Eu lembro que a gente se divertia fazendo umas ceninhas, os três. No meio de uma situação aleatória, a pessoa chegava e falava alguma coisa que não fazia sentido, aí um virava pro outro e fazia: [cantando] Você quer um copo d’água? [risos].11
Jane Pinheiro: Uma coisa que nos deixa curiosos, é o fato de vocês terem escolhido fazer
um longa-metragem. Vocês passaram dois anos e meio para concluir Bárbara, a bárbara I...
Txai Ferraz: Acho que em algum momento a gente se deu conta que a gente tava fazendo
um longa, né? Mas [rindo], acho que seria um média, talvez. Assim, na parte do roteiro – não lembro se a gente conversou sobre isso –, não sei se a gente tinha consciência que a gente tava fazendo um roteiro de um longa metragem! [rindo] Acabou sendo um longa porque algumas cenas acabaram sendo muito mais longas do que a gente queria... Falta uns cortes, assim [risos]! Mas aí a gente acabou... Meu deus, talvez seja o primeiro longa trash feito em Pernambuco! [risos]12
Larissa Cavalcanti: A gente não tinha muita ideia, assim. A gente ia fazer a história, mas
não tinha muita ideia de montagem. A gente vê e fica, aí meu deus, tá muito longo, isso! Não tinha ideia de tempo. Era: Não vamos cortar essa cena porque ela é muito genial! Se a gente tivesse uma ideia antes de como é difícil produzir, a gente teria feito um curta, eu acho, porque longa.... Por isso que é aquela coisa, né? Bem... bem malfeito, mesmo! Porque a gente não tava ali para fazer nada pra ganhar um Oscar. Era só pra se divertir. E Vinícius montou tudo, não tirou nada. Tinha coisa que a gente acrescentava, tipo, Meu deus, bora fazer Renan assistindo a novela.... Tinha ideia, muita ideia que surgiu, então o filme foi aumentando. Ao invés de diminuir, a gente aumentava! Aí é gigante!13
Agora, gente, como é que Vinícius conseguiu montar um longa-metragem no Movie Maker?! Essa é a pergunta que não quer calar!14
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Jane Pinheiro: Estive muito atenta aos comentários que os participantes dos filmes
faziam enquanto assistíamos aos filmes.15 Além das lembranças, dos acontecimentos
por trás das câmeras, eu percebi que se surpreenderam com alguns aspectos técnicos dos filmes.
Em vários momentos fizeram referência à trilha sonora, por exemplo. Em outros, aos cortes e à qualidade da edição em condições tão precárias, como pudemos perceber na fala de Larissa. Claro que também escutei críticas divertidas com relação ao excesso de contraluz em Bárbara, a bárbara I; ao fato de algumas piadas serem tão datadas que muitas pessoas não iriam entender; à captação de som; incongruências na direção de arte...
E, como não poderia deixar de ser, ouvi muitas comparações com relação à qualidade técnica entre Bárbara I e Bárbara II. A mudança da câmera utilizada: o primeiro foi gravado com uma Tekpix, e o segundo com duas filmadoras digitais, o que resultou em mudanças na qualidade da imagem e do som captado. Outra diferença entre os dois filmes que foi mencionada diz respeito à organização durante as filmagens. Bárbara, a bárbara II foi filmado em uma semana! Ah, e Vinícius também falou, em dado momento, que Bárbara,
a bárbara II era o melhor roteiro da vida dele!16
Vinícius Gouveia: Bárbara, a bárbara II foi diferente, porque eu ia fazer cinema no vestibular,
Txai ia fazer cinema no vestibular, Larissa tinha acabado de passar no vestibular de cinema. Foi naquele momento que Larissa tinha se mudado praquela casa dela, aquele casarão: vamos fazer um filme aqui! Fui na locadora e loquei filmes como O que terá acontecido a
Baby Jane?, O Falcão Maltês. Filmes que eu sabia que tinham uma atmosfera noir, tramas
psicológicas, tramas que eu achava que um casarão propiciava, por exemplo. Teve todo um estudo antes de fazer o roteiro. Não foi simplesmente as referências da nossa cabeça, como foi Bárbara, a bárbara I. Também tinha essa vontade de fazer cinema, a gente queria fazer o mais profissional possível, embora continuasse com uma coisa trash. A gente queria ser trash, mas tinha uma maior organização e tentativa de se profissionalizar. Vamos fazer o mais profissional que a gente puder, que a gente tiver aqui agora. E a gente fez, eu acho. Essa foi a maior diferença entre o um e o dois.
O primeiro eu editei todo, o segundo quem editou foi Larissa. Tanto que indicações maravilhosas de músicas, Larissa tirou e botou a que ela queria... mas enfim, tá!17
Jane Pinheiro: Você tinha dado sugestões de música e ela não colocou, foi?
Vinícius Gouveia: Eu não tinha dado sugestões, eu tinha colocado no roteiro, o roteiro
era a bíblia! [risos] Algumas cenas mudaram, ganharam uma autoria também de Larissa. Hoje, talvez ela fosse me ligar e perguntar sobre as mudanças ou não mudar nada. Mas, naquele momento, o mais importante era o filme e não a autoria de um ou outro. Até hoje eu penso como teriam ficado as cenas com a músicas que eu queria [risos]. Acho que com isso aprendi a respeitar o outro profissional e também dar espaço para ele.18
Txai Ferraz: Bárbara, a bárbara 2... Quando Larissa se mudou, a gente cresceu, melhorou
de vida, foi morar numa casa no Poço – saiu da Várzea para o Poço da Panela –, a gente viu a casa: “Meu deus, tem que escrever um roteiro de Bárbara, para Bárbara morando nessa casa [risos]! Inspirados na casa, na riqueza de Larissa, a gente escreveu um roteiro sobre a herança de Bárbara [risos]. A gente tava no início do terceiro ano. A gente fez o roteiro, eu e Vinícius, mas assim, a gente já tinha mais noção sobre pontos de virada da história, sobre a vilã e... não sei, sobre narrativa clássica, já tinha mais noções. Eu estava com uma filmadora, que foi a mesma que a gente fez Tripé19. Larissa tinha comprado uma
parecida também. A gente: “Pô, a gente tem duas câmeras, tem uma casa, a gente tá de férias, vamos tirar onda!”20
Eu lembro, por exemplo, que a gente já tinha um cronograma de filmagem nesse filme. Mas não era muito bem pensado, não. Tinha trinta cenas, são cinco dias: seis cenas por dia: 1, 2, 3, 4, 5 e 6! [ rindo], por ordem consecutiva...21
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Vinícius Gouveia: Era muito de, vamos gravar! A gente não tinha ideia de produção, de
roteiro, de... nada disso. Só que naquela época, teve coisa que a gente só foi estudar na faculdade: como fazer uma ordem do dia; como fazer uma produção antes, das coisas que nós vamos precisar; pensar em decupagem. Era muito intuitivo mesmo! Mas eram intuições que hoje, na faculdade de cinema, eu revejo e digo: “Gente, eu fazia isso em
Bárbara, a bárbara! Que engraçado!”22
E eu acho que a gente aprendeu muita coisa fazendo Bárbara, a bárbara. Muita coisa organizacional e técnica.23
Jane Pinheiro: Agradeço a Fernanda, Larissa, Txai e Vinícius pelos depoimentos. Alegria,
amizade, aprendizagem, animam suas falas. Fazer esses dois longas, creio, tornou-se algo inscrito na história de vida de cada um de seus participantes. Um contato estreito por um período longo de tempo, com o intuito de produzir um filme, sem nenhuma outra pretensão senão essa, torna-se um espaço privilegiado de observação de si mesmo no contato com os outros, de um olhar renovado sobre si mesmo, de resiliência. Participar de Bárbara, foi um aprendizado de produção e de técnicas cinematográficas. Mas essa participação se inscreve na alma de cada um dos participantes, principalmente como um momento de consolidação de amizades. E a amizade, creio, é uma das mais belas formas de amor.
Creio que podemos encerrar a mostra. Confesso que estou invadida por um misto de alegria e nostalgia.
Sophie da Silva Motta: Boa noite! Se me permitem, antes de encerrarmos, gostaria de
ler um brevíssimo texto que escrevi como homenagem a essa geração que aprendi a amar com meu querido professor Michel Serres. Assisti a todas as sessões absolutamente encantada com a possibilidade de ver a alma adolescente projetada num cinema tão belo.
Jane Pinheiro: Sophie, que grata surpresa poder ouvi-la no encerramento da Mostra.
Para quem não conhece, Sophie da Silva Motta é filósofa, com interesse nas questões contemporâneas. Filha de pai brasileiro e mãe francesa, vive entre os dois países de origem. Na França, tem colaborado com Michel Serres há muitos anos. Adiemos, ainda que por alguns instantes, o fim. Por favor, Sophie, a palavra é sua.
Sophie da Silva Motta: Passo, então, à leitura do texto.
ba
Dandelions
Sophie da Silva Motta: Apenas ao cair da tarde de ontem, nossos avós viram surgir o
cinema, as imagens projetadas na página-parede sonhadas por nossos ancestrais na aurora dos tempos antes mesmo da invenção do livro. E já na manhã de hoje, essas imagens são produzidas e se disseminam por e para qualquer um, em qualquer lugar, mediadas pela tecnologia, nas páginas da caixa-computador ou dos artefatos de bolso. Imagens produzidas por um movimento do polegar e por ele dispersas, como sementes ao vento, no mesmo dispositivo em que foram produzidas. Sonhos, denúncias, delírios, captados na rua, na praça, na cidade, no quarto, projetam-se ao alcance do próximo que mora do outro lado do mundo, ou na esquina, conectado na mesma rede, alimentado pela mesma seiva randômica, serendipitina.
Ao longo desses três dias tivemos oportunidade de vê-las desfilar numa tela grande – artefato ultrapassado?
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O que descobrimos? A nós mesmos, arriscaria responder. Ainda mais, descobrimos o mundo que está por se inventar. Nossa humanidade transformada de maneira radical, nos deixa ouvir os rumores de uma nova revolução hominescente. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.