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Makine Ayarı

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Vera Flores: Recife. Ah, Recife! Quantas cidades numa mesma cidade? Quantas cidades

engendras por tuas ruas, rios, pontes? Passeias por nossos olhos, entranhas nossa alma nos filmes que acabamos de assistir. Cenário, locação, personagem. Múltipla, esquiva. Quantos passados? Quantos presentes? Podemos entrever teus futuros?

Imagino-te incontáveis cidades sobrepostas por onde trafegam esses realizadores, seus personagens e sonhos.

Imagino-te tranquila, serena, nas margens dos rios, aquietando pássaros, alimentando peixes e pescadores. Em Recife 85 és aquela do Mercado de São José onde inda hoje podemos encontrar os brinquedos de outrora, cidade-passado/presente. Nele, a câmera subjetiva passeia por ti lentamente. Percorre as velhas casas das Ilhas do Recife e de Santo Antônio. Olha com detalhe cada coisa, cada transeunte, cada ambulante, cada barraca, cada brinquedo. Visita com calma teus prédios modernos, tuas pontes, teu rio. Navega em tuas águas. De seu texto, narrado na voz de um jovem, emergem, melancólicas, tua história, tuas lendas, teus fantasmas.

Em Recife 85, não vemos os olhos que nos mostram a cidade... mas vemos tuas imagens esmaecidas pelo tempo, delas transbordam tua beleza e nostalgia.

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Imagino-te sôfrega, tuas vias atravancadas por teu trânsito caótico, teu transporte público ineficiente, dificultando a mobilidade daqueles que em ti habitam, trabalham ou passeiam.

É assim que te sinto em Fôlego. Vemos tuas paisagens fugidias, sempre em movimento, em um ritmo opressivo. Vemos a cidade que a personagem não consegue ver e que nós, quando estamos correndo como ela, também não vemos. Sufocados, os transeuntes resistem, resignam-se.

Mas eis que surges, como outrora, no casario do Poço da Panela. Lá o tempo ainda é outro, lá ainda é possível respirar. Lá, na tua infância, Recife, reencontramos a nossa. Lá podemos brincar às margens do Capibaribe, andar de bicicleta, admirar tua beleza, e recobrarmos um ritmo mais humano. Lá podemos simplesmente ser.

Imagino-te esquecida de si mesma, do que viveste, de tuas origens, como uma velha acometida de demência. Tua vontade de juventude, paradoxalmente, só piora tua doença. Porque, para ti, ser jovem é varrer da superfície qualquer evidência do passado, aplicando, em cada recanto, Botox de concreto.

Em De novo aqui, vemos os olhos que tentam revisitar-te, Recife. Vemos os olhos que te veem, não vemos o que eles veem. Podemos sentir a melancolia desse olhar que busca reconhecer no que vê, o que viu outrora. És outra, sempre outra. “Acaso não é assim com todas as cidades?” Poderias retrucar-me ressentida. E eu te responderia: Viajaste pouco, querida. O que conheceis do mundo? Aquilo que atracou em teu cais? Se é verdade que todos mudamos a todo instante, zelamos por manter íntegro algo da nossa essência. Acaso andamos, por aí, amputando membros, jogando fora intestinos, olhos e cabeça? Nunca acalentei a ideia de que permanecerias imutável, mas esperava que tivesses apreço, ao menos, pelos teus horizontes. Apareces de soslaio numa única sequência do filme De novo aqui sobre o qual falávamos, e vemos que não podemos mais te ver, por toda parte edifícios em construção. Trocaste a amplidão da tua paisagem por aglomerados verticais.

Ah, minha Recife, és uma cidade a qual não se pode voltar. Devastada pelas empreiteiras e construtoras, tornaste-te uma cidade sem passado. Onde depositas, Recife, o pó da tua memória? Onde pensas que ele se acumula? Para onde vão os entulhos dos casarios e armazéns derrubados? Digo-te que enquanto construías distraída tuas torres, uma outra Recife se erguia, uma Recife de escombros e de esquecimento, uma Recife tão grande quanto a que és agora.

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NOTAS E REFERÊNCIAS

1 “Eu era primeiro período de Cinema [...] como eu sabia que eles tinham essa vontade

de fazer também, a gente fez.” (Larissa Cavalcanti, 08 maio 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

2 “Fôlego foi o primeiro curta sério, [...] Mostra Pernambuco do Cine-PE 2010.” (Larissa

Cavalcanti, 08 maio 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

3 “A tela grande de cinema inclui uma plateia gigante que, no caso [como hoje], foi a do

São Luiz. [...] Eu já tinha recebido elogios dele antes, porque ele estava no YouTube antes de ir para essa mostra...” (Larissa Cavalcanti, 08 maio 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

4 “Sem contar que quando você vê o filme pronto, você pensa, meu filho!! [...] Mas eu

gosto...” (Larissa Cavalcanti, 08 maio 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

5 “e a gente acabou fazendo ele em cinco dias [...] porque a gente tinha o deadline do

concurso.”; A gente roteirizou [...] A gente dividiu e a galera saiu com a Cyber-shot na rua, filmando.”; “Todo mundo filmou. [...] A gente virou a noite, todo mundo junto editando...” (Bruna Monteiro, 11 nov. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

6 “é um filme muito saudoso... E é engraçado porque ele é saudoso de uma coisa que

ainda existe...” (Bruna Monteiro, 11 nov. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

7 “Boa noite, eu sou Txai Ferraz, eu falo pelo filme Três Voltas. [...] Quer completar Vinícius?”

(Txai Ferraz, 06 dez. 2013. Depoimento no 15o FestCine, Cinema São Luiz, 2013).

8 “Não, só dizer que Amanda Beça e Ana Lúcia, [...] Obrigado, meninas!” (Vinícius

Gouveia, 06 dez. 2013. Depoimento no 15o FestCine, Cinema São Luiz, 2013).

9 “foi em 2011, [...] Acho que muitas coisas mudaram na cidade, desde então.”; “Mas

a ideia surgiu muito assim [...], foi muito pensar... Caramba, tenho vinte anos, sou adolescente, num país adolescente, também.” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

10 “Quando a gente fez esse filme, [...] já tava na faculdade.”; “Na faculdade a gente via

[...] queria se aprimorar de alguma forma dentro daquela função,”; “se não soubesse como fazer aquela função ia conversar com algum profissional de cinema mesmo, pra trocar uma ideia.”; “Mas foi muito isso, um desejo de se provar [...] que a ideia podia ser desenvolvida de uma forma melhor [...]” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

11 (Vinícius Gouveia, 26 nov. 2009. Orkut, Colégio de Aplicação – UFPE [Comunidade],

Fórum [Tópico “Fôlego”]).

12 (Cf. FIGUEIRÔA, 1994, p. 19; 27).

13 “Fazer cinema naquela época [...] estava fazendo cinema.” (Kátia Mesel, 01 mar. 1989.

FIGUEIRÔA, 1994. p. 38. Depoimento a Alexandre Figueirôa).

14 “Arranje uma Câmera, reúna a turma, vá para a rua. A transa é filmar.” (Geneton Moraes

Neto in Diário de Pernambuco, Recife, 03 jun. 1973, Domingo, p. 11 apud FIGUEIRÔA, 1994, p. 31).

15 (KELLY & PARISI. Wired, Feb.1997).

16 Título de filme dirigido por Geneton Moraes Neto. (A esperança é nômade, 1981). 17 (BAUMAN, 2012).

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18 “A gente estava discutindo justamente o roteiro de Fôlego. [...] Já que nós três meio

que pensa parecido e cada um meio que tem um foco de trabalho.” (Larissa Cavalcanti, 08 maio 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

19 “Eu entrei em cinema querendo fazer. [...] e eu quero dividir com as pessoas.” (Vinícius

Gouveia, 09 jan. 2014. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

20 “Eu vim muito mais pela parte de fazer, e hoje em dia eu tô muito inclinado para a parte

de refletir.” (Vinícius Gouveia, 09 jan. 2014. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

21 “acho que a gente queria fazer cinema e tal. [...] que a gente queria se testar.” e “Então

aquilo de vamos fazer um coletivo [...] quero ver se eu quero mesmo isso, se eu gosto mesmo disso, e ao mesmo tempo já vamos nos profissionalizando.” (Vinícius Gouveia, 09 jan. 2014. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

22 “Surgiu observando o pessoal que tava fazendo cinema por aqui [...] Tudo de boca!

Mas, a gente pensava em tudo, menos em... filmes! [risos]” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

23 “Sim, no De novo aqui a gente pagou pra trabalhar! [...] e aí fez um mini-orçamento,

bem mini mesmo, bem [risos].” (Larissa Cavalcanti, 08 maio 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

24 “Eu coloquei um monte de dinheiro, [...] E tinha uma cota de trinta reais de cada

membro da equipe do filme pra conseguir fazer.” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

25 “Pedi dinheiro a todo mundo!” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane

Pinheiro).

26 “A grande vontade era que [...] fosse um filme teste de todo mundo.” e “E a gente

colocou dinheiro, equipamentos emprestados...” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

27 “a gente tava querendo algo que a gente pudesse usar pra outras coisas depois, [...]

Amanda pra gravar que funcionasse bem pra câmera...” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

28 “Vou polemizar, agora!! [...] O que a gente quer passar com isso, sabe?” e “Vamos

justificar essa ideia, [...] Foi isso, a gente procurando as imagens, um lapidando a imagem do outro, foi isso.” (Vinícius Gouveia, 09 jan. 2014. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

29 “E o filme é experimental, no sentido de experimentação. [...] uma oficina que ele

fez extra” e “Tem um efeito na câmera [...] Foi muito assim, sabe, uma vontade de experimentar com essas coisas.” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

30 (Cf. FIGUEIRÔA, 1994. p. 117). 31 (Cf. FIGUEIRÔA, 1994. p. 114-5).

32 “Na época era! [...] Dá até um pouquinho de vergonhinha assim, sabe? Ganhei uma

gincana! [...]” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

33 “eles pediam um vídeo [...] Foi feito naquela época, só que não foi!” (Txai Ferraz, 10

dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

34 “Porque o filme é sobre lembranças.”; “A gente fez um exercício de lembrança e de

ficção” e “brinca muito de não ser mentira, nem verdade.” (Bruna Monteiro, 11 nov. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

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35 “brinca [...] com essa coisa de forjar uma realidade, dizer que é documentário...”

(Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

36 “recuperando a memória dos nossos pais e dos nossos avós, [...] da nossa relação

com a cidade,” e “vendo o que era interessante, e o que não era, de botar no filme.” (Fernanda Lima, 27 jun. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

37 “E Recife 85 foi engraçado, porque eu não sou do Coletivo, [...] E era muito difícil porque

tinha tanta coisa que eu não aceitava...” (Fernanda Lima, 27 jun. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

38 “A gente fez uma disciplina [...] Como a gente tava numa coisa de intercâmbio... “;

“A gente ficou muito, muito livre pra fazer esse filme, no final das contas!”; “E sei lá, acho que a gente retoma coisas [...] Quando eu e Vinícius vai fazer alguma coisa, a gente sempre acaba voltando...” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).

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