Sophie da Silva Motta: O que antes parecia um cochicho, um murmúrio desses
adolescentes, murmúrios projetados nas telas-páginas, rasgou-se em grito, estilhaçando os vidros que os continham, invadiu as ruas, incendiou carros, derrubou governos. Sua fumaça ainda encobre nossas cabeças – revoluções em nuvem.
O que querem? O que reivindicam? Cada um, indivíduo, à sua maneira, luta por um mundo melhor. Mas esse mundo melhor nem sempre entra em acordo com aquele de quem está ao seu lado na rua, apanhando da polícia, ou chorando lágrimas provocadas por pequenos objetos de contenção de mudanças.
Primavera: Tunísia, Egito, Argélia, Nigéria, Líbia, Jordânia, Mauritânia, Sudão, Omã, Arábia Saudita, Síria, Iêmen, Djibuti, Iraque, Somália, Bahrein, Kuwait, Marrocos, Saara Ocidental... Occupy: Occupy Wall Street (Nova Iorque), Occupy Taksim (Istambul, Turquia), Occupy Baluwatar (Kathmandu, Nepal), Occupy Oslo (Noruega), Occupy London (Inglaterra), Occupy Berlin (Alemanha), Occupy Sydney (Austrália) Occupy Dataran (Kuala Lumpur, Malásia), Occupy Estelita (Recife, Brasil), Occupy Central with Love and Peace (Hong Kong, China)... Indignados (Espanha), Revolta do Vinagre (Brasil)...
Palestina, Palestina, Palestina...
Seria preciso dar a volta ao mundo para enumerar os protestos que ocorreram como rastro de pólvora, reação em cadeia, efeito dominó desde o início da segunda década do novo milênio... Em todos eles, a importância das tecnologias digitais e da informação é evidente. Com o mundo nas mãos por meio de um smartphone, polegar em riste, imagens de violência, de repressão e massacres são captadas e difundidas por uma geração que vive na tecnologia. Diverso de mim, e de tantos outros, que apenas trabalhamos com essas tecnologias, eles vivem nelas. E há, aí, uma diferença de visão que, na minha opinião, vai mudar a face do mundo. Que pode engendrar uma nova democracia!24 Mas... o que
digo eu? Uma nova democracia? Por que contentarmo-nos com o novo do mesmo? Por que sempre essa velha senhora, desde a Grécia antiga, a cuidar com esmero de apenas “1%” da população? Por que não nos reinventamos também aí? Nós que transformamos os corpos, as distâncias, as dores, por que não reinventamos nossa forma de estarmos juntos, de decidirmos nosso destino, doravante, comum? Não, não se animem fascistas de plantão, meus sonhos aspiram outra direção... e sonhar nunca é demais. Uma outra humanidade é possível. Creio que muitos sonham comigo.
Grata, muito grata!
Jane Pinheiro: Não é à toa que encerramos a Mostra com sua fala, Sophie. Somos gratos
por sua voz consciente dos problemas contemporâneos, poética e que aposta na esperança. Agradeço a todas as pessoas que estiveram conosco esses dias.
SESSÃ
O L
ONGA
NOTAS E REFERÊNCIAS
1 (Lars Von Trier. TIRARD, 2006, p. 171. Entrevista concedida a Laurent Tirard).
2 (Werner Herzog, 2002. CRONIN & HERZOG, 2002, p. 42. Entrevista concedida a Paul
Cronin).
3 As falas foram transcritas a partir de um pequeno registro em vídeo feito por alunos da
PD Cinema e Vídeo do CAp-UFPE no dia do lançamento do filme em 2008.
4 “Bárbara, a bárbara foi uma brincadeira! [...] Apesar de ser longa, era uma brincadeira.”;
“Ele uniu, talvez, a gente. Ele fazia rir, ele estressava. [...]” (Kelle Lima, 07 maio 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).
5 “o lançamento não foi só um lançamento, [...] ‘a gente vai sair do colégio... daqui a
pouco a gente vai sair do colégio’.”; A gente até repassou umas partezinhas dele [...] Eu mesma interagi com muita gente que eu não interagia [...].” (Kelle Lima, 07 maio 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).
6 “[...] os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade.
Os fluídos, por assim dizer, não fixam o espaço nem prendem o tempo. [...].
“Os fluidos se movem facilmente. [...] A extraordinária mobilidade dos fluidos é que os associa à ideia de ‘leveza’. [...] Associamos ‘leveza’’ ou ‘ausência de peso’ à mobilidade e à inconstância [...].
“Essas são as razões para considerar ‘fluidez’ ou ‘liquidez’ como metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase, nova de muitas maneiras, na história da modernidade.” (BAUMAN, 2014, p. 8-9).
7 “Perguntas... Questões... Eu não sei as respostas!” (Fala da personagem Lucrécia,
representada por Renan Valadão, em Bárbara, a bárbara 2).
8 Jesus te ama!! [Pastor Cerafim] (2006).
9 “Bárbara, a bárbara, esse clássico do cinema pernambucano [...] e não mexe na parte
do outro não!” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).
10 “O roteiro ia e vinha muito. [...] mandava pra mim.”; “Eu não fazia nem ideia de
estrutura de roteiro, nem nada.[...] e deu certo! [risos].” (Vinícius Gouveia, entrevista concedida à autora, 09 jan. 2014)
11 “Isso bate com uma lembrança [...] a gente adorava esse personagem da freira que
cantava tudo”; “[...] que eu me lembro até hoje, [cantando:] Você quer um copo d’água?”; “E eu me lembro que cantar [...] Você quer um copo d’água? [risos]” (Fernanda Lima, 27 jun. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).
12 “Acho que em algum momento a gente se deu conta [...] Meu deus, talvez seja o
primeiro longa trash feito em Pernambuco! [risos]” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).
13 “A gente não tinha muita ideia [...] Ao invés de diminuir, a gente aumentava!”; “Aí é
gigante!” (Larissa Cavalcanti, 08 maio 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).
14 “Agora, gente, como é que Vinícius conseguiu montar um longa-metragem no Movie
Maker?! Essa é a pergunta que não quer calar!” (Larissa Cavalcanti, 20 dez. 2014. Comentário feito durante sessão especial de Bárbara, a bárbara na residência de Jane Pinheiro).
15 No dia 20 de dezembro de 2015, foi realizada uma sessão de Bárbara, a bárbara 1 e Bárbara, a bárbara 2, com a presença de Bruna Monteiro, Caio Azuirson, Humberto
MOSTRA IMA
GINÁRIA
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e Vinícius Gouveia, na residência de Jane Pinheiro. Os comentários aqui mencionados foram expostos nessa ocasião.
16 (Vinícius Gouveia, 20 dez. 2014. Comentário feito durante sessão especial de Bárbara, a bárbara na residência de Jane Pinheiro).
17 “Bárbara, a bárbara 2 foi diferente, [...] Não foi simplesmente as referências da nossa
cabeça, como foi Bárbara, a bárbara 1”; “Também tinha essa vontade de fazer cinema, [...] Essa foi a maior diferença entre o um e o dois.”
“O primeiro eu editei todo, [...] mas enfim, tá!” (Vinícius Gouveia, 09 jan. 2014. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).
18 “Eu não tinha dado sugestões, eu tinha colocado no roteiro, [...] aprendi a respeitar
o outro profissional e também dar espaço para ele.” (Vinícius Gouveia, 09 jan. 2014. Entrevista concedida a Jane Pinheiro [Trecho revisto e editado por Vinícius Gouveia, 06 fev. 2015, por e-mail.])
19 Tripé (2007). Filme produzido para a Feira de Conhecimentos do CAp-UFPE, por Bruna
Monteiro, Fernanda Lima, Txai Ferraz, Vinícius Gouveia e Vitor Hugo Antero com a orientação dos professores Suzano Guimarães e Jane Pinheiro.
20 “Quando Larissa se mudou, a gente cresceu, melhorou de vida, foi morar numa casa
no Poço [...] a gente escreveu um roteiro sobre a herança de Bárbara [rindo]” e “A gente tava no início do terceiro ano. [...] ‘Pô, a gente tem duas câmeras, tem uma casa, a gente tá de férias, vamos tirar onda!’” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).
21 “Eu lembro, por exemplo, que a gente já tinha um cronograma de filmagem [...] por
ordem consecutiva [...]” (Txai Ferraz, 10 dez. 2013. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).
22 “Era muito de, vamos gravar! [...] pensar em decupagem”; “Era muito intuitivo mesmo!
[...] revejo e digo: ‘Gente, eu fazia isso em Bárbara, a bárbara! Que engraçado!’” (Vinícius Gouveia, 09 jan. 2014. Entrevista concedida a Jane Pinheiro)
23 “E eu acho que a gente aprendeu muita coisa fazendo Bárbara, a bárbara”; “organizacional
e técnica.” (Vinícius Gouveia, 09 jan. 2014. Entrevista concedida a Jane Pinheiro).
24 “Com o mundo nas mãos [...] Que pode engendrar uma nova democracia!” (Michel
Serres, 2012. CHÉREL, 2012. Adaptação livre de trecho de entrevista concedida a Guillaume Chérel).
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