Jane Pinheiro: Convido Kelle Lima, diretora de Colando novas figurinhas, Fases de uma vida, Brincando com peças de Lego e A transformação; Bruna Monteiro, diretora de Somos Todos, Elecrônico, A praça é pra quem? e Quem não tem teto tem pressa; Vinícius Gouveia,
diretor de Renan e Rodrigo Azevedo, diretor de O confronto, para que venham compor a mesa e possamos dar início ao diálogo entre a plateia e os realizadores.
Gostaria que as perguntas contemplassem todos os audiovisuais exibidos. Digo isso pensando na exiguidade do nosso tempo e na riqueza do que assistimos. Sugiro que a questão seja endereçada diretamente a um realizador
Agradeço a disponibilidade de todos os presentes para participarem dessa conversa! Passo o microfone para a primeira pergunta do público. Por favor, façam uma brevíssima apresentação de si mesmos, acho que pode nos ajudar a compreender o lugar de onde estão falando.
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Guilherme, psicólogo em um Centro de Atenção Psicossocial – Kelle, olhando para
o conjunto de seus filmes, percebe-se uma forte crítica social... Dinheiro, violência, drogas... Ao mesmo tempo, é muito forte a presença das relações de afeto, cuidado...
Kelle Lima: Na verdade eu sempre fui uma pessoa muito crítica. Eu dificilmente elogio.
Eu gosto de criticar, eu gosto de bater no ponto fraco! Então, o fato de você colocar um tema meio-ambiente, eu não vou pensar no lado positivo, eu vou pensar em reclamar do que tá acontecendo com aquilo. Eu acho que o que mais me inspira é a falta de. Não é a presença de.1
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Mônica, estudante de jornalismo: Então, Kelle, o que lhe move a fazer filmes é denunciar
a falta das coisas?
Kelle Lima: Exatamente. Eu gosto dessa parte de criticar, de denunciar, de buscar
o porquê. As vezes não é nem criticar, é buscar o porquê. Tudo depende, mas eu não gosto muito de fazer um filmezinho, eles namoraram e viveram felizes! Eu gosto, ou de brincar, que é o que eu faço com Não é só um ano de namoro, que é o que eu faço com A
transformação, ou de criticar! É mais o meu lado! Aí eu acho que é mais fácil de lidar com
isso que fazer uma coisa só por fazer.2
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Anita, urbanista envolvida em questões de direitos urbanos: Bruna, parece-me que
você também tem uma inclinação muito forte à crítica social, como Kelle. A diferença talvez esteja no fato de você focar num problema concreto, específico. Seu vídeo- denúncia A praça é pra quem?, pelo que sei, teve uma repercussão muito grande, você poderia falar um pouco sobre isso? Você esperava essa repercussão?
Bruna Monteiro: Esse vídeo, foi um amigo meu que me chamou, Lucas Cardim – lá do
Colégio de Aplicação... Ele falou que tava rolando isso na praça e queria me pagar pra eu fotografar, pra mandar pros jornais, denunciando. Eu não entendi direito o que era. Aí eu fui lá fazer as fotos. Ele falou preu ter cuidado, que o povo da Casa dos Frios3 já estava de olho
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Lucas, deixa eu entender qual é a situação...” Quando eu entendi o que era, eu disse: “Não Lucas, não me pague pra fazer o vídeo, não! Eu vou fazer, pô! Isso é um absurdo! “4
Eu filmei e Juliana falou. Juliana é jornalista, ela tem uma fala, um pensamento crítico muito bom também! Eu filmei sozinha, eu tinha comprado a minha câmera há pouco tempo, a TIIi. Foi um dos meus primeiros trabalhos de vídeo. Quando foi botar no computador de Lucas, o computador de Lucas não aguentou a qualidade da imagem que era HD. Eu saí ligando pros meus amigos, contei a história pra Amanda Beça, quando Amanda soube qual era a história... “Não, pô! Vem pra cá, a gente faz, eu não tô fazendo nada.” Aí a gente editou. E Lucas tava com muito medo de mostrar rosto, mostrar placa de carro, tanto que a gente embaça e tal. Depois botou no ar.5
Eu não imaginava que ia ter essa repercussão. Eu trabalhava no Diário de Pernambuco, o Diário me perguntou: “Por que você não falou que ia fazer esse vídeo?” Eu: “piffffff!”. Eu tinha acabado de entrar, há um mês. Foi capa do JC [Jornal do Comércio] durante três dias, da concorrência! O Diário nunca deixou eu dar entrevista pro JC. Juliana que acabou levando o vídeo, ela deu entrevista na TV Tribuna, deu entrevista pra Rede TV. Acabou que Juliana que levou o vídeo porque Amanda não queria falar, porque ela só tinha entrado de gaiato, e o jornal não deixava eu falar pras outras emissoras. E daí, teve vinte mil acessos. Eu não esperava. Foi uma coisa muito surreal, muito surreal. Depois teve a história do paralelepípedo.6 Depois teve o protesto na praça. A galera ocupou a praça lá. Depois ela
foi reformada. E toda vez que eu passo por ela, eu fico me sentindo meio, “Porra, eu que ajudei isso aqui!”. Foi um marco de que era possível fazer mudança, que era possível fazer mudança pelo audiovisual, era possível fazer jornalismo, independente de jornal. Isso foi muito importante pra mim, preu entender... Me amadurecer mesmo, na minha profissão. Tanto que Somos todos foi consequência disso. A gente foi para São Paulo fazer porque já tinha visto que há como produzir seu trabalho sem censura, sem nada. Foi... Foi fuderoso! Foi um presente.7
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Liliana, antropóloga, trabalha com ONGs que defendem os direitos da criança e do adolescente: Boa noite, eu gostaria de parabenizar todos os realizadores por seus
trabalhos. Pelo que pude observar muitos desses trabalhos vocês fizeram quando eram ainda mais novinhos. Para mim, que sou uma jovem de setenta e oito anos, eu diria que o fizeram quando eram crianças! [risos] E vocês eram umas crianças muito sérias, não? [risos] Todas muito preocupadas com questões sociais e existenciais profundas...
Embora meu inglês não seja muito bom, fiquei muito tocada com o filme de Vinícius –
Renan. É que ele vai fundo em algumas questões que assolam a nossa sociedade por
meio de uma ficção com um único personagem. Sabemos de Renan pela repetição de suas ações num espaço confinado em planos fechados, e pela narrativa de uma voz-over feminina. Assistindo ao filme, uma melancolia tomou conta de mim. Talvez a solidão do personagem... Fechado em seu mundo, Renan, mesmo quando fala ao telefone, não estabelece uma relação com os outros, senão consigo mesmo. Interessa a ele, nessas ligações telefônicas, manter-se socialmente vivo, estar aí, como diria Christoph Türck.8
Fiquei me perguntando quem seria essa voz-over feminina e por que em inglês? Poderíamos dizer que Renan seria o ícone de um determinado tipo de sujeito contemporâneo?
Vinícius Gouveia: O filme foi em inglês porque foi pra um concurso americano, e a gente
só fazia filme pra concurso, basicamente, que era pra gente ganhar viagem! Ao mesmo tempo, a voz é feminina porque era a pessoa que falava inglês, para poder colocar a voz. Eu não vejo hoje, nem pretendi – Ah, essa voz é a voz dele, ou é a voz que julga ele –, não tem. Agora, eu acho que ele pode ser um ícone da pós-modernidade porque todo mundo no Brasil, se pensar o jovem brasileiro, todo mundo tem que esperar o momento de: acabou o colégio, vai passar pra faculdade. Todo mundo tem aquela espera de passar no
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vestibular, se você fez uma boa prova.9 E é um momento de bem entre-lugar, você não
sabe onde você vai chegar, você tá com seu próximo ano, sua vida, nas mãos de alguma coisa, nas mãos do azar. Primeiro tem isso, essa espera, que todo mundo passa – todo mundo não, a maioria das pessoas, jovens de classe média de um país subdesenvolvi..., em desenvolvimento, como o Brasil, passam. Que aqui no Brasil é assim, esse sistema de vestibular. E além disso, na época eu me sentia muito preso por querer viver, querer sair, mas sempre tinha o problema de morar numa cidade como o Recife que não é aberta a uma... Você não consegue viver no Recife, porque você tem medo de... É ruim pra ir, é ruim pra voltar pros lugares, o transporte... Não é seguro, é difícil. Às vezes você reclama que não tem opções do que fazer. Era tudo muito complicado. Eu achava tudo muito difícil naquela época. Eu queria sair de casa, mas tinha preguiça do que ia fazer na rua, sabe? Porque eu achava que nunca valia a pena sair de casa praquilo. Então tinha essas duas coisas assim, de você esperar, como basicamente todo jovem hoje em dia, no mundo, espera pra começar um trabalho, ou começar a universidade, mas aplicado a Recife que tem essa organização que você não consegue viver uma vida, sabe? Não vive no seu bairro com amigos que moram próximos. Também porque a minha formação no Recife foi bem diferente, normalmente as pessoas estudam perto de casa e moram perto uns dos outros. Eu não tinha isso. Mas ao mesmo tempo, eu acho que todo mundo vive bem claustrofóbico, bem dentro de casa, dentro de quarto, não vive tanto a cidade. A tendência, enfim, contemporânea, mesmo, de você viver dentro de casa, dentro do prédio, dentro de shopping. Que eu não acho ruim, mas que naquele momento me sufocava um pouco. Porque também você tá esperando, não tem nenhum objetivo na vida – seu objetivo é esperar uma resposta. Então você não tem muito o que fazer. Você fica, eu vou ver filme, eu vou ver meus amigos, vou escutar música, acho que todo mundo vive meio que isso, nesse momento que tá acabando colégio e começa a faculdade. É bem naïf, acho, bem jovem, bem pirralho, mas ao mesmo tempo é o que a gente vive. Eu vi os meus amigos viverem algo parecido com isso.10
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Flávio, estudante secundarista: Rodrigo, achei muito legal seu filme. Adoro filme de
luta! Tem gente que pensa que quem faz filme de luta não tem nada na cabeça, só quer saber de violência. Mas, o filme de vocês, por exemplo, quase não tem pancada! É um filme de luta que, para mim, pode tá falando de vários de tipos de coisas que a gente tem que enfrentar na vida. Gostei muito daquela mulher com roupa japonesa, do jeito que vocês mostraram ela parece que é de outro mundo... É como se ela fosse a consciência dele, ou a força interior que todos nós temos, mas nem sempre usamos. E quando ele acredita nele mesmo, na sua força, ele ganha a luta. No fundo, o terrível adversário que ele tem que enfrentar eu acho que é o medo e a falta de confiança em si mesmo. Não sei se falei muita coisa nada a ver...
Rodrigo Azevedo: Nossa cara, você falando essas coisas do nosso filme, eu fico até sem
jeito... Com esse filme a gente participou do Festival do Minuto, mas foi horrível. Foi horrível, o nome é feio. Só pelo nome: O confronto. Nós soubemos do festival três dias antes. Eu tava conversando com Lucas, Lucas disse: Poxa, a gente pode tentar gravar alguma coisa, é apenas um minuto, a gente faz algo extremamente simples. Aí eu digo, tudo bem Lucas, Então a gente vai fazer... uma briga. Um confronto, entre um cara do mal, a gente vai tentar passar isso pela roupa dele, a roupa dele era toda escura, ele estava numa parte escura também. Então, um cara do mal, lutando contra um cara do bem, os dois vão estar vestidos como se fossem roupas orientais. O roteiro era bem simples, até porque era de um minuto, era apenas um, brigando contra o outro. Só que era mais falado, era mais ambiental do que a própria briga. Tanto que não teve briga. Um encarava o outro, ele estava caído no chão, todo maquiado, com feridas e tudo mais... Daqui a pouco vinha uma garota, vestida de gueixa, com uma sombrinha, representando um espírito japonês. Que conforme existe uma lenda japonesa de espíritos, de outras pessoas, de
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vidas anteriores, de seus antepassados que lhe ajudam em horas difíceis, e tudo mais. Ela pegava, falava alguma coisa pra ele, ele se levantava. A gente deu um jeito lá de cair flores, foi... Até a parte da roupa estava tudo bem, porque a gente ajeitou toda a roupa direito. A gente ajeitou todo o local direito, até aí estava tudo bem. Mas, o nosso primeiro erro: não eram atores, eram alunos de engenharia! Que eu disse, cara, só tem vocês! Porque os dois lá, lutavam. Um fazia muay thai, tudo bem. A menina não, a menina realmente fazia teatro. Eu disse, não, tudo bem, vocês vêm. Mas esse não foi o único problema. Além do fato de eles não serem realmente atores, o que foi bem complicado, o dia foi – como é que eu posso dizer? – foi horrível! Fomos atacados por uma cobra! A gente estava gravando praquela parte de lá do rio, da Federal [UFPE]. Quando, de repente, estávamos ali, eu só escuto o menino gritando: Uma cobra! E pulando pra trás. Quando a gente vê, só viu um vulto da bicha pulando pra cima da gente, o menino deu tempo de pular e tudo o mais. A gente – Caramba! Ficou lá, tipo, meia hora parado, querendo ver se a cobra saía, e a cobra lá parada! Aí, eu disse, tudo bem! A cobra saiu, a gente falou, vamos voltar. Não deu vinte minutos que a gente foi pra lá, apareceu um cachorro pit bull! O cara soltou um cachorro pit bull, ali. O cachorro ficou correndo atrás das bolsas da gente, e ficava rodando entre a gente, e a gente sem saber o que fazer. E o cara estava bem longe, a gente falou com ele, ele guardou o pit bull, mas nisso a gente perdeu em torno de uma hora, mais ou menos. Mas depois disso a gente conseguiu fazer. A gente editou correndo. A gente chegou a participar do festival. A gente ganhou três ovinhos, três estrelinhas, dos cinco. Acho que a gente merecia um! Porque foi muito, foi muito amador. Enfim, foi tudo bem simples, foi totalmente amador e no improviso, e no imprevisto!11 E eu fico feliz que você
tenha gostado, porque foi nosso primeiro filme, e tivemos todos esses problemas que acabei de contar. Mas nós já estamos trabalhando noutro filme, e num esquema bem mais profissional, quero dizer, mais organizado, com atores, com tempo...
Werner Herzog: Permitam-me fazer apenas um comentário... Olha, Rodrigo, no meu
primeiro longa, também enfrentei uma série de adversidades. Aprendi muito rápido que essa é a verdadeira natureza de uma filmagem. As coisas nunca acontecem como você imagina e não há o que reclamar a esse respeito. Para um cineasta, que depende de tantas coisas que não estão sob seu controle, essa é uma lição importante.12 Bom, era só isso.
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Adriano, ativista: Boa noite todos e todas! Eu também adoro filme de luta, mas de luta
social. Para mim, a câmera digital é uma arma, uma arma contra esse sistema falido, opressor. E ela não é uma arma só na minha mão, não! No Brasil, na Turquia, na Faixa de Gaza, as câmeras incomodam. Vi um garoto em Salvador, Bahia, transmitindo ao vivo, quando teve aquela onda de protestos, em 2013, no Brasil. Vi a Turquia tirar o YouTube do ar, Israel pressionado por garotos palestinos com celulares denunciando a maneira como são tratados. Agora não tem mais esse negócio de ficar esperando a Rede Globo, nem nenhuma outra imprensa oficial dar a notícia, nós somos a notícia e o noticiário. Inclusive ao vivo. Eu só preciso de um celular conectado pra colocar a imagem na hora, em
streaming13, no ar! Para spray de pimenta e bombas de efeito moral, vinagre e tecnologia
digital! Talvez por isso eu tenha ficado mais tocado com os filmes de Kelle e Bruna. Principalmente de Bruna, porque eu sigo ela na internet já faz um tempo! E porque, pra mim, os filmes dela ao mesmo tempo que apresentam comunidades lutando por direitos fundamentais do ser humano, os filmes, eles próprios, se inscrevem como protagonistas nessa luta... Eu vejo isso em Somos Todos, em Quem não tem teto tem pressa, e em A
praça é pra quem? Esse último teve um papel decisivo, como vimos na fala da realizadora
há pouco, na reapropriação daquela pequena praça, enquanto praça, pela população do Recife, já que estava sendo usada como estacionamento pelos burgueses da Zona Norte da cidade. Bruna produz vídeos-denúncia, investe seu tempo e dinheiro para produzir esse vídeos. Mas pra ela isso é pouco. Ela promove os vídeos, agrega pessoas, na esperança de mudar a realidade, na esperança que os Pinheirenses e os moradores da Vila São Miguel
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reconquistem suas casas. Bruna, uma adolescente que produz filmes de luta, ao mesmo tempo em que luta incansavelmente por uma sociedade mais humanizada... Não sei, essa ideia de adolescente fazendo selfies e postando no Facebook – tão explorada por revistas como a Nouvel Observateur e a Time14 –, entra em crise diante do seu trabalho.
Eu acho muito legal que esses filmes estejam passando nessa Mostra, para que as pessoas percebam que nós jovens estamos pensando o planeta, as cidades, as relações humanas, estamos agindo, e que há uma diversidade de ações, porque, como Bruna disse, fazer audiovisuais é uma ação. Quando eu pego minha câmera, meu celular, e transmito um conflito com a polícia, ao vivo, sem cortes, isso é uma ação, é jornalismo, é luta!
Bruna Monteiro: Obrigada, Adriano. Só gostaria de deixar claro que não fiz nenhum
desses filmes sozinha. Em Somos todos, por exemplo, divido a direção com Nathália Dielú que não pode estar presente, hoje. Acho que você percebeu que o jornalismo é minha paixão. E o cinema vem dentro dessa paixão como uma possibilidade de produzir jornalismo. Comecei a fazer produções jornalísticas com o intuito de denúncia e de reflexão.15 Nesse espectr0 de vídeos-denúncia, eu acho que um dos trabalhos que mais
me marcou foi um vídeo que eu vi de um garoto chamado Pedro Rios Leão, que se chama
Eu queria matar a presidenta. Esse cara estudava Comunicação na UFRJ e desistiu porque
disse que aquilo era uma bitolação, e hoje ele é um ativista. E nesse vídeo ele fala sobre o conhecido massacre do Pinheirinho, que aconteceu em São José dos Campos, interior de São Paulo, dia 22 de janeiro de 2012. Onde oito mil famílias foram desabrigadas numa confusão judicial, às cinco da manhã. A TV não passou isso. A única TV autorizada a entrar foi a TV Vanguarda da Rede Globo, e que mostrou o que quis. E a grande maneira de se divulgar esse massacre, foi pela internet. Pessoas que não aguentaram apenas ler sobre aquilo. Queriam ver, queriam saber qual era a realidade. Foram lá e filmaram. Nesse dia, eu vi que eu também podia fazer isso. Eu já tinha tido uma boa experiência com outro vídeo que se chama A praça é pra quem? Foi o primeiro indício que eu vi que o audiovisual e o cinema tem uma resposta efetiva na sociedade. Isso foi em outubro de 2011, em janeiro de 2012 houve esse caso de Pinheirinhos, eu vi o vídeo do Pedro Rios Leão, e eu e umas amigas minhas decidimos que... se o cara do Rio de Janeiro foi e fez, por que a gente também não poderia fazer? E aí a gente foi para São José, parcelou em dez vezes a passagem, pela necessidade de ver, e não só ver, pela necessidade que os outros vissem. Eu vejo cinema muito como uma janela mesmo, uns óculos, que as pessoas vejam as coisas, e o que ela vai fazer a partir dali não é mais comigo. Eu só quero que ela veja. Vai depender como cada um vai se comportar diante daquelas imagens. Aí a gente foi, viu, foi uma das experiência mais fortes da minha vida. Sem dúvida alguma um divisor de águas pra o que eu viria a ser hoje. Foi uma das maiores tristezas que eu já vi. Foi uma grande escola. A gente errou pra caramba, a gente tinha feito todo um roteiro, na hora saiu outro. Mas foi uma experiência assim, pro meu audiovisual e pra Bruna como pessoa...