ÖĞRENİM KALİTESİNE KATKISI *
Görsel 16: The Lady From the Sea, Armani, S/S men 1997 Kaynak: URL-18
Em Materialismo racional, publicada pela primeira vez em 1953, Bachelard (1990) preconizou que a ciência da matéria seria a ciência do futuro:
Com efeito, os problemas tratados pelas ciências da matéria multiplicam-se atualmente e diversificam-se com tal rapidez que o materialismo científico – se acompanharmos os pormenores dos seus pensamentos afetivos – está prestes a tornar-se a filosofia mais complexa e mais variável que existe (BACHELARD, 1990, p. 9).
Reforçando sua tese, o autor citado assinala que os fatos estão à comprovação: ―a produção de idéias e de experiências, [...] excede a memória de um homem, a imaginação de um homem, o poder de compreensão de um homem‖έ Mas esta nova perspectiva teórica não exclui do seu âmbito de estudo o pensamento nem o ser pensante. Ela reformula o papel deste na história, porque ―para tocar nos pontos donde parte o movimento do saber‖, os homens devem se unir ―para encontrar, no próprio homem, uma verdadeira riqueza psicológica, uma via certa, (sendo) necessário procurar esta riqueza no cume dos pensamentos‖ (BACHELARD, 1990, p. 9-10)‖έ
Nesse novo materialismo, o homem se duplica no homem, a partir do conhecimento que é posto como o plano do ser, onde este encontra sua potencialidade, que se amplia mediante a renovação do conhecimentoέ Segundo Bachelard (1990, pέ 10), ―a ciência contemporânea introduz o homem num mundo novo. Se o homem pensa a ciência, renova-se enquanto homem pensante‖έ O autor coloca este ser pensante num plano mais amplo, no socialέ O pensamento não é individualizado e sim compartilhado numa ―socialização intensa,
4 A física clássica utiliza o termo matéria, do latim materia, para se referir aquilo que trata como sendo uma
substância física, uma coisa (ou qualquer coisa) que ocupa um espaço, um lugar no mundo físico. A matéria é o que pode ser encontrado na qualidade inércia ou não, mas o que, na maioria das vezes, é utilizado para a formação de outra coisa (por esta razão, a expressão matéria prima), que por sua qualidade material, de objeto, pode ser observado enquanto massa elementar, sendo nomeado de Átomos e subdividido em Prótons, Neutros, e Elétrons. Felizmente, as descobertas da física moderna (séc. XX) permitiu enxergar que a matéria é, acima de tudo, energia viva, e o mais importante, vibrante. Com isso, a oposição entre Matéria e Energia, que era predominante desde a Idade Média, perdeu o seu foco e passou a não ter mais sentido algum, pois as descobertas de Albert Einstein provaram que a matéria também é uma forma de energia, e que variava, dependendo da ação da temperatura e da pressão empreendida para a composição de um corpo que, diferentemente do que era concebido antes, poderia ser, inicialmente, Sólido, Líquido, Gasoso, Plasma e Condensado.
claramente coerente, segura das suas bases, ardentes nas suas diferenças‖έ Assim, o saber não é algo individualizado, mas social.
Essa nova concepção, ao pensar na relação entre o homem e um saber, que é coletivo, rompe com a concepção ultrapassada do materialismo clássico, que enxergava o pensamento como algo essencialmente progressivo no âmbito da matéria. Dessa forma, a ciência em análise passa a ser considerada como uma cidade do saber científico, no qual ―todos os pensamentos trazem a marca do ser pensante‖ e a matéria é posta como pensamento (BACHELARD, 1990, p. 11).
A nova perspectiva do materialismo afasta-se da concepção tradicional, um materialismo sem matéria, metafórico, que castrava no seu domínio o potencial da matéria, numa espécie de automutilação. Nesta linha de pensamento, torna-se ―necessário estudar verdadeiramente o materialismo da matéria, o materialismo instruído pela enorme pluralidade das diferenças materiais, o materialismo experimentador, real, progressivo, humanamente instrutivo‖ (BACHELARD, 1990, p. 12).
Nasce, nesses moldes, um racionalismo material, ativo, que dirige as experiências sobre a matéria, ao passo que ordena uma diversidade continuamente crescente de matérias novas, sendo, por motivo desta ordenação, também, um materialismo ordenado.
O motivo da ineficácia do materialismo tradicional se deu pela vontade de poder5, o sonho de dominar e sempre se manter dominante. Foi com a apropriação dos poderes da matéria pelo homem que esta perdeu sua força, pois com a vontade de poder, o homem extraiu o poder que era próprio da matéria e, com a posse deste, mutilou-se. O homem morreu pela objetividade científica e matou, também, seu objeto, a matéria. Investimentos numa ciência da matéria inerte, um sonho de domínio do homem sobre homem e a coisa.
A ganância do homem, no materialismo clássico, fez extrair o valor da matéria e criou uma ciência desprovida de um papel significativo para os estudos da atualidade. Assim sendo, a ciência da matéria, na contemporaneidade, deve abandonar os vínculos com a ciência do passado que, por vaidade científica, levou à morte seu objeto de estudoέ Por essa razão, ―o materialismo científico está constantemente em situação de nova flutuação. [...] é retomado como uma doutrina do espírito humano. [...] o que é novo é fundamental (BACHELARD, 1990, pέ 15)‖έ Esta nova ciência da matéria tem pela frente o objetivo de, verdadeiramente,
5 Foucault (1979, 1995, 1997, 2002, 2005) refletiu acerca desse desejo do homem pelo poder, de toda a sua
produzir descobertas. Não dissecar o animal para conhecer suas entranhas, mas observá-lo, atentando-se as suas práticas, no espaço de sociabilidade, seu habitat.
Enquanto a matéria foi ignorada e desprovida de poder, a forma foi privilegiada, incondicionalmente. Assim, a matéria foi explicada a partir de sua forma. Para Bachelard (1990), a forma é um dos componentes da matéria, assim como significante e significado para Saussure (1971) e expressão e conteúdo para Hjelmslev (1975). Contudo, com uma importante diferença, na perspectiva teórica bachelardiana, uma não se opõe a outra, ambas se completam.
Mas o mais agravante foi ter colocado a matéria, que se encontrava em situação de desigualdade na escala dos valores daquela ciência da matéria inerte, em oposição à forma. À forma cabia o papel de ser e à matéria coube o papel de não ser. A matéria era vista como uma ―antiforma, o nada da forma (Bachelard, 1990, pέ 18)‖έ Assim, coube à matéria o papel de ser o receptáculo de irracionalidade, ―pedra parada‖, coisa sem valor, além de ser um obstáculo para o desenvolvimento da ciência, como a pedra posta no caminho de Drummond (1964):
No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra.
O materialismo clássico, por muito tempo, foi uma pedra no meio do caminho da ciência moderna. Como os pesquisadores dessa ciência eliminaram o poder da matéria. Esse desprezo da matéria demonstra quão improdutivos foram os arranjos para a composição de um campo teórico que se sustentava numa concepção de ciência desprovida da consideração de uma energia vivificadora da matéria, o que é próprio da materialidade.
Nesse sentido, Bachelard (1990, p. 20) argumenta:
Mais que outra filosofia, o materialismo, parte verdadeiramente das experiências em torno da matéria, oferece-se um verdadeiro campo de obstáculos. O obstáculo suscita o trabalho, a situação não pode ser senão a topologia dos obstáculos; os projetos vão contra os obstáculos. Assim começa o materialismo ativo e toda filosofia que trabalha encontrará, pelo
menos, as suas metáforas, a própria força das suas expressões, em resumo, toda a sua linguagem na resistência da matéria.
Vemos na citação referida que a matéria exerce um papel principal no estudo do materialismo. A forma torna-se urgente em consequência da primazia da matéria. No materialismo racional, a matéria desempenha uma função pioneira, mas não deve ser analisada separadamente, ela possui forma e energia, perceptíveis e diversificadas. Assim sendo, a matéria deve ser colocada em contraste com outras e cada parte elementar, que a compõe também é solidária com as demais partes elementares que se encadeiam para a composição de uma rede energética de valor significativo. Isto empreende uma ação de coordenação dos elementos formadores do todo material.
Metodologicamente, é possível um exame isolado de determinada parte da matéria, como era comum ao materialismo tradicional, que produzia resultados antes aceitáveis. No entanto, hoje não é aplicável tal isolamento de um componente da matéria afastado de outro, pois os resultados não são mais vistos como coerentes. É da relação das partes componentes de um todo, do exame de sua forma e da interação produtora/promotora da matéria com as demais que coexistem num mesmo campo de atuação, que o materialismo racional extrai a compreensão precisa para o estudo científico na contemporaneidade.
Esta relação de cooperação entre as matérias é posta no materialismo racional, como assinala Bachelard (1990), a partir do termo ―consciência misturada‖έ Aliás, devemos explicar que este termo compreende a relação tanto entre matérias diversas quanto entre os componentes de uma mesma matéria. Estes se combinam num processo de composição da matéria e esta também se combina com outras, objetivando, por conseguinte, a formação de matérias complexasέ Para o autor, ―desde o momento que as matérias são consideradas nas suas reações mútuas, a partir do momento que as matérias são, de alguma maneira, matéria relacionada uma com a outra, aparece um intermaterialismo que é um traço específico da ciência da matéria (pέ 25)‖έ Este intermaterialismo é colocado como metatermo na teoria da ciência da matéria e é compreendido como a relação entre matérias, uma espécie de interação entre corpos solidários, com formas específicas, determinando a formação de outras matérias. Para o autor, esta é ―uma fenomenologia que cria incessantemente novas matérias‖, pois ―um intermaterialismo se instrui nas reações mútuas de diversas substâncias (pέ 2ι)‖έ
Como podemos observar, a relação entre matérias diversas gera outra matéria, resultado do embate entre matérias externas. Todavia, a relação que se dá entre os
componentes de uma mesma matéria não é diferente. Há, assim como no outro caso, uma interação entre componentes, um embate entre matérias internas. Este processo gera uma mutação da matéria, uma espécie de mudança que a transforma ou, para aqueles que são temerosos com o impacto de algumas terminologias, há uma renovação da matéria ou ainda, se preferir, uma atualização material.
Para Bachelard (1990, p. 26), se nos limitarmos a olhar para a matéria exteriormente sem enxergar o valor gerado a partir de sua relação com outras matérias, estaremos reproduzindo uma postura objetivista, praticada pelo materialismo clássico. Estaremos analisando apenas um componente da matéria, uma partícula do fenômeno a ser estudado, isto é, sua forma. Postura que levou o materialismo do passado a conceber ―a consciência misturadora como consciência impura, como consciência confusa, precisamente porque esta consciência misturadora se interessa pelos limites individuais, pelas cores instáveis, pelos volumes mutáveis‖έ
Outro ponto relevante para o desenvolvimento do nosso propósito é a diferenciação entre forma, matéria e objetoέ Já explicamos antes que os componentes ―forma‖ e ―matéria‖, nas atribuições teóricas bachelardianas, são interdependentes. Cabe agora precisarmos um pouco mais o valor atribuído pelo teórico para esses elementos, mas enfatizando que o termo ―diferença‖, utilizado neste ensaio, não implica julgamento de valor entre os elementos que compõem a matéria, sendo utilizado, metodologicamente, apenas para a organização do nosso entendimento acerca da ação desta fenomenologia.
A forma é o sinal da matéria e o objeto é o que está na exterioridade da matéria, mesmo sendo um dos seus componentes. Assim, cabe ao objeto desta o posto de referência da matéria, aquilo que, estando fora, aponta para ela, leva-nos ao seu alcance. Todavia, devemos salientar que ―forma e objeto não são senão um instante da matéria (BACHELARD, 1990, pέ 2θ)‖, eles não são a matéria em si, mas um dos seus compostosέ
Dessa maneira, o materialismo racional, a ciência moderna da matéria, visa, com a multiplicidade de problemas apresentados, estabelecer uma fenomenologia que nos induz a ver o potencial desta. Para tanto, e visando ao desenvolvimento de um conceito de oralidade que seja aplicável pelos novos paradigmas científicos do estudo da linguagem, atentando para as discussões que vêm sendo travadas no campo das ciências humanas, explanamos acerca do que cremos ser essencial para o que objetivamos concluir no desfecho deste estudo: será no embate do que foi proposto por Bachelard (1990), a partir da divisão materialista entre a
imaginação e a experiência, que ampliaremos o nosso olhar acerca do que vem a ser esta nova oralidade.