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THE APPLICATION OF MODAL REPRESENTATION IN EDUCATIONAL RESEARCH

Os confrontos em sala de aula entre professor e aluno são iniciados, principalmente, por mecanismos (currículo, método, conteúdo disciplinar, normas, leis) que atuam (in)

diretamente no fazer didático. Ainda que a opção metodológica seja por um modelo orientado à emancipação dos sujeitos envolvidos. O educador se vê inserido em uma teia formada de processos hierárquicos, coercitivos e excludentes que determinam o que é permitido ou não no contexto escolar. Em outras palavras, muitas vezes o docente se sente obrigado a aceitar direcionamentos que legitimam este “engessamento”.

Para refletir sobre este processo, recorremos à ordem discursiva de Michel Foucault (2008), autor que apresenta a hipótese, segundo a qual o discurso utiliza determinados mecanismos de controle, legitimando a noção de que “a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que tem por função conjurar poderes e perigos, dominar seus acontecimentos aleatórios” (FOUCAULT, 2008:8-9).

Para Foucault, os relatos são práticas que compõem a realidade, ou seja, determinam hierarquias, distinções e estabelecem o que “pode” ou “não pode” ser dito. O autor, em A ordem do discurso, introduz o estudo do poder como instrumento de análise ao tratar da explicitação dos saberes. Enfim, sua investigação está centralizada nas relações entre as atitudes discursivas e os poderes que as atravessam.

Há que se considerar o ordenamento linguajeiro no âmbito do complexo administrativo que fiscaliza as instituições escolares, que por meio de programas educativos estabelece situações pedagógicas e planos de ensino. O francês (2008:44-45) entende que o sistema educacional já é uma maneira de manter ou modificar a apropriação de dizeres, com os saberes e poderes que trazem consigo.

O que é afinal um sistema de ensino senão uma ritualização da palavra; senão uma qualificação e uma fixação dos papeis para os sujeitos que falam; senão a constituição de um grupo doutrinário ao menos difuso; senão uma distribuição e uma apropriação do discurso com seus poderes e seus saberes?

O entendimento da escola como espaço mediativo intercruzado por novas linguagens e modos de comportamento e a noção de que os modelos educacionais formais são constituídos por três eixos básicos: hierarquia, coerção e exclusão, são tópicos que Adilson Citelli apresenta em Comunicação e Educação: a linguagem em movimento.

Na pesquisa, Citelli aponta a necessidade de análises mais aprofundadas acerca da organização de conteúdos, no caso: Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), e planos de ensino estabelecidos, o pesquisador reflete sobre como os documentos oficiais se tornam

manuais pelo fato de discorrerem objetivos, competências e avaliações, além de definirem estratégias com exigências por meio de metas e mensuração de resultados.

Pela via da estrutura escolar, considerando sua lógica institucional presente, parece não existir outra forma de aprender senão tendo em mira os conteúdos como finalidades em si e que aliados a outros postos na mesma série terminariam por legitimar as unidades (de conhecimento) chamadas de disciplinas. (CITELLI, 2004:109)

Em relação à Língua Portuguesa enquanto componente curricular, as mudanças históricas ocorridas, citadas anteriormente, e a publicação dos PCN´s foram orientadores que legitimaram a inserção de inúmeras mensagens sociais circulantes.

Quanto ao documento, Citelli lembra que tem também entre seus objetivos a descentralização dos programas escolares. Entretanto, acrescenta (2004:85), nas instituições formais:

a tendência nesse tipo de escola, foi de elaborar programas educativos fechados em que não se ajustam comportamentos que possam levar à quebra das sequências hierárquicas justificadas pela lógica da melhor escolha de conteúdos e pela autoridade de quem as selecionou.

Para o autor, “neste caso, os critérios de valor e importância respondem, sobretudo, aos gestos de perpetuação e manutenção de tópicos que o discurso escolar apresenta como únicos merecedores de crédito” (2004:87-88). Em sua análise, há equívocos em determinadas linhas pedagógicas quanto a uma suposta unicidade na qual o docente assume o papel de “dono da palavra”, restando ao aluno o passivo papel de receptor.

Neste sentindo, “o sintagma ‘ser dono da palavra’ requisita a compreensão mais aprofundada desses mecanismos, pois, ao entrar no jogo parafrásico, o professor, ele próprio, torna-se instância de reprodução discursiva”. (CITELLI, 2004:91).

A seguir, um mapa conceitual25:

25 O mapa foi elaborado por Eliana Ozores em aula da disciplina Linguagem, Comunicação e Educação, ECA/USP, ministrada em outubro de 2008 por Adilson Citelli.

Na proposta acima, acrescentamos que nos chamados sistemas de exclusão, ou melhor, o procedimento de interdição em si, “o mais familiar”, como Foucault descreve, apresenta-se composto por três tipos, formando uma espécie de jogo entre o tabu do objeto, que é a palavra proibida, o ritual da circunstância, isto é, a adequação ao sistema, e o direito de quem fala, ou seja, a “palavra de autoridade”.

Este último, por sua vez, aproxima-se do conceito de “discurso competente” desenvolvido pela filósofa Marilena Chauí, para quem “tal discurso se confunde com a linguagem institucionalmente permitida ou autorizada, isto é, com uma fala na qual os interlocutores já foram, previamente, reconhecidos como tendo o direito de falar ou ouvir” (1981:7). É uma mensagem que tem o poder de fazer com que as supostas verdades da instituição, no caso do sistema de ensino, sejam expressão da verdade de todos.

Retomamos o pensamento de Citelli, pois acreditamos que, em relação aos processos de coerção, é preciso considerar a permanência dos mecanismos tradicionais no ambiente escolar. Sendo assim, por mais que a busca de consenso entre professor e aluno seja um pensamento frequente entre pesquisadores e nas teorias pedagógicas, ainda é possível

observar, na ação didática, verdadeiros monólogos, exemplificados na obra de Chauí e constatados nas relações: coordenador-professor, diretor-coordenador e Secretaria de Educação-gestor.

Em analogia à proposta foucaultiana, pensamos em uma “ordem do discurso escolar”, reconhecendo uma voz em instância superior na “pirâmide hierárquica social”, iniciada na orientação instituída pela rede educacional.