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O capitalismo é um sistema econômico e social sustentado pela exploração da força de trabalho assalariada que tem se perpetuado como modo de produção em praticamente todos os Estados-nação do planeta. Em larga medida, tal domínio se deve as constantes crises que enfrenta e cujas respostas são sempre permeadas de contradição e atingem diretamente a classe trabalhadora e os mais pobres. Para Klein (2007), contudo, as crises econômicas mundiais que sucederam a Segunda Guerra Mundial foram gestadas por ministros de finanças e presidentes de banco central reunidos em encontros bilaterais para discutir os rumos da economia do planeta. A autora relata que em meados da década de 1970 havia nas instituições financeiras sediadas na capital estadunidense ―uma disposição não só para criar uma aparência de crise através da mídia, mas também para tomar medidas concretas para gerar crises que fossem bem reais. Dois anos depois, Williamson49 fez suas observações sobre ‗arrumar‘ uma crise‖ (KLEIN, 2007, p. 259) (tradução nossa). Klein (2007) relata ainda que Michael Bruno50 defendia abertamente a idéia de uma crise suficientemente grande que poderia sacudir os políticos relutantes em instituir reformas que promovessem a produtividade

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FONTE: Site de notícias on line BBC BRASIL. Acesso em: 28 jun. 2017. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40603081.

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John Williamson, influente economista britânico , foi conselheiro do FMI (1972-1974) e também esteve a frente do Banco Mundial (1996-1999) discursou na Conferência ‗A economia política da reforma política‘, realizada em janeiro de 1993, em Washington DC, ocasião em que utilizou a expressão ‗Consenso de

Washington‘. 50

Então economista-chefe de economia de desenvolvimento do Banco Mundial, em uma palestra para a

Associação Econômica Internacional em Túnis, em 1995 − mais tarde publicada como um documento do Banco

pontuando ainda que a economia política, em tempos de crises profundas, tende a produzir reformas radicais com resultados positivos. Apesar de soarem em princípio como ‗teoria da conspiração‘, somos tentados a concordar com Querido (2016) quando afirma que,

Jamais o capitalismo revelou-se tão destrutivo, social e ecologicamente,

acrescentando à ―barbárie moderna‖ do século XX (guerras, fascismos, massacres,

genocídios etc.) um novo rol de possibilidades de destruição social, do desemprego estrutural à situação dos imigrantes na Europa [...] que coloca em risco as próprias condições para a vida humana no planeta.51

Em nome da autopreservação, os capitalistas não hesitarão em lançar mão de qualquer medida que vise eternizar o seu domínio de classe – com a imprescindível articulação do Estado – ampliando o seu poder econômico através da acumulação desmedida de capital.

Fundados em 1945, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial são instituições financeiras mantidas com o dinheiro de mais de 170 nações que tem por finalidade promover a estabilidade financeira em escala global. Segundo Klein (2007), quando os países, sobretudo aqueles do capitalismo periférico, foram empurrados para uma crise na década de 1980, eles não tinham mais nenhum órgão para buscar ajuda a não ser o Banco Mundial e o FMI. Desse modo, quando os países em grave crise financeira se achegavam ao FMI ou ao Banco Mundial em busca de alívio da dívida ou empréstimos de urgência, (tal qual fez a Grécia nos últimos anos, embora o que ocorreu com a Polônia 20 anos antes tenha sido ainda mais grave) havia sempre a exigência do cumprimento de acordos por parte de tais países para que abrissesm suas economias à privatização e que firmassem parcerias público-pivadas (KLEIN, 2007; NOVAES, 2003). Em 2005, mergulhados em hiperinflação e desemprego, os países latino-americanos formavam o maior bloco de países devedores do FMI, representando 80% do total de empréstimos concedidos pelo fundo. Por outro lado, as medidas de austeridade fiscal do modelo neoliberal de governamentalidade capitalista adotado pelos Estados-nação que enfrentavam ou (ainda) enfrentam forte recessão econômica, tem apresentado como resultado o crescimento assombroso das desigualdades sociais e indices de concentração de renda sem precedentes no contemporâneo. Ao seguir os conselhos do Banco Mundial e do FMI, o Estado neoliberal contemporâneo se mostra ―cada vez mais alheio às políticas sociais cidadãs, totalmente focado em torno de ideias privatizantes em relação às políticas sociais e empenhado em torno das práticas de competitividade, eficiência, produtividade e lucratividade capitalista‖ (RECH; ARAUJO,

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QUERIDO, Fabio Mascaro. Jamais o capitalismo revelou-se tão destrutivo. Entrevista concedida a Glauco Faria. Revista Fórum, 12 jun. 2016.

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2017, p. 175) que via de regra resultam em mais desigualdades e aumento nos níveis de exploração da classe trabalhadora.

Christine Legarde, diretora-gerente do FMI52, em uma apresentação durante o Seminário Anual de Metas para Inflação em 2015, elogiou o conjunto de medidas de austeridade implantadas no escopo da macroeconomia brasileira pela então presidenta Dilma Roussef (em seu segundo mandato). Para a chefe do fundo, o Brasil ―vai claramente na

direção certa‖. Por outro lado, um artigo escrito por três membros53

do Departamento de Pesquisa do FMI mostrou que medidas de corte claramente neoliberal, como a eliminação das restrições sobre os movimentos de capitais (a chamada liberalização da conta de capital) e a consolidação da política de ajuste fiscal ou austeridade fiscal encolheram mais que expandiram as economias dos países que adotaram tais medidas. O estudo revelou ainda que o índice de desemprego é elevado a uma taxa de pelo menos 0,6%, mesmo em países que tiveram um aumento de 1% no seu Produto Interno Bruto (PIB). Porém, o dado mais revelador do fato de que tais políticas visam ampliar os indices de acumulação de capital, tornando os ricos cada vez mais ricos está no Coeficiente de Gini, que calcula o nível de concentração de renda dos países que se manteve estável na taxa de 1,5% ao longo de cinco anos. Apesar do envio de sinais truncados quanto à aplicação de medidas neoliberais, o fato é que, de acordo com a OXFAM54, a atual conjuntura econômica global pode ser seguramente descrita como o ‗século dos super-ricos‘ ou a segunda ‗idade dourada‘ do capitalismo que tem ofuscado o debate em torno de temas como desigualdades sociais e corrupção55. Não nos parece haver nenhuma dúvida de que o trabalho (altamente lucrativo) do FMI e do Banco Mundial, desde a sua fundação, de promover a estabilidade econômica mundial através dos empréstimos concedidos e dos ‗conselhos‘ dados principalmente aos países do ‗capitalismo tardio‘, contribuiu enormemente para que o mundo atingisse a atual crise de hiperacumulação e hiperconcentração de renda.

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FONTE: Sítio eletrônico do Jornal El País Brasil. Disponível em: < http://brasil.elpais.com/brasil/2015/05/22/politica/1432318353_881752.html>. Acesso em 22 jun. 2017.

Em 2016, já no governo do ilegítimo presidente Michel Temer, Legarde volta a elogiar as medidas de contenção

de gastos públicos − ainda mais rígidas. Disponível em: < http://www.bbc.com/portuguese/brasil-37491488>.

Acesso em 22 jun. 2017. 53

São eles: Jonathan D. Ostry (diretor do Departamento de Pesquisa do FMI), Prakash Loungani (conselheiro do Departamento de pesquisa do FMI) e Davide Furceri (Pesquisador do Departamento de Pesquisa do FMI). O artigo e os dados sobre os autores podem ser acessados no site oficial do Fundo Monetário Internacional. Disponível em: < http://www.imf.org/external/pubs/ft/fandd/2016/06/ostry.htm >. Acesso em: 23 jun. 2017.

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Cconfederação internacional composta por 20 organizações que atuam em 94 países pelo fim da pobreza e desigualdade.

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FONTE: Relatório produzido pela OXFAM e publicado no seu sítio eletrônico oficial. Disponível em < https://www.oxfam.org/sites/www.oxfam.org/files/file_attachments/bp-economy-for-99-percent-160117- en.pdf>. Acesso em 22 mai. 2017.

Ideologicamente o neoliberalismo se revestiu do discurso de defesa da liberdade – menos interferência do Estado na economia mais autonomia para as práticas de mercado − e das oportunidades para ‗mudar‘ de vida mesmo em momentos de crise econômica. Está desempregado? venda seu carro e monte um pequeno negócio. Desse modo, o capitalismo contemporâneo hoje nos controla até nos níveis mais particulares do nosso ser, reconceituando-nos enquanto um empreendedor de nós mesmos (WALL; PERRIN, 2015), de tal sorte que passamos a não mais ser concebidos como ‗Força de Trabalho‘, mas como um pequeno capitalista fazendo escolhas ‗boas ou más‘ (ŽIŽEK, 2015a). Somos diluídos na sociabilidade capitalista que nos obriga a vender nossa força de trabalho aos donos dos meios de produção como única possibilidade de sobrevivência. O neoliberalismo tem na Austeridade (política de redução de déficits fiscais e da dívida pública) a sua pedra angular e que na verdade ―funciona como uma estratégia de redução do custo empresarial. A austeridade reduz os custos trabalhistas do setor privado, aumenta o lucro por custo unitário (trabalhista) e, assim, aumenta a taxa de lucro‖ (MILLIOS, 2015, p. 1) (tradução nossa) e não há outra verdade possível a não ser esta. Assim, é quando mais acreditam estar nos iludindo afirmando que o ―neoliberalismo é a retirada do Estado da economia‖ que devemos estar convictos do seu reverso: ―só há capitalismo com Estado‖ (MASCARO, 2013b).

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Benzer Belgeler