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Arrighi (1996) relata que após a Segunda Guerra Mundial foi outorgado a todas as gentes o direito à autodeterminação, ou seja, o direito a se reunirem em comunidades nacionais e a partir disso serem admitidos como integrantes soberanos no sistema interestatal. Ainda segundo o autor, com a formação da ONU (Organização das Nações Unidas), o mundo vivia uma espécie de ‗descolonização‘, fato evidenciado pela Assembleia Geral em que os países foram apresentados como ‗iguais‘. Com a ‗missão‘ de garantir o pleno emprego, crescimento econômico e o bem-estar dos seus cidadãos, a partir dali o Estado nos países capitalistas centrais passava a definir as políticas industrial, fiscal e monetária − inspirado nas ideias do economista britânico John Maynard Keynes −, convertendo-se em um ―campo de força que internalizou relações de classe. Instituições da classe trabalhadora como sindicatos e partidos políticos de esquerda tiveram uma influência bastante concreta no aparato de Estado‖ (HARVEY, 2008, p. 21). No auge do fordismo (1945-1968) o Estado dos países centrais do capitalismo passa a regular o salário pago aos trabalhadores de acordo com a variação do salário nominal47 e tendo como base os preços ao consumidor, ―ao mesmo tempo, a cobertura dos elementos de bem-estar social passa a ser objeto de controle e promoção por parte do Estado – seguridade social, saúde, educação, habitação etc‖ (MASCARO, 2013, p. 121). No Reino Unido, a fundação do Sistema Nacional de Saúde (ou NHS – National Health Service) tem garantido, desde 1948, atendimento médico-hospitalar de forma gratuita para todos os cidadãos britânicos − é um dos maiores e mais eficientes sistemas de saúde pública universal

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O salário nominal equivale ao valor (mínimo fixado pelo Estado) recebido ao final de uma jornada de trabalho, mensal por exemplo. Se contrapõe ao salário real, que equivale ao poder de compra do valor recebido a cada 30 dias e que pode variar de um mês para o outro, já que o reajuste do salário nominal, que geralmente se dá a cada 12 meses, depende da taxa da inflação para ser calculado.

do planeta − e se tornou um marco naquele país da implantação do Estado de bem-estar social.

A fundação do Estado de bem-estar social foi, em alguma medida, um projeto necessário para que a Europa pudesse acreditar que valeria a pena lutar contra a (sua) ‗natureza‘ autodestrutiva que levou à morte mais de 30 milhões de pessoas daquele continente. Por outro lado, o capitalismo monopolista liderado pelos Estados Unidos via o bloco comunista liderado pela então União Soviética aumentar o número de adesões ao sistema de governo da superpotência rival, seduzidos em larga medida pelo seu sistema socialista de bem-estar e seguridade social. Assim, o Estado de bem-estar social democrático dos países capitalistas da Europa ocidental, para rivalizar com o Estado de bem-estar social do bloco comunista, não só foi ampliado como estabeleceu direitos à classe de trabalhadores jamais concedidos na história do capitalismo. Tais transformações devem ser refletidas a luz da compreensão de que,

O sistema capitalista só está disposto a fazer consideráveis concessões aos trabalhadores e aos pobres diante da séria ameaça de uma alternativa, de um modo de produção diferente que prometa conceder aos trabalhadores seus direitos. Para manter sua legitimidade, o capitalismo deve demonstrar que funciona melhor até para os trabalhadores e os pobres – e no momento em que essa alternativa desaparece, pode-se ir em frente e desmontar o estado de bem-estar social (ŽIŽEK, 2015a, p. 48-49).

De fato, como o Estado ‗é da burguesia‘, por mais que ele favoreça o proletariado em algum momento histórico de reorganização do sistema geral da exploração da classe trabalhadora, não há como, pela sua forma política, não ocorrer a retomada da aplicação de medidas que visem ampliar a acumulação de capital. Como sugere Mascaro (2015), embora falando de um outro contexto, mas que se encaixa cabalmente na situação em questão, ―o capitalismo mundial não comporta excepcionalidades nem se nega por virtuosidades isoladas‖ (p. 73). Em outras palavras, não é da ‗natureza‘ do ente gerencialista do modo de produção capitalista promover o esgarçamento dos conflitos que gravitam em torno do antagonismo social no seio da sociedade baseada no consumo, mas pulverizar a única força que pode dar fim a exploração da burguesia pela classe trabalhadora, qual seja, a luta de classes. Assim, a crítica fundamental ao neoliberalismo, que nasce no pós-guerra como uma reação teórica e política contra o Estado intervencionista e de bem-estar social keynesiano (ANDERSON, 1995), deve estar inserida em uma reflexão político-filosófica mais ampla que a enxergue como um projeto político global liderado pela classe corporativa capitalista − implementada pelo Estado −, de estrangular o poder da classe trabalhadora (HARVEY, 2016) (tradução

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nossa). Embora nos pareça arriscado declarar o fim do Estado de bem-estar social, sobretudo na Europa, hoje ele

perdeu quase completamente sua base de apoio e legitimidade, em vista da notória privatização de uma importante parte das funções do Estado. O próprio Estado torna-se globalmente, de forma crescente, um Estado gerencial, que privatiza as políticas sociais e que empurra para a ampla faixa populacional trabalhadora – desempregada, subempregada e marginalizada – a responsabilidade pela administração privatista de sua segurança social (RECH; ARAUJO, 2017, p. 177).

O investimento público em infraestrutura, indústria, agricultura e serviços resultam em aumento do PIB (geralmente precedido por aumento da dívida pública), o que em certa medida aumenta o poder de compra da maioria populacional48. Por outro lado, nem sempre o crescimento da economia é visto como bom momento para que os donos dos meios de produção ampliem suas margens de lucro.

Benzer Belgeler