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Fonte: Pesquisa de campo da Tese, 2007-2009

Formado pela junção das fazendas Diamante Negro e Jutay, o PA Diamante Negro/Jutay (8.885 hectares), é situado à margem esquerda da BR 222, a 240 km de São Luís, no trecho que pertence ao território de dois municípios da Baixada Maranhense: Igarapé do Meio, a leste, e Monção, a oeste, (AZAR, 2005, p.70). Segundo os entrevistados, anteriormente, a área era um sítio de Vitória do Mearim, onde residiam comunidades formadas por apenas um tronco familiar. Com a expansão da pecuária na região, nos anos 1970, esses grupos ficaram sujeitos a relações de exploração com o pretenso “dono da terra”, como cobrança de renda, para definir suas plantações, e a situações de conflitos, em função da destruição de suas roças pelo gado.

Em 30 de junho de 1989, dentro do processo de expansão do MST no Maranhão – que seguia sentido Imperatriz/Pindaré –, a fazenda é ocupada por grupos de maranhenses, oriundos dos municípios circunvizinhos, Vitória do Mearim e Igarapé do Meio e de nordestinos, do Ceará e do Piauí45, que se concentraram na área hoje denominada Vila Diamante. A ocupação contou com o apoio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e da Igreja Católica de Vitória do Mearim. Após dois despejos e conflitos com pistoleiro e a polícia militar, que resultaram em prisões de lideranças, as famílias resistiram e, no dia 17 de março de 1994, foi publicado no Diário Oficial da União a criação do PA Diamante Negro/Jutay.

A partir de 1995, o MST começou a propor uma estrutura organizativa que inclui a redefinição do espaço nos assentamentos, em agrovilas, obedecendo aos critérios geográficos e demográficos, com os objetivos de facilitar o acesso das famílias aos benefícios

      

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O processo de ocupação da fazenda Diamante Negro/Jutay foi recuperado em três estudos, nos quais me ancorei para a realização do trabalho de campo. Refiro-me à dissertação de mestrado em Políticas Públicas, de Zaira Sabry Azar; e às monografias de Florizângela Taveira e de Joaquim Bezerra Lima. Todos citados nas Referências. Tais elaborações são importantes, também, para compreender o processo de expansão do MST no Maranhão.

coletivos, facilitar o deslocamento das famílias para os locais de trabalho e evitar o inchamento dos assentamentos. Atualmente, no PA Diamante Negro/Jutay existem 11 agrovilas: Vila Diamante, Serdote, Morada Nova, Nova Morada, Baixa do Arroz, São Raimundo, Pau Girimbau, Ipiranga, Água Branca, Centro dos Cordeiros e Ananazal (AZAR, 2005, p.17). São 280 famílias cadastradas, mas o número de famílias residentes é superior46. Daí, a grande diversidade cultural neste assentamento.

Concentrei as visitas na Vila Diamante, agrovila que já passou por todo o processo de formação institucional de um assentamento, com a liberação dos créditos instalação ou crédito apoio, destinados a alimentação, fomento e habitação; crédito custeio (produção de arroz, milho, feijão e mandioca); crédito investimento (mini-usina de arroz, uma casa de farinha, uma granja, uma pocilga e 10 hectares de cana-de-açúcar). Recebeu recursos do PROCERA e do CONTACAP, do Projeto Lumiar e do Programa ATES.

Em termos de infraestrutura, o PA Vila Diamante dispõe de serviços nas áreas de educação (três escolas do nível maternal ao ensino fundamental, sendo que, na maioria das agrovilas, os prédios das escolas são de taipa), de um sistema de telefone público precário, poços, igreja, estradas também precárias, campos de futebol organizados pelas comunidades, saúde (miniposto de saúde, coletivo da saúde, hortas medicinais), comunicação popular (rádio de alto falante), e na área da produção (miniusina de arroz e uma casa de farinha).

O MST propõe uma estrutura organizativa que inclui: núcleos de famílias, formados por 10 famílias e definidos com base em relações de parentesco, de compadrio, religiosas, políticas. Cada núcleo é coordenado por um homem e uma mulher. A estrutura inclui, ainda, uma coordenação formada por dois representantes de cada núcleo, sendo um homem e uma mulher, mais a diretoria das entidades, da escola e dois representantes dos jovens e duas representantes de mulheres.

Na agrovila Vila Diamante atuam várias formas organizativas, entre elas o Grupo Coletivo Unidos Venceremos; Cooperativa Agropecuária dos Pequenos Produtores da Vila Diamante; Associação dos Pequenos Agricultores da Vila Diamante, uma associação de comunicação, um centro de formação e capacitação, uma associação de mulheres e uma

      

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Consideram-se assentadas as famílias que se encontram cadastradas no Sistema de Informações de Projetos de Reforma Agrária - SIPRA, instrumento de controle do INCRA que garante o acesso aos benefícios da reforma agrária. Segundo um dirigente do MST, no caso específico deste assentamento foram cadastrados os que participaram do processo de luta pela ocupação da fazenda. Entretanto, na medida em que o PA se consolida, outras famílias são abrigadas na condição de “agregado”. Podem ser famílias constituídas de filhos e filhas dos “cadastrados” ou outros parentes. De acordo com o entrevistado, atualmente existem várias situações: a) as famílias cadastradas; b) as pessoas que moram e trabalham no assentamento, mas não são cadastradas; c) pessoas que moram no município de Igarapé do Meio e botam a roça no assentamento, ou seja, usam um espaço do assentamento para o trabalho, são chamados de “clandestinos”.

fábrica de beneficiamento do coco babaçu. Além dessas, existem outras formas de cooperação informais, como mutirões e trocas de dias de serviço47.

Com essa estrutura, o assentamento já foi por duas vezes indicado para ser emancipado, mas as famílias não aceitaram, considerando a qualidade desses serviços e as pressões que o assentamento sofre com a expansão do agronegócio no estado. Azar (2005) identificou situações de exportação de mão-de-obra, sobretudo masculina jovem, para os trabalhos temporários nos canaviais e cafezais do Sudeste ou nos cultivos de soja e milho do Centro-Oeste.

Nessas visitas, conversei sobre as técnicas de plantio, produção diversificada, individual ou coletiva; mercado, comercialização, projetos apresentados ao PRONAF A: definição e desenho do projeto. Ouvi opiniões sobre o tempo de elaboração dos projetos, a liberação dos recursos pelo banco, a burocracia, a relação produtor/técnico. Conversei, ainda, sobre a trajetória de vida do técnico, os riscos das atividades, a segurança alimentar, a organização para a produção de gado, a composição familiar, a contratação da mão-de-obra, a trajetória de vida dos produtores, a qualidade da produção e o processo de ocupação da área. As informações obtidas nessas visitas foram sistematizadas e compõem a análise apresentada nos próximos capítulos.

Todos esses contatos facilitaram o acesso a documentos, relatórios, trabalhos científicos e publicações sobre o tema que compuseram o conjunto de fontes secundárias, utilizados como complemento da análise do material coletado no trabalho de campo. O percurso da pesquisa revelou uma teia de relações bastante complexa, com múltiplos campos de disputa, o que tem exigido dos movimentos sociais contemporâneos criatividade na definição de suas ações coletivas. São adotadas desde estratégias que possibilitam espaços de diálogo dentro da máquina estatal – de forma a influenciar na concepção de políticas públicas, em mudanças conceituais nos instrumentos jurídicos, bem como no comportamento na relação Estado/Sociedade Civil – até estratégias de confronto, capazes de tornar públicas as divergências que, porventura, existam na implementação de determinadas políticas.

      

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Nos mutirões, as famílias se reúnem em grupos para concretizar projetos coletivos, como construção de infraestrutura, atividades de limpeza ou atividades socioculturais. Nas trocas de dias de serviços, uma contribui com a atividade da outra, o que lhe dá direito à restituição do ato de solidariedade.

1.4. Construindo uma estratégia metodológica de exposição.

Para a sistematização e interpretação do material coligido em pesquisa de campo, na busca de um caminho próprio, e, diante, do volume de informações disponíveis, apropriei- me de técnicas utilizadas na análise de conteúdo (RICHARDSON, 1985), que me possibilitaram chegar a uma estratégia metodológica de exposição adequada aos propósitos da pesquisa. Longe da pretensão de “medir resultados” ou de chegar a uma codificação que responda a critérios de objetividade, sistematização e generalização (idem, p. 187), procurei adotar um procedimento sistemático e analítico que permitiu trabalhar as percepções dos agentes sociais envolvidos na experiência de concepção e gestão do Programa ATES.

Priorizei uma dinâmica metodológica de sistematização e interpretação, na perspectiva de uma análise de conteúdo de natureza qualitativa. Diante das possibilidades de uso dessa técnica de pesquisa, que encarnam distintas concepções da produção científica, assumi, como referência, a formulação de Cardoso (1977;1978) que busca ultrapassar o nível de descrição para atingir o nível de análise, fundando-se na relação entre bases teóricas e material empírico. Tal formulação foi, posteriormente, trabalhada por Carvalho (1983)48que, assim, sistematiza os fundamentos e a dinâmica da alternativa de análise de conteúdo:

o processo metodológico inicia-se com a configuração de uma teoria no sentido da delimitação de categorias fundamentais que precisam ser simples e suficientemente gerais para orientar todo o processo de investigação. Tendo por base as categorias teóricas fundamentais e a especificidade do objeto de estudo, definem-se as unidades de análise que são os temas. Os temas, como unidades de análise, expressam feixes de relações, ou seja, uma combinação de relações. Os temas são constituídos por itens que configuram determinadas relações em suas diferentes possibilidades, marcando assim os diversos posicionamentos que podem ser assumidos em cada tema. Esses temas e itens são operacionalizados através de indicadores. (CARVALHO, 1983, p. 18 e 19).

Em coerência com essa formulação, desenvolvi a sistemática de análise de conteúdo, tendo duas referências-chaves: as bases teóricas da Tese e a natureza e conteúdo do material produzido no trabalho de campo que forma o corpus empírico, constituído por narrativas em entrevistas, narrativas em discursos, narrativas em reuniões e manifestações públicas, palestras e material documental.

      

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Na construção de sua dissertação de Mestrado, publicada em 1983. Nesse trabalho, Carvalho (1983) expõe, detidamente, a dinâmica de construção da análise de conteúdo por ela desenvolvido.

No entrelaçamento de teorizações e material empírico, foram definidos temas de análise, expressando eixos centrais no desvendamento do objeto. De fato, os temas circunscrevem elementos-chaves, a partir das exigências analíticas do universo da investigação. Na construção de cada tema, foram delimitados itens, circunscrevendo as alternativas possíveis, como recurso heurístico, para a sistematização e análise do material, para chegar à versão final do quadro analítico, apresentado abaixo, tendo sempre presente, como diretrizes norteadoras, as categorias analíticas que desenvolvi, ao longo das teorizações da Tese: Estado, Movimentos Sociais, cultura, política, políticas públicas e assistência técnica.

Quadro 04 – Temas e itens

TEMAS ITENS I – Relação

Estado/Movimentos Sociais

a) Relação democrática de respeito mútuo e parceria b)Relação autoritária de imposição e de submissão

c) Relação de pressão e negociação permanentes, na perspectiva de processos de democratização do poder público

II – Atuação conjunta Estado/Movimentos sociais

a) Partilha de trabalho conjunto governo/movimentos sociais

b) Entidades assumindo encargos estatais sem tempo para trabalho político

c) Entidades não têm competência técnico-gerencial e executam definições estatais

III – Atuação dos Movimentos Sociais na construção de políticas públicas/

a) Atuação dos movimentos como sujeitos políticos em processos de disputa do espaço público, exercendo pressão e controle da intervenção do Estado, na conquista de demandas e reivindicações no âmbito das políticas públicas/ Participação política com ação efetiva nas decisões, execução e controle social

b) Atuação pragmática de captação de recursos em processos de despolitização da participação/ Participação passiva como beneficiário no acesso a determinados serviços e bens

c) Atuação submissa aos critérios técnicos impostos pelo Estado sem força política de tensionamento e sem poder de afirmação como sujeitos, limitando-se a garantir o acesso a bens e serviços/Participação técnica como executor de determinadas atividades

IV – Intervenção estatal via políticas públicas

a)Intervenção voltada exclusivamente para a acumulação e valorização do capital

b)Intervenção de natureza contraditória, considerando fundamentalmente interesses do capital, permeável às pressões políticas dos movimentos sociais

c)Intervenção pautada em um discurso de promoção da qualidade de vida dos “pobres”

V – Concepção de assistência técnica

a) Assistência técnica “in loco” no campo, na vivência cotidiana com os trabalhadores rurais

b)Assistência técnica deslocada (técnico vai e vem) c) Assistência técnica de pacotes/projetos

VI– Diálogo entre distintos saberes

a)Imposição do saber técnico-oficial e desqualificação dos saberes tradicionais

b) Ausência de comunicação ou desconexão na comunicação entre saber técnico e saber prático

c) Troca e partilha de saberes.

   

TEMAS ITENS VII– Agendas políticas dos

movimentos sociais no campo

a)Agenda contemplando questões específicas da realidade dos trabalhadores rurais e questões gerais no âmbito da civilização do capital b) Agenda inteiramente voltada para questões específicas tradicionais dos trabalhadores rurais (terra/crédito/assistência técnica/ infraestrutura de serviços)

c) Agenda contemplando questões específicas dos trabalhadores rurais e questões de gênero, etnia, ambiental, geracional, priorizando a assistência técnica, social e ambiental

VIII - Sentidos do ATES no contexto dos trabalhadores rurais

a) Programa que consubstancia avanços na ampliação da perspectiva da assistência técnica social e ambiental conquistados nas lutas

b)Programa governamental que leva a um recuo no âmbito da assistência técnica

c)Programa com possibilidades, mas sem a devida estrutura comprometendo sua proposta de ampliação da assistência técnica.

IX – Posição dos gestores e técnicos do Estado acerca da atuação dos Movimentos Sociais no campo

a) Reconhecimento e legitimação dos Movimentos Sociais como sujeitos políticos, tratando como interlocutores e parceiros na construção de políticas.

b) Desconhecimento e perplexidade face ao potencial dos Movimentos Sociais

c) Criminalização e desqualificação dos Movimentos Sociais, manejando mecanismos para restringir sua participação.

Fonte: Pesquisa de campo da Tese, 2007-2009

De posse do quadro, realizei um trabalho de sistematização e interpretação do material constitutivo do corpus empírico, num esforço reflexivo de identificar os temas com as respectivas possibilidades de interpretação, consubstanciadas nos itens. Após este trabalho artesanal, pude consolidar análises que revelaram as descobertas do amplo processo investigativo. Cabe ressaltar que, ao longo da construção de uma alternativa de exposição, vivenciei dimensões novas da questão metodológica, “pedra de toque” nos percursos de um pesquisador e constatei a exigência de fazer, aqui, esta narrativa metodológica do processo, adentrando no real sentido das palavras de Wright Mills, apresentadas na epígrafe deste capítulo.

CAPÍTULO 2

ESTADO, POLÍTICA E MOVIMENTOS SOCIAIS NO CAMPO: novos agentes no contexto contemporâneo

O problema da condição contemporânea de nossa civilização moderna é que ela parou de questionar-se. Não formular certas questões é extremamente perigoso, mais do que deixar de responder às questões que já figuram na agenda oficial; ao passo que responder o tipo errado de questões com freqüência ajuda a desviar os olhos das questões realmente importantes.

Zygmunt Bauman

A lida com temas “tradicionais” exige reforço na vigilância epistemiológica proposta por Bachelard (1996), sobretudo, quando o uso desmesurado de conceitos universalizantes, legitimados e consagrados, nos impede de ir além das evidências (BOURDIEU, 1998). A análise do Estado/Movimentos Sociais que atuam no campo requer a desconstrução e o desmonte das armadilhas das sacramentalizações de termos comumente reproduzidos como algo dado natural, a exemplo de “mundialização” e “globalização”49, “neoliberalismo”50, os “cânones do nosso tempo”, como bem expressou o sociólogo polonês Bauman (1999, p. 11), para quem o serviço mais urgente da contemporaneidade é “indagar sobre as premissas supostamente inquestionáveis do nosso modo de vida”.

A necessidade de formular questões também está presente no pensamento do sociólogo português Boaventura dos Santos, particularmente, quando propõe uma ecologia dos saberes. A nossa compreensão do mundo, diz Santos (2007a, p.176-178), “ainda é a compreensão ocidental do mundo, e as ciências sociais do Norte que, orientam todo o nosso olhar sobre o mundo, estão estéreis e não enxergam as experiências do conhecimento do Sul, o que leva alguns a desacreditarem em alternativas ou a decretarem o fim da história”.

Inspirada nesses pensadores do tempo presente, apropriei-me, neste capítulo, de categorias chaves, numa perspectiva histórica e dialética, privilegiando o processo de construção e de ressignificação de termos e conceitos que se dá na dinâmica da realidade,

      

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Termos francês e inglês, respectivamente, que se referem a uma fase específica do processo de internacionalização do capital e de sua valorização em escala do conjunto das regiões, cujo efeito sobre as instituições bancárias e financeiras facilitou as fusões e aquisições transnacionais e acomodou o investimento internacional. Ver Fiori (1999) e Chesnais (1996).

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Ideologia defendida pelos Estados Unidos e pelas instituições financeiras por ele controladas, tais como: Fundo Monetário Internacional - FMI e Banco Mundial, que preconizam mercados livres; privatizações; desregulamentação; retirada do Estado da economia; eliminação de restrições à acumulação de riqueza e à correspondente produção de miséria social (SANTOS, 2010).

evitando enfoques abstratos, ortodoxos e fechados. Ressalto, porém, que tal investida não tem a pretensão de alcançar uma gênese social dos conceitos, propugnada por Bourdieu (1998), o que transcenderia a intenção deste estudo e, entendendo que outros estudiosos já se dedicaram à tarefa, arrisco uma aproximação com autores que trabalham com os conceitos consagrados da teoria política clássica, mas numa perspectiva de ampliá-los – por intermédio de uma visão multidisciplinar – em suas interpretações sobre as sociedades orientadas pela economia de mercado e sobre o processo de expansão dessa economia, tornada hegemônica no mundo ocidental. Tal esforço me possibilita alcançar aspectos semióticos do Estado pretendidos nesta pesquisa.

A dinâmica de exposição deste capítulo segue três níveis de análise. No primeiro, de caráter mais geral e abstrato, ressalto aspectos da configuração do Estado no contexto de mundialização do capital e de sua interlocução com sujeitos da política emancipatória. No segundo nível – ainda de caráter geral, mas me aproximando mais do concreto –, para pensar a relação Estado/Movimentos Sociais, retomo conceitos clássicos como cultura e política, políticas públicas, participação, comunidade e, mais recentemente, territorialidades, num diálogo entre a Sociologia Política e a Antropologia Política.

Para compreender os sujeitos coletivos que atuam como interlocutores desse dilema democrático, aprofundo meu olhar sobre o tema, observando a particularidade dos movimentos sociais que atuam no campo e sua herança ambientalista que possibilita a articulação de questões locais com as globais, mostrando ser, esse, um dilema democrático que se apresenta a partir da abertura política consolidada com a Constituição de 1988 e da política de ajuste à dinâmica do capital, em sua fase mundializada.

Em um nível mais específico e concreto, concluo o capítulo apresentando situações identificadas no Maranhão que expressam a emergência, a partir dos anos 1990, de agentes sociais a construir uma cultura política emancipatória (SANTOS, 2007b) ou uma contra-hegemonia51. Com destaque para as experiências de atuação do MST, da ASSEMA e do MIQCB, faço uma reflexão sobre as formas de expressão e de interlocução assumidas por esses movimentos, face ao Estado democrático e sua política de ajuste aos interesses do capital.

      

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Carnoy (1994), recuperando o pensamento de Gramsci, ressalta que as classes ditas subalternas aceitam a sociedade de classe, devido à hegemonia da classe capitalista que consegue impor o seu domínio por meio de normas e valores, legitimados e amplamente inculcados pelos aparelhos ideológicos do Estado, tendo os intelectuais um papel fundamental nesse processo. A crise do desenvolvimento capitalista é hegemônica e se dá somente com a ruptura desse “consenso” e com a construção de uma contra-hegemonia.

2.1 Processos de acumulação do capital e o Estado contemporâneo.

As intenções analíticas aqui configuradas exigem a devida explicação de como determinadas categorias e conceitos estão sendo concebidas neste capítulo. O ponto de partida da minha “imaginação sociológica” (MILLS, 1980) foram as contribuições de Polanyi (2000) e Bourdieu (1994). Ambos procuram distanciar-se de uma análise seqüencial que pressupõe a substituição de um modelo por outro, recorrendo à antropologia para entender em que medida essa economia de mercado altera as formas de reciprocidade e de retribuição.

Em seguida enveredei por uma revisão bibliográfica que inclui a retomada da

Benzer Belgeler