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C. ESERLERİ

3) Tenkîhu’l-Kelâm Fî Akâidi Ehli’l-İslâm

41 Aqui novamente, ressalta-se o longo prazo de execução contra as pessoas jurídicas de direito público: além de ser necessário esperar o trâmite normal de inclusão no orçamento até julho de um ano para pagamento até dezembro do ano seguinte, ainda há os que fizeram opção pelo regime especial de pagamento, nos termos do artigo 97 do ADCT, inserido pela EC n.º 62/2009, segundo o qual o prazo pode ser superior a 15 (quinze) anos. 42 Embora o caso diga respeito a Porto Alegre, a decisão de apresentá-lo nesta tese deveu-se a três razões. Em

primeiro lugar, por tratar-se de um excepcional exemplo de concretização dos direitos humanos prestacionais

envolvendo o direito à moradia digna e à preservação dos demais direitos sociais, notadamente educação, saúde, trabalho e lazer. Em segundo lugar, por ser um exemplo bem-sucedido de concretização dos direitos humanos pela via extraprocessual exposto no curso sobre acordo de concretização dos direitos humanos e negociação coletiva realizado ministrado pelo Procurador da República Alexandre Gravonski, sob a orientação pedagógica do autor na Escola Superior do MPU. Em terceiro lugar, por representar um exemplo prático fora da praxe ministerial laboral, o que evidencia o indício da aplicação da tese a qualquer ramo ministerial.

O quinto caso concerne à viabilização dos direitos sociais – de moradia, educação, saúde, trabalho e lazer – das famílias removidas que moravam e trabalhavam no lixão da Vila

Chocolatão, no município de Porto Alegre43.

A rodada procedimental foi provocada por uma ação reivindicatória ajuizada pela União dizendo-se legítima proprietária de uma área utilizada como lixão no município de Porto Alegre, especialmente destinada à construção do Centro Administrativo Federal de

Porto Alegre. A área, denominada “Vila Chocolatão”, era ocupada por duas centenas de

famílias, cuja fonte principal de renda era a catação de lixo. Foi formada uma rede de governança para viabilizar a realocação dos moradores, de forma conciliatória e com a preservação das garantias de moradia digna e dos demais direitos sociais da comunidade.

A rede de governança, coordenada por representantes do município de Porto Alegre e da estrutura administrativa do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), e contando com a participação direta da comunidade, definiu várias medidas necessárias à concretização dos direitos sociais, como se verá adiante.

Com efeito, a regularização da área tinha como meta assegurar moradia digna e preservar os demais direitos prestacionais envolvidos, notadamente educação, saúde, trabalho e lazer, visto que tais direitos foram afetados em razão da atividade econômica dos moradores que ocupavam a área e das peculiaridades do local de reassentamento. Tais medidas dão efetividade ao que dispõe a Constituição, a legislação infraconstitucional e o Pidesc, e observam o princípio da proibição do retrocesso em matéria social, que traduz, no processo de concretização da norma, uma verdadeira dimensão negativa pertinente aos direitos sociais de natureza prestacional a impedir que os níveis de concretização dessas prerrogativas, uma vez atingidos, venham a ser reduzidos ou suprimidos sem políticas compensatórias

implementadas pelas instâncias governamentais (ADPF n.º 45)44.

O propósito do acordo era assegurar que a garantia do direito à moradia digna fosse acompanhada da preservação dos demais direitos sociais. Tais direitos, aliás, foram antes

43 Esse caso foi resolvido como questão incidental nos autos da ação reivindicatória n.º 2000.71.00.000973-1, em trâmite na Vara Federal Ambiental de Porto Alegre.

44 A ADPF n.º 45 não é um precedente que tenha efeito formalmente vinculante, pois a decisão foi proferida monocraticamente e foi prejudicada por falta de interesse processual (perda de objeto), mas representa um caso emblemático sobre precedentes formalmente não vinculantes que possuem uma relevante força ou vinculação material, que se propagou como um excepcional parâmetro de aplicação a casos judiciais e extrajudiciais futuros. Esse precedente tornou-se materialmente vinculante ou importante por força das generalizações extraídas e em função de suas justificativas, que possibilitam ao Poder Judiciário, excepcionalmente, determinar nas hipóteses de políticas públicas definidas pela Constituição, sua concretização, sempre que os órgãos estatais competentes sejam omissos e comprometam a eficácia e a integridade de direitos econômicos, sociais e culturais previstos na ordem internacional e constitucional. Portanto, foram a fundamentação e a justificação da ADPF que permitiram sua utilização como precedente vinculante para casos que envolviam o direito à saúde e o direito à educação, por exemplo (SILVA; MAGALHÃES, 2012, p. 90).

referidos pelo município de Porto Alegre e pela União em várias oportunidades, inclusive nos autos da ação reivindicatória em trâmite na Vara Federal Ambiental de Porto Alegre, e notadamente na apresentação do Projeto de Trabalho Técnico Social (PTTS) da Vila Chocolatão, nos esclarecimentos prestados à população interessada na Câmara Municipal de Porto Alegre em 6 de outubro de 2010 e na apresentação feita na reunião pública do governo municipal de 16 de março de 2010, com a presença de representantes da comunidade, do MPF, da Advocacia da União, da estrutura administrativa do TRF-4, da Associação dos Geógrafos do Brasil, do Serviço de Assistência Jurídica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e de outras entidades envolvidas no projeto.

Como se observa, a rodada procedimental de negociação envolveu a participação direta da comunidade envolvida e órgãos com expertise no tema. As medidas adotadas revelam uma preocupação moral e democrática e o reconhecimento da importância de formalizar e institucionalizar as ações planejadas pelo município de Porto Alegre, destinadas a efetivar os direitos humanos sociais da população afetada. De acordo com um levantamento feito, 180 (cento e oitenta) famílias foram envolvidas.

O acordo foi firmado entre o MPF, de um lado, e, de outro, o município de Porto Alegre, a União Federal, o Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB), o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), a Associação dos Moradores da Vila Chocolatão e a Associação de Catadores e Recicladores da Vila Chocolatão.

Os signatários obrigaram-se a:

a) firmar, por meio do DEMHAB, por ocasião da posse subsequente à desocupação

da moradia, um Contrato de Concessão de Direito Real de Uso das moradias construídas no Loteamento Residencial Nova Chocolatão, na Avenida Protásio Alves, n.º 9.099;

b) providenciar a inclusão no programa “Minha Casa, Minha Vida” do

empreendimento Jardim Paraíso, localizado na Estrada Barro Vermelho, n.º 971, Bairro Restinga, para as famílias não constantes dos levantamentos referidos na cláusula primeira, com direito a aluguel social, durante o tempo de conclusão desse processo de realocação;

c) construir, por ação do município, até 31 de agosto de 2011, a unidade de educação

infantil com a estrutura especificada no projeto arquitetônico constante dos autos, sendo assegurada, até a efetiva entrega da unidade de educação infantil, a utilização, para tal fim, de uma casa pré-moldada complementar, construída no lote existente, assegurando-se o atendimento a todas as crianças cadastradas;

d) firmar um convênio, por meio da Secretaria de Educação, pelo prazo de 2 (dois) anos, renovável, com a Associação dos Moradores da Vila Chocolatão, viabilizando a contratação e a qualificação de profissionais com formação de educador assistente, para garantir o funcionamento da unidade de educação infantil;

e) assegurar vaga no ensino fundamental para as crianças e adolescentes em idade escolar relacionadas no levantamento realizado;

f) garantir o direito à saúde aos moradores removidos, com a conclusão da

transferência dos prontuários dos moradores para a Unidade Básica de Saúde Tijucas, com a integração entre as equipes de saúde da família e a comunidade atualmente em andamento e com visitas às famílias por agentes de saúde, sem que o incremento da demanda comprometa o atendimento;

g) garantir o direito ao trabalho por meio: i) da organização de coleta seletiva de lixo

e unidade de triagem, garantindo-se o mínimo de dois e meio caminhões de coleta seletiva, por mês, para cada trabalhador associado e em atividade, bem como recursos suficientes para o custeio de manutenção da Unidade de Triagem; ii) da capacitação dos associados ou cooperados da Associação de Catadores de modo a profissionalizar e assegurar a sustentabilidade da atividade de reciclagem de resíduos sólidos dentro dos marcos legais, por meio de cursos e oficinas voltados para os seus associados; iii) da capacitação para outras atividades laborativas, promovendo-se, em até doze meses após o reassentamento da comunidade, cursos de padaria, cobrador de ônibus, jardinagem, eletricista, cozinheiro, manutenção de ônibus e operador de copiadora, para aqueles moradores da comunidade da Vila Chocolatão que não optaram por trabalhar na usina de triagem e preferem outra profissão, dela necessitando segundo avaliação social realizada pelo município;

h) garantir o direito ao lazer com a execução, no prazo máximo de cento e vinte dias

após o reassentamento, do projeto de praça e quadra poliesportiva, conforme especificado no Termo de Compensação Vegetal (TCV), além de outras obrigações procedimentais e de fiscalização do acordo.

Segundo o Procurador da República que acordou as condições do TACDH, algumas obrigações foram cumpridas dentro do prazo e outras fora do prazo, mas a execução do acordo foi bem-sucedida. O acompanhamento processual na ação reivindicatória não foi possível porque o acordo não era objeto da ação.

No que se refere ao direito à moradia, conforme relatório de acompanhamento e de acordo com as obrigações pactuadas na cláusula l.ª do Termo, foram transferidas as 180

(cento e oitenta) famílias. As famílias reassentadas firmaram um contrato de concessão do direito real de uso no DEMHAB, e as remanescentes, que excederam o quantitativo de unidades habitacionais do loteamento, foram todas contempladas com aluguel social. Em função da não conclusão do empreendimento Jardim Paraíso, integrante do Programa Minha Casa, Minha Vida, localizado na Estrada Barro Vermelho, n.º 971, Bairro Restinga, essas últimas famílias continuam beneficiadas com o aluguel social, que será mantido até que possam ser reassentadas no referido empreendimento.

O direito à educação das crianças e adolescentes foi atendido com a conclusão da creche comunitária, visando ao atendimento das crianças na faixa etária de zero a 6 (seis) anos. Atualmente, aguarda-se o convênio com a entidade que fará a gestão do espaço, para o início da operacionalização, com recursos de repasse do município, que tem tido problemas de regularização fiscal. As crianças, desde a mudança das famílias para o novo loteamento, têm sido atendidas, conforme compromissado, na unidade destinada ao funcionamento da associação de moradores, onde foi implantada uma casa pré-moldada complementar, propiciando o atendimento. Conforme a ata da reunião realizada no dia 13 de julho de 2011, as crianças e os adolescentes em fase de ensino fundamental foram todos matriculados em escolas da região, perto da localização do loteamento.

O direito à saúde também tem sido atendido, pois os prontuários de saúde dos moradores da Vila do Chocolatão reassentados no novo loteamento foram transferidos para a Unidade Básica de Saúde Tijucas, e o atendimento não sofreu solução de continuidade.

Para garantir a efetividade do direito ao trabalho, foi firmado um convênio entre o município, por meio do DMLU, e a Associação de Catadores e Recicladores da Vila Chocolatão. Atualmente, tem sido entregues, em média, 3 (três) cargas diárias, compatíveis com a produção laboral dos trabalhadores que atuam na respectiva unidade de triagem de resíduos sólidos. Por intermédio do convênio, o DMLU tem disponibilizado recursos para a manutenção e o custeio da unidade de triagem e tem efetuado a coleta dos rejeitos de forma sistemática, conforme compromissado. Como forma de atender aos que não querem exercer o labor nessa atividade, o município de Porto Alegre ofertou aos moradores do loteamento, por meio da Secretaria Municipal de Produção, Indústria e Comércio (SMIC) e da Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC), vagas para capacitação nas áreas da construção civil e da jardinagem, efetuando a divulgação mediante visita domiciliar a cada uma das famílias reassentadas no loteamento.

No que se refere ao esporte e ao lazer, concluiu-se a praça e a quadra poliesportiva, contendo equipamentos infantis, para uso da comunidade do loteamento.

Esse é mais um caso que mostra o caráter dialógico do Ministério Público. Atuando em políticas públicas por meio de rodadas procedimentais, a instituição contribui para a concretização dos direitos humanos sociais, econômicos e culturais. No caso em questão, motivada por uma ação petitória – cujo objeto era o local onde se encontrava a comunidade –, recorre a instrumentos extraprocessuais: a rodada procedimental ocorreu de forma extraprocessual em decorrência de demanda judicial baseada no direito de propriedade da União com a formalização de acordo político de concretização dos direitos sociais.