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De início, queremos enfatizar que reconhecemos como legítimas as observações de Gelamo (2008, p. 131) ao tratar das abordagens científicas na contemporaneidade, com relação ao fato de que:

Para se pesquisar, é necessário fazer recortes. Recortar a realidade e problematizá-la são operações necessárias para poder entender quais são os problemas que podem ser tirados dessa realidade para se ter um tema de pesquisa, um campo de pesquisa para se olhar e, assim, para se pensar. Muitas vezes, os recortes funcionam de modo tal a servir como ‘lentes’ para se olhar a realidade. Funcionam como imagens que se usam como um decalque aplicável à realidade para que o campo de pesquisa se torne visível.

Nossa proposta de investigação, assim como tantas outras, não pretende dar conta de toda a realidade que circunda o objeto de pesquisa. Ao contrário, para que se torne uma proposta operacionalmente possível, recortamos uma dimensão da realidade a ser abordada, a partir da qual construímos o referido objeto (as autorrepresentações discursivas em diacronia), bem como suas categorias de análise, no que se refere à sua configuração sociodiscursiva em periódicos da América Latina nos séculos XX e XXI.

Propor novos olhares aos objetos de estudos linguísticos significa reconhecer a complexidade dos fenômenos a que tais objetos estão atrelados e a pluridimensionalidade das práticas de linguagem marcadas pela reconfiguração que sofrem estes objetos pelas mídias no contexto da globalização. Este olhar nos dá a possibilidade de propor. Conjugando os requisitos conceituais diversos, concebemos nosso objeto de pesquisa a partir de pressupostos que tomam como base procedimentos validados anteriormente em outras pesquisas. Segundo Maingueneau (2008b, p. 71):

Estamos, assim, diante de objetos que aparecem ao mesmo tempo como integralmente linguísticos e integralmente históricos. As unidades do discurso constituem, com efeito, sistemas significantes e enunciados, e, nesse sentido, têm a ver com uma semiótica textual; mas eles também têm a ver com a história que fornece a razão para as estruturas de sentido que elas manifestam.

Pensando nestes objetos linguísticos e históricos, a transdisciplinaridade dá-se em direções diversas: desde a proposição de metodologias para a análise de determinados objetos de pesquisa, passando pelo entrecruzar de referenciais teóricos de áreas afins e/ou díspares, até a proposição de categorias analíticas que possibilitam a leitura científica de fenômenos sociais (ou segundo as três direções, em integração).

Ao nos posicionarmos em uma pesquisa que consideramos transdisciplinar como a que ora se apresenta, distanciamo-nos de uma postura cartesiana e nos aproximamos de uma postura aplicada de abordagem dos fatos científicos que focaliza as questões da linguagem em contexto de uso, com ênfase na importância de estudos centrados no discurso, no âmbito das Ciências Humanas, “que têm trazido à tona novas perspectivas pós-positivistas para investigações interpretativistas, que enfatizam a necessidade de se estudar o discurso como constitutivo da vida social” (MOITA LOPES, 1999, p. 434).

A escolha pelo JB e pelo CL, por nós considerados como dois importantes e influentes jornais da AL, dentre os muitos que compõem a mídia latino-americana, deu-se por tomarmos as relações interculturais entre estes dois países como representativas das relações interculturais da AL em si, reconhecendo e respeitando, em nosso recorte, a diversidade cultural dos países que integram o amplo território latino-americano.

De larga tradição na história do Brasil desde 1891, o JB mantém sua sede no Rio de Janeiro, no bairro Rio Comprido39, a pouco mais de seis quilômetros da sede da Biblioteca Nacional40, onde está conservado o acervo de suas edições anteriores. O JB tem circulação diária em versão on-line, mantendo sua orientação política de “contestação e defesa da liberdade de expressão41”. Já o CL, um dos mais influentes jornais em terras argentinas desde 1945, tem sede em Buenos Aires42, a pouco mais de oito quilômetros da Biblioteca Nacional43, onde o acervo de suas edições encontra-se conservado. O jornal portenho tem circulação diária nas versões on-line e impressa e se mantém sob uma política de independência e em oposição ao atual Governo Kirchner44.

Neste contexto, a escolha de Brasil e Argentina se dá por duas razões principais. A primeira diz respeito ao fato de pressupormos que a intensidade das relações políticas, econômicas e socioculturais entre esses dois países da América do Sul influencia as tradições culturais destes povos retratadas nas páginas dos seus veículos de comunicação, uma vez que a história e a cultura brasileira e argentina estão tão imbricadas a ponto de parecerem constitutivas da identidade dos dois povos.

39 Sede do Jornal do Brasil: Avenida Paulo de Frontin, 568, Rio Comprido, Rio de Janeiro. 40 Sede da Biblioteca Nacional: Avenida Rio Branco, 219, Centro, Rio de Janeiro.

41 Segundo informações de Débora Lannes, editora do Jornal do Brasil, em conversa por telefone, no dia 07 de maio de 2013.

42 Sede do Grupo Clarín: Avenida Piedra, 1743, San Telmo. Buenos Aires, Argentina. 43 Sede da Biblioteca Nacional: Avenida Agüero, 2502, Recoleta, Buenos Aires, Argentina. 44 Informações disponíveis em http://www.grupoclarin.com.ar/institucional/principios-y-valores

Exemplos destas intensas relações, dentre os muitos citados e a citar, são os frequentes acordos econômicos firmados entre os presidentes do Brasil e da Argentina ao longo da história dos dois países, a estada do Papa Francisco no Rio de Janeiro por ocasião da Jornada Mundial da Juventude em julho de 2013, além da crescente presença do Brasil como tema da mídia argentina (e vice-versa), principalmente nos últimos anos, em detrimento da onda de manifestações Brasil afora, só para citar algumas, tal como nos mostrou uma primeira incursão aos dados dos dois jornais, no processo de construção de nosso objeto de pesquisa. Todos estes fatos foram acompanhados pelas mídias dos dois países, estabelecendo um expressivo painel de migrações midiáticas (COGO, 2006) entre o Brasil e a Argentina, dentre outros, ao longo da história.

A segunda razão diz respeito às questões operacionais necessárias para que a pesquisa a que nos propomos fosse exequível em termos de sua configuração como um recorte da realidade que se deseja compreender. Como optamos por uma análise contrastiva de um gênero argumentativo em português e em espanhol45, a escolha pelos dois jornais levou em conta também as possibilidades de acesso aos textos antigos dos dois veículos, o que só foi possível graças aos arquivos que ambos os meios de comunicação disponibilizam em acervo virtual (em suas páginas na rede mundial de computadores) e em acervo presencial (nas hemerotecas das bibliotecas consultadas).

Acrescentamos que a escolha pelo editorial também se justifica por três razões básicas, a saber: (i) por considerarmos, com base em pesquisas anteriores, como a de Gomes (2007) e a de Zavam (2009), dentre outras, que este gênero muito diz, de modo especial frente a outros gêneros, sobre o contexto sociocultural de um povo, pois reflete os fatos que compõem o inventário histórico e cultural da sociedade analisado pela ótica de uma empresa de comunicação, que tem a missão de repertoriar a sociedade com textos a partir dos quais retrata os fatos mais importantes da sociedade; (ii) por localizar-se, em geral, nas páginas iniciais ou na seção “Opinião” dos periódicos, ou em seção equivalente, o que otimizou nosso acesso aos dados dentro do universo de textos existentes nos arquivos; (iii) e principalmente por acreditarmos que o editorial nos permitiria flagrar de modo mais recorrente as imagens de si que desejávamos analisar, dada a tradição editorialística dos dois jornais constituída nos séculos XX e XXI.

45 Esta decisão metodológica se deu em função de nossa experiência em pesquisa com corpus nas duas línguas, desde a pesquisa de mestrado (IRINEU, 2011) e em função de nosso desejo de seguir com a abordagem de fenômenos linguístico-discursivos em perspectiva contrastiva, que julgamos fundamental para a compreensão de objetos de investigação relacionados à tríade língua, cultura e identidade na AL.

Assim, adotamos como critérios de seleção dos textos: (i) a ocorrência de temas que se relacionassem à identidade cultural do Brasil e da Argentina no contexto da AL, ou seja, a ocorrência de temas relacionados ao modo social e cultural de ser destes povos em um grande recorte que contemplou questões sobre economia, política, relações internacionais, imprensa etc.; e/ou (ii) a ocorrência de temas que se relacionassem às questões que tocam a interculturalidade na América Latina.

Objetivando uma análise diacrônica de base qualitativa46, coletamos os 50 textos em um recorte de 70 anos, partindo de 1945, ano de criação do CL, até os dias atuais, a fim de cobrir pelo menos duas grandes gerações de vida dos textos divididas, cada uma, em 35 anos, tempo estimado para que ocorram mudanças na língua47 (CASTILHO DA COSTA, 2010). Apesar de o JB ter sido lançado em 1891, mantivemos o ponto de início da coleta dos dados no arquivo a partir de 1945 para fins de uniformização histórica que possibilitasse a análise contrastiva48.

Os 50 textos foram coletados nos acervos virtuais e/ou presenciais dos dois jornais, procurando-se obedecer, em geral, a um intervalo médio entre 2 e 3 anos de um texto a outro49, intervalo temporal que favoreceu a visualização dos traços de mudança e de permanência do fenômeno na diacronia da língua, uma vez que os referidos traços não são notados em exemplares seguidos, mas “justamente nos saltos da publicação de um ano para outro” (ALMEIDA, 2008, p. 15).

As técnicas de tratamento dos dados seguiram as instruções/normas do Projeto PHPB (Para a História do Português Brasileiro). A adoção pelas referidas normas se dá em detrimento da necessidade de preservação dos textos, da alimentação do banco de dados do Projeto PHPB e de outros bancos de dados linguísticos na AL e, principalmente, em detrimento da necessidade preservação dos textos consultados.

46 Julgamos nosso trabalho como um exemplo de investigação essencialmente qualitativa, mesmo que, em alguns momentos, a fim de averiguar recorrências no corpus, tenhamos lançado mão de alguns procedimentos quantitativos, como a contagem de determinados ethé nos editoriais selecionados. Ao recorrermos a tais procedimentos, o objetivo não era outro se não analisar a construção (o processo) de imagens discursivas ao longo do recorte temporal e seus traços de mudança e de permanência, e não o registro quantificado de dadas ocorrências (o produto), daí a abordagem essencialmente qualitativa.

47 Reconhecemos que este recorte temporal é discutivel e que ele pode ser ampliado e/ou reduzido em pesquisas diacrônicas, em face dos objetos de pesquisa em questão. No entando, na presente investigação, o referido recorte nos possibilitou operacionalizar a análise a que nos propomos, no contínuo de 70 anos.

48 Ao darmos início à coleta dos dados na Biblioteca Nacional Argentina, fomos informados da inexistência de arquivo de textos do Clarín do ano de 1945. Optamos, assim, por iniciar a coleta dos textos do periódico argentino a partir do ano de 1946. A fim de manter o período de 70 anos, como previsto, optamos por seguir com a coleta de dados do Jornal do Brasil a partir do ano de 1945.

49 Dada a ausência de alguns jornais nos arquivos, este intervalo não pode ser rigorosamente contemplado em toda a amostra ao longo do recorte temporal, em destaque nos primeiros exemplares do século XX.