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Segundo Zavam (2009, p. 70), em sua tese de doutorado sobre a tradição editorialística cearense dos séculos XIX, XX e XXI:

Buscando articular a teoria de Coseriu com aspectos da Sociolinguística e da Pragmática, Brigitte Schlieben-Lange, que fora aluna do sociolinguista romeno, lançou, em 1983, um livro em que apresenta a proposta de uma Pragmática Histórica, cujas ideias se tornariam essenciais para o conceito de tradição discursiva, sendo a de maior alcance a que postula existir uma outra história além da história das línguas – a historia dos textos.

Schlieben-Lange (1983), na proposição de um modelo de investigação que discutisse elementos da Pragmática, tais como os atos de fala, e sua projeção na diacronia, pôs-se a analisar gêneros textuais em que estariam circunscritas tradições do falar, analisáveis do ponto de vista histórico e linguístico, pelo aparato da Pragmática.

Tal proposta de investigação toma como impulso a discussão sobre os níveis de linguagem, após estudos de Schlieben-Lange com Eugenio Coseriu, e cria terreno para que, mais tarde, Koch (1997) e Oesterreicher (2001) formulassem o conceito de tradições discursivas a partir do redimensionamento da proposta coseriana, no que se refere à duplicação do nível histórico da linguagem, fazendo diferenciar-se o histórico das línguas históricas particulares do histórico das tradições discursivas, ou seja, da história dos textos em si. Este princípio de base da TTD é exposto no quadro destacado a seguir:

Quadro 2- Níveis de linguagem, segundo Koch (1997)

NÍVEIS CAMPO TIPO DE NORMA REGRAS

Universal Atividade de falar Complexo e regras do falar

Regras do falar Histórico Línguas particulares Normas da língua Regras da língua

particular Tradição discursiva Normas discursivas Regras discursivas

Individual Discurso

Fonte: Koch (1997, p. 13), em tradução de Castilho da Costa (2010).

Pelo quadro exposto, é possível afirmar que, ao lado da história das línguas, objeto primordial dos estudos filológicos de base, há uma história dos textos (KOCH, 1997) que muito diz a respeito das tradições culturais dos povos, a exemplo das tradições discursivas. Ainda neste tocante, em relação ao modelo de Coseriu (1980), Koch (1997) acrescenta ao nível histórico o campo das TD, redimensionando a proposta no que se refere ao tipo de norma e ao tipo de regras correspondentes a cada nível. No nível universal, a atividade

de falar acontece segundo um complexo de regras desta capacidade humana. No nível histórico, o campo das línguas associa-se a normas da língua e a regras das línguas particulares no que se diz respeito ao saber idiomático.

Ainda no nível histórico, e aqui reside a grande contribuição dos estudos de Koch (1997) e Oesterreicher (2001), estão as tradições discursivas, com suas normas e regras tradicionais ligadas ao discurso. Por fim, no nível individual (ao qual Kabatek (2011) dedica especial atenção), junto ao histórico, seguem os discursos relacionados ao tipo de saber expressivo, tendo os textos como produto.

Oesterreicher (2001), com base no quadro acima exposto, vê no estudo do fenômeno tradicional um campo fértil para a abordagem da mudança linguística à luz das TD, compreendidas pelo autor como tradições que oferecem modelos para a produção e para a recepção discursivas, nos planos oral e escrito, e que estão necessariamente submetidas à mudança, o que significaria dizer que a atividade universal do falar, o primeiro dos níveis coserianos, se materializa mediante técnicas linguísticas e TD em um discurso ou em um texto individual (nível individual).

Do mesmo modo, Koch (2008) centra-se na relação entre TD e mudança linguística. Com base nesta relação, o autor sinaliza para alguns problemas no quadro de níveis de linguagem proposto por Coseriu (1980) no que se refere à incompatibilidade entre o nível individual, como o lugar de aplicação do saber linguístico, e o saber expressivo que lhe corresponde, no plano da capacidade humana de produzir textos.

Deste modo, ao introduzir no nível histórico o campo das TD, Koch (2008) põe em destaque que a historicidade que é peculiar aos textos está situada na dimensão histórica dos gêneros e dos estilos (e dos modos de dizer, por extensão), por exemplo, diferentemente da historicidade das línguas em si mesmas. Assim, as tradições discursivas, mesmo constituindo tradições históricas, não são as línguas históricas, pois não se trata da mesma noção de historicidade nos dois casos. A historicidade a que se refere Koch (2008) está no âmbito da tradição e/ou da inovação, ou seja, na repetição de algo com valor de signo (KABATEK, 2007), nos traços de mudança e/ou de permanência de índices linguístico- discursivos em práticas de linguagem de grupos culturais, isto é, congregações de sujeitos que compartilham objetivos específicos (VAN DIJK, 2003), como os jornalistas.

Se levarmos em conta que cada TD corresponde a uma série histórica de discursos individuais (ASCHENBERG, 2003 apud KOCH, 2008), compreendemos que o conceito de TD postulado por Peter Koch é indispensável para a análise dos processos de transformação da língua. Neste tocante, Koch (1997, p. 60) afirma que:

A prática discursivo-tradicional está sempre no campo de tensão entre convenção e inovação. Para tanto, parto do princípio de que tradições discursivas são, basicamente, apenas um tipo das multifacetadas tradições culturais do ser humano e, nessa medida, mostram, apesar de todas as diferenças na ‘matéria’, semelhanças fundamentais: tradições das artes plásticas, tradições musicais, tradições vestimentais, tradições gastronômicas, tradições esportivas, tradições religiosas etc.. É com os pressupostos lançados por Koch (1997) e demais autores sobre os níveis de linguagem que as TD, estas “tradições culturais”, recebem na proposta de Kabatek (2004) uma de suas mais sofisticadas conceitualizações nos estudos históricos, a nosso ver. Sobre a visão deste romanista alemão seguiremos o debate sobre tradições discursivas. Antes, faz-se necessário destacar que “não se deve esquecer que TD estão relacionadas ao linguístico, mas não são, de modo algum, puramente linguísticas” (KOCH, 1997, p. 79), o que fortalece nossa proposta de análise do ethos discursivo à luz do conceito de TD, tal como nesta pesquisa.