3.5. Analyse du temps
3.5.3. Temps du récit
Na tarde do dia seguinte, em 25 de março de 2012, foi comemorado no Centro Cultural Bom Jardim o aniversário do bairro Bom Jardim. Por esse motivo, foi realizada uma série de apresentações de música e dança – entre elas, uma apresentação do Afro Arte. Quando cheguei ao local, o evento já havia começado, e a praça central do CCBJ estava cheia. Mais de 200 pessoas – em torno de 40 sentadas, e o restante de pé – formavam um círculo para assistir às apresentações. Luciano e Isac estavam lá, de pé, com a filmadora em tripé para filmar momentos daquele evento. Fiquei junto a eles durante boa parte das apresentações e notei que Isac realizava o trabalho de forma dedicada, vendo o que se passava à frente através da câmera, tomando de conta do equipamento, no sentido de tê-lo perto de si. Em alguns momentos, Luciano interviu para sugerir outro ângulo ou para determinar o corte na captura de imagens, e eu também fiz fotografias com a câmera do meu celular.
Apresentaram-se uma banda de percussão formada por crianças e seu professor; um grupo de dança formado por garotos e garotas; uma banda de funk formada por jovens e adultos (que foi bastante popular); e em seguida entraram as meninas do Afro Arte. Elas eram cinco, vestidas com uma longa saia branca e camiseta branca sem manga. Quatro delas portavam uma faixa vermelha amarrada junto à cintura da saia, mas Luiza tinha feito diferente ao amarrar essa faixa na cabeça, como uma tiara, e amarrado uma faixa cinza com detalhes
coloridos junto à cintura. Todas as garotas esbanjavam penteados e maquiagem, mas o penteado de Luiza se diferenciava por diversas tranças com miçangas.
Com esse figurino, performavam a coreografia que denominavam “jongo”, ao som da música “Saracura”, do grupo Jongo da Serrinha, tocada em CD. A faixa cinza de Luiza também compunha a coreografia, e foi usada ao final. Ao terminarem, saíram da área central do CCBJ para dentro do teatro, onde se trocaram e voltaram com outro figurino. Desta vez, as cinco garotas vestiam short e top de cor bege com uma saia de palha por cima. No corpo, tinham pinturas de cor branca, e nas mãos seguravam porretes de madeira (paus). A coreografia era conduzida ao som de “Dono da casa”, cantada por Mestre Suassuna, mas elas identificavam a música apenas como “maculelê”, sem uma especificação quanto ao nome da canção. O mesmo se aplicava às outras danças.
Em alguns momentos, era possível ver certo descompasso à condução da coreografia, mas não demonstravam na face constrangimento pelo erro – continuavam a dançar. Durante as duas danças, Jane “tietava”, tirando fotos com sua câmera digital.
Ao final da apresentação, com muitos aplausos para as garotas, Jane tomou o microfone e discursou66 sobre o trabalho do projeto:
É muito difícil lá no Canindezinho, que as raízes religiosas é muito! [sic] Essas meninas eram 20, e aí por conta de catecismo, disso e daquilo outro, foi ficando quem acredita! Foi ficando quem quer cultuar essa cultura, pra não deixar morrer. Lamento as escolas não fortalecer (sic) esse trabalho, porque na lei 10.639 é pras escolas trabalhar (sic) e não eu. Queria agradecer a vocês.
O sucesso da tarde, contudo, um grupo no estilo boy band (rapazes que cantam e dançam coreografias) do bairro, que levou as mulheres e garotas da frente da plateia ao delírio. Algumas delas eram, inclusive, fãs do grupo, com cartazes na mão.
Embora as apresentações do Afro Arte destoassem dos outros grupos no aspecto contemporâneo, as cinco garotas presentes demonstraram bastante graça e intensidade ao performar suas coreografias. Quando elas saíram do
66 Luciano e Isac filmaram e editaram as duas apresentações, a fala de Jane e duas breves
entrevistas com Luiza e ela. O vídeo foi publicado em abril de 2012 na plataforma YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=Wh7bl9juOsU
teatro após as apresentações, fui cumprimentá-las, e estavam todas bastante eufóricas, com exceção de uma67.
À medida que a noite caía, dezenas e dezenas de pessoas passaram pelo local. Entre elas, reconheci algumas a partir das movimentações da pesquisa de dissertação e da pesquisa de monografia, tais como a Patrícia, membro do
ConecTV; Marileide e Caio68, dois membros do Centro de Defesa da Vida Herbert
de Souza (CDVHS); assim como Iolanda, que substituiu Jane na presidência da UMBC. Algum tempo depois, funcionários do CCBJ apareceram com um bolo gigante para que todos cantassem parabéns para o bairro, e foi um momento de grande descontração. Era domingo, estava ficando tarde e eu ia voltar de ônibus, o que me preocupava, mas havia ali uma confluência interessante de interlocutores da pesquisa. Pude conversar, por exemplo, com Jane e Luciano sobre o evento e sobre a UMBC.
Mais tarde, perguntei a Luiza se elas voltariam à Praça do Canindezinho de ônibus; foi quando Jane me ofereceu uma carona na kombi que havia sido alugada para elas. Fomos “apertados”: o motorista, Jane, as cinco garotas do Afro Arte, uma amiga delas, Patrícia, uma sacola com dez peças de figurinos e os porretes. Para chegar até a Praça do Canindezinho, o motorista entrecortou pelas ruas do Bom Jardim e do Canindezinho, e foi interessante poder observar a vida noturna do bairro, que até então eu pouco tinha visto: igrejas, bares, pessoas nas calçadas. Na Praça, era fim de missa na Paróquia de São Francisco de Assis, e somando-se aos jovens que jogavam futebol, a praça estava cheia. Nós nos despedimos, e agradeci novamente pela carona.
O aniversário do Bom Jardim permitiu visualizar os pontos em que microprojetos, proponentes e jovens participantes se cruzam e interagem. Patrícia, do ConecTV, tinha proximidade com Luiza, Jane e algumas das garotas do Afro Arte. A equipe do CDVHS tinha proximidade com Iolanda, da UMBC. Em
67 Depois soube que esta deixou o grupo após a apresentação por receber reclamações de muitas
faltas aos ensaios e, ao mesmo tempo, teve problemas com o namorado por ir muito aos ensaios.
68 Conheci Marileide em 2008, quando dei início à minha pesquisa de campo para a monografia do
bacharelado em Ciências Sociais. Caio é meu colega de mestrado em Sociologia na UFC e morador da Granja Lisboa. Dona Iolanda também participa das reuniões da Rede DLIS (checar nota de rodapé 12). Ao contrário dos interlocutores desta pesquisa, que aqui tiveram seus nomes modificados, Marileide, Caio e Iolanda são nomes reais.
meio à movimentação de pessoas no Centro Cultural Bom Jardim, pude começar a evidenciar as relações de amizade e sociabilidade existentes.