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3.3. Analyse des personnages

3.3.1. Particularités des personnages dans le roman

O projeto As cores e os tambores do território de paz (FIGURA 7) foi realizado entre novembro de 2011 e abril de 2012 no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) do bairro Canindezinho. Coordenado por Alan, então com 26 anos, educador popular, palhaço e músico, o projeto adquiriu instrumentos de percussão para ensinar modalidades de música percussiva. Ele havia sido também professor do CCBJ em 2011.

Figura 7 - Logomarca criada para o projeto.

Fonte: Cores e Tambores, blog do projeto (SOARES, 2011)

Na primeira visita ao projeto Cores e Tambores, desci do ônibus ao final da linha, onde Alan estaria me aguardando para irmos junto até o local de

realização do projeto. Ele estava rodeado por cerca de dez crianças e adolescentes, e caminhamos para uma rua adjacente, de pedras e areia batida, conversando sobre minha pesquisa e o projeto dele, que acontecia no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do Canindezinho. Perguntei sobre a idade dos participantes, já que pareciam ter a partir de oito anos de idade. Alan relatou a saída de meninos mais velhos por conta de estudos e estágios, e que decidira abrir para as crianças mais novas da sua vizinhança: “Eles queriam participar, então resolvi abrir pra eles também, até porque essa faixa de idade que eles têm é uma idade tendenciosa, quando começam a conhecer mais gente e entender melhor as coisas”.

No blog criado para o microprojeto, Alan apresenta sete objetivos específicos de sua iniciativa, dentre os quais destacamos cinco:

Desenvolver atividades pedagógicas com base nos elementos da linguagem musical, valorizando a experiência prévia a história de luta e resistência da comunidade e a cultura local;

Realizar processos formativos envolvendo questões como: voz, regência, notação musical, e outros conhecimentos teóricos – práticos;

Realizar cortejos culturais envolvendo os vários grupos artísticos culturais do bairro de forma a visibilizar a produção das oficinas e processos formativos e a produção cultural do bairro;

Constituir parcerias e intercâmbios com grupos comunitários, escolas, unidades de saúde e outros órgãos públicos do bairro Canindezinho, tendo a arte como espaço de diálogo para a construção da cidadania.

Promover o protagonismo juvenil nas ações de promoção da saúde e cultura de paz no âmbito do bairro Canindezinho.

Sua proposta era, portanto, mediar processos formativos em técnica musical e, a partir dela, valorizar experiências históricas de luta e de cultura local no bairro entre os participantes e com a realização de cortejos com grupos artístico-culturais do bairro e parcerias com grupos e instituições de atuação local. Essas atividades tinham como propósito visibilizar a produção de oficinas e projetos, abrir espaços de diálogo para a construção da cidadania e promover protagonismo juvenil. Estão aí elementos que permeiam as experiências em projetos culturais para jovens em periferias, na interseção do ensino artístico e do cultivo de valores de cidadania e protagonismo. Alan considera, também, a constituição de parcerias e a atuação em rede como um objetivo a ser alcançado durante o projeto para dar visibilidade a essas práticas e ao bairro como um todo.

Em entrevista, Alan rememorou um debate entre os jovens participantes, que foi mediado por colegas dele de um coletivo de saúde.

Discutiram em torno das percepções de violência no Canindezinho e se e/ou como isso afetava as vidas deles. Alan publicou um sumário dessas discussões no blog do microprojeto.

Figura 8 – Alan e os participantes

Fonte: Fotografia do autor (2012)

Os meninos e meninas participantes já demonstravam ter adquirido familiaridade com os instrumentos (FIGURA 8). Alguns já tinham os seus prediletos, que faziam questão de reiterar para os colegas no início das atividades, quando iam pegar os instrumentos, que ficavam numa sala separada. Nesse dia, fiquei responsável por tirar fotografias do grupo com a câmera de Alan. Estar com a câmera me permitia observar as interações do ensaio sem pressa.

A fim de dar início ao ensaio, que se fazia com todos de pé em roda, Alan primeiramente dizia o ritmo que iriam tocar, dando orientações de sequência e harmonia. Para cada instrumento, ele olhava diretamente para a criança ou o jovem que iria tocá-lo. Às vezes fazia sequências de sons nos instrumentos, como forma de demonstração inicial, e complementava com sons na boca e nas mãos.

Era possível ver, contudo, que as crianças menores demonstravam certa dificuldade em acompanhar a sequência, o que irritava os participantes mais velhos, mas seguiam como uma orquestra mediada por Alan, buscando uma harmonia Ao final do encontro, ele me acompanhou até a parada de ônibus; enquanto aguardávamos, Alan me contava sobre a realidade daquela

comunidade. Um dos meninos do grupo se aproximou, pedalando uma bicicleta, e contou que ela tinha sido consertada de graça por um rapaz do local. Alan sorriu, o menino se juntou aos outros na calçada, e ele me confidenciou sua preocupação com as crianças da vizinhança.

Os meninos eram introduzidos ao tráfico como “aviões” (entregadores de drogas e pagamentos), embora frequentemente, segundo Alan, não fossem informados do que se tratava. Segundo ele, “nem percebem e já estão envolvidos” no tráfico.

Estive em três encontros do projeto, todos realizados no Centro de Referência em Assistência Social – CRAS Canindezinho. Segundo ele, aprenderam sobre música de forma leve e “educaram o ouvido”. Não espera, contudo, que todos sigam a música como profissão. Para ele, era importante oferecer aos filhos e às filhas de seus vizinhos um “espaço diferente de convívio”, em que pudessem conhecer sonoridades e a própria trajetória dele como membro de movimento social e músico. Em sua opinião, poderia apresentar-se como um exemplo para as crianças, que estavam na “idade tendenciosa”, quando começam a entender melhor o que se passa ao redor delas.

Meninos de 8 e 9 anos de idade tocavam com outros de 14 e 15 anos, e o mais velho tinha 18 anos, tocando instrumentos de percussão, tais como surdo, cowbell e caixa. Considerando a idade, Alan, que tinha 26 anos no início do projeto, ofereceu um projeto cultural de jovem para jovens.

A saída de participantes se deveu a estágios, primeiro emprego e oportunidades de educação formal, o que Alan considerou legítimo como motivo, por se tratar de uma entrada no mundo do trabalho e isso era importante para os jovens e suas famílias. Junto aos novos participantes – crianças e adolescentes – o projeto adquiriu contornos mais lúdicos, e a Alan demonstrava dominar uma didática estimulante para eles.

Por atuar como professor no Centro Cultural Bom Jardim e como facilitador de formações em educação popular e saúde, e por conhecer grupos musicais pela cidade, Alan esteve com os participantes do projeto em cortejos de manifestação e eventos pelo bairro, e também ampliou os lugares de apresentação para além do Grande Bom Jardim, levando-os a um bloco de maracatu do carnaval de 2012.

Com seu percurso em práticas culturais e movimentos sociais, Alan entendia a si mesmo como alguém com trajetória diferenciada em sua localidade de moradia, onde o uso e a venda de drogas era tal que os policiais raramente chegavam até o local. Desse modo, considerava que as crianças o tomavam como referência, como exemplo de conduta. Para ele, tal responsabilidade se colocava frente à “idade tendenciosa”, no desafio de influenciar crianças e jovens. Na rotina de dois encontros semanais do projeto, sempre caminhavam juntos do CRAS para as suas casas, conversando amenidades.