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O dia seguinte, 26 de março, foi novamente um dia para regressar ao Bom Jardim, e desta vez para o ato Agir pela Paz – Chega de extermínio e violência contra jovens (FIGURA 10), previsto para partir do Centro Cultural Bom

Jardim às 16h para fazer um cortejo e uma caminhada até o Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza, cuja equipe estava organizando o evento. Em seguida, haveria um ato de memória às vítimas de violência. Entre o CCBJ e o CDVHS são mais de 12 quarteirões de distância, mas fui disposto a fazer essa caminhada.

Aos poucos chegaram pessoas. Muitos se identificaram como participantes de um curso do CDVHS que teria encerramento naquele dia, após o ato. Dois eram integrantes do CDVHS, três eram representantes de outras instituições. Fui surpreendido com a chegada de Alan com os participantes do

Cores e Tambores e mais dois jovens. Falei com ele, e ele foi bastante simpático,

mas estava apressado para dividir os instrumentos e ensaiar brevemente com os garotos. Eles que fariam o cortejo de tambores pela paz.

Eram 5 horas da tarde, e éramos poucos para realizar uma caminhada de peso pelo bairro. Deram início ao ato com discursos, denunciando o “extermínio” de jovens, que tinha como maior vítima o jovem negro e pobre, morador de periferia. Uma funcionária da ONG Terre des Hommes falou a respeito das atividades de mediação de conflitos no bairro e distribuiu panfletos indicando o procedimento. Um jovem participante do curso do CDVHS fez o discurso motivador final para a caminhada, que seria reduzida a uma volta em torno do CCBJ, passando na outra margem do canal que passa ao lado da instituição, numa localidade chamada de Comunidade São Francisco. Alan perguntou se eu poderia tirar fotos dele e dos garotos durante o cortejo, e eu concordei. Começamos o cortejo. Éramos em torno de 60 pessoas.

Figura 10 - Cartaz do evento

Fonte: CDVHS (2012)

Durante o cortejo, um carro com caixa de som emitia por microfone discursos sobre a causa daquele ato – denunciando violência e pedindo paz – enquanto distribuíam panfletos para os moradores. Para os meus ouvidos leigos, as crianças e os jovens tocavam tambores maravilhosamente bem, e animavam o cortejo. De volta ao CCBJ, os organizadores providenciaram carros de amigos para levar todos os interessados ao CDVHS em turnos, e eu fui junto.

Na sede da ONG, outras pessoas já estavam no auditório à espera do ato ecumênico, que reuniu um padre e um pastor evangélico em discursos sobre paz e diversidade. Alan compareceu, mas sem as crianças e os jovens, e falou com Marileide, presidente do CDVHS. No palco foi agrupada uma diversidade de objetos em uma espécie de panteão sagrado e profano, para simbolizar a luta dos moradores e o desejo de paz. Em seguida, no encerramento do ato, os organizadores da ONG fizeram o convite para quem desejasse permanecer no auditório para a última aula do curso de direitos humanos, a ser dada pelo advogado e político Renato Roseno, do Partido Socialismo e Liberdade (Psol).

Na ocasião, partindo do CCBJ rumo ao CDVHS, com a participação do microprojeto As cores e os tambores, pude ver se cruzarem situações, temáticas e interlocutores de minha pesquisa de monografia, em que acompanhei um curso

de formação política de moradores realizado no CDVHS, minha experiência de trabalho no CCBJ, e a pesquisa de mestrado, e percebi que havia, ali, uma interseção das temáticas de juventude, cultura e violência no Grande Bom Jardim. No movimento de visitar os microprojetos, procurei deixar claro aos proponentes que eu estava conhecendo simultaneamente outras iniciativas premiadas pelo edital. Em alguns momentos saía do local de um projeto diretamente para o local de outro projeto. Nesse “trânsito entre projetos”, foi possível conhecer laços de conhecimento mútuo entre eles, para além de vínculos de trabalho. Conheciam uns aos outros e constituíam redes, principalmente a partir de dois lugares: o Centro Cultural Bom Jardim e o Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza. Em intensos três dias de pesquisa, foi possível ver proponentes e participantes em trânsito pelos bairros.

Desse modo, as relações representadas graficamente em rede no início deste capítulo poderiam ser ampliadas, tendo em vista as conexões dos interlocutores com outros agentes que também são atuantes em projetos.

Essa reflexão se faz em consonância com a análise do antropólogo J. A. Barnes (1987), que analisa a construção de apoio a candidatos em processos eleitorais a partir das relações pessoais, atentando para a formação de redes sociais que têm origem nessas relações diádicas69, construídas na relação

pessoa a pessoa. Desse modo, as ações são conectadas, intersectam-se em “um conjunto de relações interpessoais concretas que vinculam indivíduos a outros indivíduos” (BARNES, 1987, p. 167). O autor analisa as interações egocêntricas para apontar a pessoa Alfa da estrela (representação gráfica da rede diádica) e tentar, dessa forma, realçar a zona primária, em que há relações mais intensas.

O que podemos perceber é que os projetos culturais em periferias narradas pela violência não se dão de forma autônoma. Os sujeitos proponentes de projetos participam de eventos, atos e caminhadas que tematizam e problematizam publicamente a violência nos bairros a partir da perspectiva da juventude e dos direitos, e tais eventos são organizados por ONGs e coletivos. Nessas interseções de temáticas, aproximam-se instituições, redes, coletivos e

69 Nessa metodologia, pode-se analisar fluxo de informação, intensidade de vinculação de

pessoas e zonas de influência. Em diálogo com J. A. Barnes (1987) e Adrian C. Mayer (1987), acreditamos que tais conexões sejam importantes para a análise de outros modos de relação e de atividades coletivas em torno de práticas e ideais, não apenas em processos eleitorais.

sujeitos com missões e visões comuns. Constituem-se e reforçam-se as conexões entre os nós da rede que frequentemente se fazem presente em eventos.

Um aspecto da discussão sobre violência e juventude alçado a destaque nacional e que encontra repercussão no Grande Bom Jardim é o chamado extermínio da juventude, ou, especificamente, o extermínio da juventude negra, que é a temática do próximo evento a ser descrito.