1.2. Georges Perec et sa carrière littéraire
1.2.2. Considérations sur la société de consommation dans “Les Choses”
O edital Mais Cultura de Apoio a Microprojetos para os Territórios de
Paz foi lançado nacionalmente no segundo semestre de 2010, como parceria do
Ministério da Justiça com o Ministério da Cultura (MinC), para a inscrição de “projetos sócio-culturais” por moradores dos “territórios de paz” – chamados de
proponentes –, que competiriam por um prêmio em dinheiro para a realização da proposta de intervenção. O objetivo do edital era o “foment[ar] e incentiv[ar] artistas, grupos artísticos independentes, grupos étnicos de tradição cultural e pequenos produtores culturais nos bairros definidos como territórios de Paz pelo PRONASCI”, tal como pode ser lido no texto do edital.
Os “projetos sócio-culturais” são definidos de maneira indireta, com a apresentação de doze modalidades possíveis de ação: artes visuais, artes cênicas, música, literatura, audiovisual, artesanato, cultura afro-brasileira, cultura popular, cultura indígena, design, moda e artes integradas. Cada modalidade abrangeu diversas atividades e práticas, tais como produção, exibição, formação, pesquisa, aquisição de materiais, espetáculos, entre outras. Além das modalidades frequentemente reconhecidas como artes – artes visuais e cênicas, música, literatura e audiovisual –, o edital contemplou, ainda, artesanato, cultura afro-brasileira, cultura popular e cultura indígena, que aludem a práticas de “cultura brasileira”, e as artes em interseção com o mercado, como o design e a moda. De forma a contemplar ainda mais possibilidades de ação, o edital apresentou a modalidade Artes integradas, definida da seguinte forma: “abrangerá ações que não se enquadrem nas áreas anteriores ou que contemplem mais de uma área artística na mesma proposta”.
44 Aqui proponho o uso da barra vertical ( | ) porque sinaliza um “e” – descrever e interpretar – ,
seguindo o argumento da professora Deisimer Gorczevski de privilegiar esse sinal gráfico ao invés da barra ou “slash” ( / ), que sinalizaria um “ou” (um ou outro).
Configurando-se como uma concepção ampliada da cultura, o edital não impôs limitações na forma; pelo contrário, possibilitou o uso de diversas mídias e suportes, e ações diversificadas.
O edital instaurou uma competição entre as propostas inscritas, orientada por critérios especificados de seleção. Frequentemente, os critérios correspondem a diferentes pontuações, que distribuem o peso valorativo que os organizadores do edital atribuem a cada critério na avaliação geral das propostas. Neste edital, os microprojetos inscritos foram avaliados segundo seis critérios, que são especificados a seguir, com suas respectivas pontuações:
a) Desenvolvimento de práticas e ações artístico-culturais voltadas para jovens de 15 a 29 anos (01 a 04 pontos);
b) Valorização das experiências culturais locais (01 a 04 pontos); c) Expressividade artística (01 a 04 pontos);
d) Residência do proponente nos próprios Territórios de Paz a serem beneficiados (critério de classificação/desclassificação);
e) Desenvolvimento de práticas e ações artístico-culturais voltadas para a prevenção da violência e a promoção da cultura de paz (01 a 04 pontos); f) Orçamento e cronograma compatíveis (01 a 04 pontos).
Cinco critérios (a, b, c, e, f) foram avaliados com uma margem de pontuação entre 01 a 04, e um critério foi especificado como obrigatório para classificação/desclassificação (d). O aspecto f) é de análise técnica, para que a proposta tenha gastos dentro do valor máximo previsto. O aspecto d) visa limitar os proponentes de microprojetos a moradores dos “territórios”, com comprovação de residência, o que pode ser compreendido como uma maneira de valorizar a experiência de pessoas que já conhecem a “realidade” local. Os aspectos a), b), c) e e) compõem o entrelaçamento das temáticas: práticas e ações artístico- culturais voltadas para jovens de 15 a 29 anos, valorização de experiências culturais locais, expressividade artística e um objetivo de prevenção da violência e a promoção da cultura de paz.
A faixa etária estipulada atendia à determinação do Governo Federal sobre juventude, conforme apresentamos anteriormente, e deveria orientar a inscrição de jovens. Como veremos à frente, na prática alguns microprojetos “flexibilizaram” esse critério, aceitando participação de pessoas interessadas que tinham idade inferior e superior à faixa etária governamental de juventude. Com base no aspecto b), haveria uma expectativa de prática cultural “autenticamente” local? Práticas diferentes, como funk e samba, ou skate e futebol, seriam
valorizadas da mesma maneira? E ainda, de que modo os jurados avaliaram esse critério em propostas de lugares tão distintos, espalhados pelo Brasil? O que se compreende por expressividade artística, tal como especificado no critério c), e de que modo propostas diferentes seriam avaliadas nesse quesito?
Por fim, o critério e) parece resumir o objetivo do edital, com o direcionamento das “práticas e ações artístico-culturais” como metodologia, como
um meio para instaurar processos de “prevenção da violência e a promoção da cultura de paz”. Tais conceitos não são definidos no edital, que parece falar para quem já apreendeu e opera com esses códigos nessas localidades denominadas “territórios de paz”. Isso pôde ser evidenciado no Grande Bom Jardim, segundo os proponentes dos microprojetos pesquisados, onde o Centro Cultural Bom Jardim atuou como ponto de difusão do edital à época das inscrições. No local foi também realizada uma sessão de orientações para a escrita das propostas.
É provável que esse incentivo adicional tenha sido o motivo que permitiu que o “Território” de Fortaleza tenha sido o que mais enviou propostas: 136 do total de 1.327 projetos enviados45, dos quais 16 foram inicialmente
premiados. Por conta de um envio reduzido de propostas em outros “Territórios de Paz” pelo país, mais 16 propostas do “território” do Grande Bom Jardim foram aprovadas, somando 32 projetos. Um desses projetos, contudo, foi cancelado pelo proponente, resultando em 31 projetos implementados nos espaços do Grande Bom Jardim. Cada microprojeto recebeu R$ 12.000,00 (doze mil reais) na modalidade “prêmio” para a sua realização.