De acordo com Lüdke e André (1986), a utilização da observação como procedimento que possibilita um contato pessoal e estrito do pesquisador com o fenômeno estudado é útil para a descoberta de aspectos novos relacionados ao problema investigado. Salientando-se que todo o conteúdo das nossas observações foi registrado no Diário de Campo para eventuais retomadas do processo investigativo. Tal procedimento, segundo Richardson (2008), complementa a metodologia da investigação, ao conter informações sobre o pesquisador, sobre o que ele faz e sobre o processo de pesquisa.
Para o estudo de comportamentos complexos, a técnica da observação é a principal abordagem disponível. Assim, o pesquisador necessita utilizar metodologias adequadas para que fatores não relacionados com o fenômeno que se deseja estudar não interfiram na recolha e análise dos dados. De acordo com Vianna (2007)
A observação é uma das mais importantes fontes de informações em pesquisas qualitativas em educação. Sem acurada observação não há ciência. Anotações cuidadosas e detalhadas vão constituir os dados brutos das observações, cuja realidade vai depender, em grande parte, da maior ou menor habilidade do observador, e também da sua capacidade de observar, sendo ambas as características desenvolvidas, predominantemente, por intermédio de intensa formação. (VIANNA, 2007, p. 12)
Existem críticas sobre essa estratégia de investigação, pois provoca alterações no ambiente ou no comportamento das pessoas observadas além do
grande envolvimento do pesquisador, o que pode gerar uma visão distorcida do fenômeno ou uma representação parcial da realidade (LUDKE; ANDRÉ, 1986). Contudo, essa ideia foi criticada por Lincoln e Guba (1985), ao afirmarem que os ambientes sociais são relativamente estáveis e que suas modificações com a presença do pesquisador não são tão intensas quanto os críticos sustentam.
Nesse sentido, Patton (1990) enfatiza a imprescindibilidade do observador, quando, no trabalho de campo, desenvolver a capacidade de concentração, sensibilidade e energia, para que a tarefa seja concretizada. Por esse fato, a observação é a parte da pesquisa que demanda mais tempo e exige maior envolvimento pessoal do pesquisador, e se desenvolve quando os objetivos estão formulados (apesar de muitos outros emergirem a partir da observação) além de já haver o planejamento da forma de realizar os registros dos dados.
De acordo com Flick (2005), a observação é organizada em fases processuais: a primeira é a seleção do cenário que será o lócus da observação, seguida da definição do que vai ser observado; a terceira é a realização de observações descritivas e reflexivas, seguida do registro dos destaques que contenham aspectos realmente relevantes da pesquisa. Nesse sentido, é importante registrar a descrição dos participantes, o contexto físico, os eventos, as atividades particulares e as reações do observador.
Assim, a observação só pode ser considerada concluída quando há o ponto de saturação teórica, ou seja, quando as observações não proporcionam mais nenhum conhecimento. Em nosso estudo, a observação durou mais de 2 anos, por ser perceptível a necessidade de se retomar o contexto para validar (ou descartar) dados que emergiram da fase exploratória. No ano de 2013, realizamos a fase exploratória no PIBID de Química e Física. No ano de 2014, acompanhamos in loco os futuros professores do MEFQ. No primeiro semestre de 2015, retornamos ao PIBID para recolha de dados, com as questões de estudo mais refinadas.
Por razões éticas, quando a observação é concluída, faz-se necessário informar aos envolvidos sobre o uso dos dados e a disponibilidade do estudo, o que também é imprescindível para que o critério de qualidade do trabalho seja efetivado. Não obstante, em nossa investigação, todos os dados foram apresentados aos
sujeitos participantes, que poderiam refutar alguma das informações contidas, caso o critério da confidencialidade fosse violado44.
Pelo exposto, evidencia-se que a observação na investigação qualitativa assume relevo considerável, pois permite ao investigador estar no ambiente dos participantes, ajudando-o, assim, a descobrir e a entender a sua complexidade (VIANNA, 2007). Soma-se a esse aspecto o fato que a observação direta torna o investigador mais apto para compreender o contexto no qual os participantes interagem e, desse modo, obter uma perspectiva global. O adentramento no contexto via observação torna-se, assim, uma oportunidade para o investigador construir conhecimento pessoal durante a etapa de análise de dados (PATTON, 1990).
Concordamos com Vianna (2007) quando afirma que as técnicas de observação são utilizadas em situações sociais típicas, e necessitam, então, de que seja in loco, pois diferentes fatores sociais podem interferir nos dados. Em nossa investigação, a observação foi utilizada como estudo preliminar (fase exploratória) com vistas a desvelar as características do contexto formativo que seriam alvo de nossa atenção e, ainda, na fase de organização dos dados, entrecruzar dados observados com dados oriundos de outros instrumentos/estratégias de recolha.
Existem muitas vantagens para a utilização da observação na pesquisa, a saber:
Como o comportamento dos sujeitos é observado no seu ambiente natural, há a diminuição das subjetividades das escritas, por exemplo, de outras fontes.
Pelo fato de o observador estudar os eventos à medida que ocorrem, observa de forma mais acurada os acontecimentos e determina com maior facilidade as suas tendências.
A maior dificuldade na utilização da observação como estratégia é o oferecimento de uma grande quantidade de dados. Ao final, é difícil codificar ou classificar. Isso incide diretamente na especificação do tipo de análise de dados que se propõe a desenvolver.
Vale salientar que a observação pressupõe o registro, de forma sistemática, de ações, acontecimentos e interações. Daí que seja importante se criar um
44Os critérios foram estabelecidos no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o qual
protocolo de observação45, para que o investigador delimite o que vai observar em cada situação, em se considerando que, numa observação, muitas situações acontecem de forma concomitante e o investigador tem de decidir o que é importante e significativo para, dessa forma, estabelecer prioridades e não se perder na imensidão de dados recolhidos.
É sabido, a partir da literatura sobre metodologia que, ao perceber-se observado por pessoas ou instrumentos, a maneira como habitualmente os sujeitos se comportam é alterada. Assim, para evitar o efeito do observador (reatividade), tomamos o cuidado em realizar uma observação naturalista. Foram utilizados as notas de campo e os registros de gravações em áudio e vídeo.