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3.2 GENÇLĠK GARANTĠ PROGRAMI

3.2.2 Temel Ġlkeleri, BileĢenleri ve Finansmanı

Nem sempre a palavra guarda seu significado etimológico, isto é, o originário ou referencial. As palavras, em seu processo de expansão, adquirem outros significados. Nos estudos linguísticos, essa característica das formas linguísticas tem sido interpretada como polissemia.

A polissemia19 é uma propriedade inerente à linguagem humana e diz respeito aos diferentes significados que uma palavra assume no contexto comunicativo, embora mantenha suas propriedades originais.

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A polissemia pode ser concebida como conjunto de significados relacionados com a mesma forma; ou seja, palavras de uma só forma (significante) com mais de um significado unitário pertencentes a campos semânticos diferentes. A polissemia favorece as línguas naturais, possibilitando a ampliação do léxico, sem aumentar o acervo lexical, razão porque é vista como um fator de economia e flexibilidade da língua, como resultado da mudança de aplicação da palavra, da especialização do meio social, ou da linguagem figurada. Entretanto, costuma gerar ambiguidade no processamento das informações, confundindo-se com outro fenômeno também muito corrente nas línguas naturais: a homonímia (palavras que têm significado e uso muito distinto). Os

O significado conceptual ou sentido é considerado um núcleo de onde partem várias conotações. Essas conotações ampliam o campo significativo das formas linguísticas através de associações, formando-se assim uma rede de significações em torno delas.

No português contemporâneo, o item mesmo apresenta um quadro conceptual semanticamente bem ampliado, mas isso não significa que seja esse um processo recente. Na sua história, o item linguístico mesmo agregou diferentes nuanças significativas à sua base semântica. Em cada ocorrência do item destacada a seguir dá para se perceber um matiz diferente:

(13) E* Dona Giselda, quais os bairros em que a senhora já morou?

I* Eu só me lembro que morei aqui mesmo, num tem outro não, só em Jaguaribe. *Morei também na rua da Palmeira, que hoje é Rodrigues de Aquino, né, (Inf, GPS, 25, p. 276).

(14) E* Como foi essa briga?

I* Ela me pegou eu esculhambei mesmo, esculhambei {inint} a menina que mora aí perto. É tanto que ela num mora mais nem aí, mora a mãe dela. Que ela foi fala0 que eu num era uma moça may0.(Inf. 1, fem, p.9)

(15) É umas estóriaø sériaø, né? Tem uns negócioø bonitoø que aconteceu, né? Até a estória mesmo da vida dos cantoø; Os cantoø quando era pobre, nera? Morava no interioø, que nem aquele menino Zezé de Camargo e Luciano. Morava numa casa tão veinha, num era? (Inf 2, fem, MLS, p.25) (16) I* Ah, o melhor possível. Eu tenho uma facilidade de fazer amizadeø + enor:me, sabe? Sabe como é que é? Mesmo no ônibuø assim, no ônibuø, na cidade em todo canto que eu chegar eu faço <ami-> se eu pudesse se eu pudesse eu tinha amizade cum todo mundo. Conhecia o mundo inteiro. (Inf.14 TCS, fem ,p.148)

(17) E* Tem alguma história de carnaval para contar?

I* Teim da minha infância, quando eu era pequena, ia assistir, o carnaval lá na Duque de Caxias todo ano, então como eu era a filha mais nova, papai tinha maior prazer de me levar nas costas pra assistir aquele curso todinho ali, bem fantasiada, então pra ele aquilo não representava nada pra pessoa dele, porque ele não estava se divertindo, mas ao mesmo tempo ele se sentia feliz, porque me levava pra eu assistir aquilo que eu queria. (Inf, 28, fem, EBC, p.315)

(18) Sou mais aqui. Se é pobøe, é melhoø moraø num lugaø pelo menos mais seguro, de que ir ser pobøe num lugaø violento. É isso, vixi, num tem nem condição. Além de seø pobøe, passaø fome, ainda vai morreø? De graça? É mesmo que nada, menina! (Inf 2, MLS, fem, p.21)

(19) E* Ela gostou?

falantes/ouvintes têm consciência desse fato e distinguem bem esses dois processos através de diferentes mecanismos ( Biderman, 1999, p. 204).

I* Gostou. Mays antes se eu num tivesse dado nada, né? Mai0, como meu filho deu foi mesmo que eu te0 dado. Eu comprei: aí, ele deu, né? (Inf. 1, fem p. 12)

(20) E* E qual foi o professor que você mais gostou e por quê?

I* Ah! eu gostei muito muito de uma professora do primeiro ano, portuguêys, ela era ótima, se dedicaø tanto, com tantas dificuldades que... o ensino público apresenta, né? mas mesmo assim, eu me saí muito bem na disciplina, e... ela era muito dedicada, (Inf.10, fem p.102)

As ocorrências acima compartilham a propriedade de admitir diferentes sentidos do item em pauta: em (13) e (14) ele expressa exatidão, mas tem conotações significativas diferentes. Em (13), o item dá um tom afirmativo, categórico a intenção. Em (14), ele expressa realmente. Todavia, ainda, se percebe nele um matiz enfático. Em (15), o sentido de mesmo não é capturado de imediato. Mas, sem dúvida, ele aqui tem valor de próprio(a). Basta mudar sua posição na frase para se perceber essa intenção. Em (16), mesmo muda seu sentido para inclusive ou até, sendo necessário para isso deslocar o termo para o início da oração. Em (17) o uso de mesmo na expressão ao mesmo tempo imprime uma ideia de “simultaneidade” ao enunciado. Em todos esses enunciados, é perceptível a conotação original de reforço, mesmo quando o novo sentido se revela distante da base.

Porém, as ocorrências (18), (19) e (20) estão alicerçadas em outra base conceitual do item. Em (18) o item mesmo associado a que tem sentido de igual a. Estranho, mais em (19), a expressão mesmo que já não pode ser entendida como igual. Aqui mesmo que tem sentido de como. Na ocorrência (20), mesmo pode ser entendido como apesar disso, imprimindo concessvidade à estrutura que o hospeda. Todas essas acepções derivam de um mesmo étimo, de uma mesma base, formando um campo semântico ao redor do item.

Todavia, de nada vale identificar os diferentes significados do item, sem fazer referência ao jogo da linguagem em seu funcionamento onde eles se manifestam e se cristalizam. Como são explicados os diferentes sentidos das palavras?

No item em discussão, a rede de significações associadas a ele decorre em função de sua ambivalência etimológica20, conferindo-lhe uma configuração significativa especial.

Nas ocorrências (13) e (15), o item mesmo ainda preserva seus valores originais como expressão de reforço. Em (18) e (19) está transparente uma comparação que se pressupõe constitutiva de sua base de referência. Nos demais casos, parece que o item foi contaminado pelo ambiente semântico criado pela proximidade de outras palavras que a ele se associaram,

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alterando-lhe o sentido, o conteúdo original. Em outras palavras, a transparência do núcleo semântico do item é confiscada pela força de significações conotativas que a ele vão se associando.

Aos poucos, conotações novas foram incorporadas às já existentes. De item de reforço e de referência (base concreta), o item passa a imprimir também noções cada vez mais abstratas, distantes do seu escopo semântico original.

Diferentes estudos ressaltam que os significados de uma palavra não se constituem isoladamente nem de modo aleatório. Segundo Garcia (2000, p. 176), “o significado nasce do contexto e das associações intra ou extralinguísticas”.

Mudanças socioculturais e cognitivas acarretam alterações nos usos vocabulares, fazendo com que seus significados ultrapassem os limites de sua primitiva “esfera semântica” e assumam novos valores no decorrer do tempo. Ocorrências já destacadas (14, 15, 16) servem de exemplo.

Porém, como assinala Breal,

O sentido novo de uma expressão, qualquer que seja ela, não acaba com o antigo. Ambos existem um ao lado do outro. O mesmo termo pode empregar- se alternativamente no sentido próprio ou no sentido metafórico, no sentido restrito ou no sentido amplo, no sentido abstrato ou no sentido concreto. Cada significado acrescido à palavra vai adaptar-se a uma situação. (BREAL, 1992, p. 103)

Essa perspectiva é também encontrada nos princípios funcionalistas de Hopper (1987, 1991). Isso me permite inferir que quanto mais as formas linguísticas acumulam significações na sua história, mais se deve supor que ele represente valores e aspectos diversos da atividade intelectual e social do homem. Por conseguinte, quanto mais antiga a palavra, mais polissêmica ela é. Isso significa que as formas linguísticas não têm total autonomia semântica ou um sentido único, literal, relacionado à sua estrutura como elemento autônomo.

Na linguística funcional, a polissemia é entendida como resultante dos processos diacrônicos de mudança ocorridos com os itens no dinamismo e funcionamento da língua. Asseveram os linguistas funcionalistas que na sua evolução, as formas lingüísticas acumulam diferentes nuanças significativas, impulsionadas pelas necessidades culturais, cognitivas e comunicativas.

No conjunto das nuanças significativas do item mesmo, é possível perceber esse dinamismo. As conotações de referência e reforço do item prestam ainda uma grande contribuição à língua, muito embora se mostrem estendidas em diferentes contextos do

português atual. Numa perspectiva sincrônica, esses matizes são entendidos como um conjunto de polissemias coexistindo. (MARTELOTTA, 2003).

Pesquisas em gramaticalização ressaltam que, ao lado de fenômenos que mudam com o tempo, existem aspectos que se mantêm ao longo da trajetória evolutiva das formas linguísticas.

O uso figurado da linguagem (metáforas e metonímias) também tem sido apontado como uma causa muito freqüente de polissemia das palavras. Taugott & Köing (1991) demonstraram que processos metonímicos nas construções concessivas têm sido responsáveis pela polissemia das expressões linguísticas. Assim sendo, a polissemia do item mesmo pode ser entendida como resultante dos diferentes processos metonímicos ocorridos com o item, quando usado concessivamente em diferentes contextos comunicativos.

Do mesmo modo, o valor semântico das unidades linguísticas se amplia em decorrência do uso. Isto quer dizer que a freqüência contínua de uma palavra gera, também, polissemia. Traugott & Köing (1991) colocam que, paralelamente aos processos metafóricos e metonímicos, mudanças por gramaticalização, motivadas pela pressão de informatividade acarreta novos sentidos às palavras. Este mecanismo de mudança relacionado às implicaturas conversacionais estimula o aparecimento de novos sentidos para as formas lingüísticas, em forma de inferências. (MARTELOTTA, 2003).

A preocupação com as significações e sentidos das palavras tem sido foco de discussão em muitos estudos sobre a linguagem. A seção a seguir aborda um pouco mais essa questão através do conceito de referência.