3.2 GENÇLĠK GARANTĠ PROGRAMI
3.2.6 Gençlik Garanti Programı Örnek Ülke Planları ve Değerlendirmeler
3.2.6.5 Polonya
No núcleo semântico referencial do item mesmo duas dimensões funcionais de uso destacam-se: a de comparação e a de argumentação. Entretanto, essas possibilidades do item ficam subjacentes em suas funções referenciais, dando-se a elas pouco destaque nos estudos sobre o item. Nesta seção, em particular, saliento essas categorias por serem manifestações recorrentes veiculadas pelo item, principalmente, na oralidade.
Entende-se aqui a comparação e a argumentação, assim como o reforço e a referência propriedades constitutivas das línguas naturais.
Ducrot, no prefácio do livro “Intervalo Semântico” de Vogt (1977), diz o seguinte:
[...] tudo na língua é comparação ou pelo menos, muita coisa – muito mais do que se pensa habitualmente. Em especial estas partículas que voltam sem cessar no discurso (mas, também, mesmo, ainda...), e que a linguística tradicional considera com um certo desprezo – ainda que, sem elas, o discurso perca toda organização, toda coerência e toda a vida, e reduza a uma sucessão de exemplos gramaticais. Essas partículas, desde que se experimente descrevê-las um pouco minuciosamente, revelam-se como comparações implícitas. Mesmo que estabeleçam uma concessão, um excesso, uma compensação terminam sempre por confrontar dois dados, por colocá-los na balança. Empregar essas palavras já é colocar-se fora das coisas que se diz, no seu intervalo. (DUCROT, 1977, p. 14)
De fato, o item mesmo não se constitui um termo comparativo nos moldes da gramática tradicional. Todavia, ninguém tem dúvida que ele produz um efeito comparativo nos discursos, ressaltando a “igualdade” de diversas formas.
As relações comparativas são tradicionalmente veiculadas por expressões como: igual, tão (tanto) quanto, mais (ou menos) do que, como etc. Na ocorrência (24) o uso de mesmo desenvolve a mesma intenção, avaliando e comparando o comportamento entre pessoas.
(24) E agora como é seu dia-a-dia no trabalho?
I* Ah, legal, né? todos gostam de mim, eu sei me conter com as pessoas, meu relacionamento com as pessoas sempre foi e sempre será o mesmo. (Inf. 24, fem, p. 266).
Azeredo (2001) mostra alguns processos de estabelecer a relação comparativa de igualdade ou desigualdade no português, ressaltando a dependência das informações envolvidas nessa relação.
Segundo Azeredo (2001), as construções comparativas são oriundas de estruturas relativas (Ex. A pele dela é mais branca do que a neve). A locução do ‘do que’ é resultado da seqüência de: ‘de’ (preposição) “o” (pronome pessoal neutro) e ‘que’ (pronome relativo). Este tem como antecedente o pronome e desempenha na oração que introduz o papel de um modificador de conteúdo quantitativo. Esta função fica ainda mais evidente nas construções com ‘quanto’ como se observa no exemplo:
(25) Ela tem a pele tão branca quanto a neve.
As relações comparativas, geralmente, são anafóricas. No contexto comparativo, a interpretação semântica do segundo termo da comparação depende das informações explícitas no primeiro. O segundo termo da comparação tanto pode ser uma oração plena, uma oração elíptica ou um sintagma nominal. Em termos funcionais, o segundo termo da comparação pode ser um modificador subordinado ao SV da primeira oração, seja ele constituído por um SN, uma oração plena ou ainda uma oração elíptica. (AZEREDO, 2001)
No entanto, essa não é a única forma de se entender e explicar a comparação. Do ponto de vista da Teoria da Argumentação de Língua, a comparação pode ser compreendida, também, como um recurso argumentativo. Em seus estudos sobre a comparação, Vogt (1977) observou que o uso de mesmo pode ser tratado de um ponto de vista argumentativo, uma vez que traz para o interior do enunciado a marca de uma apreciação do falante. Isso é perceptível na ocorrência (26) a seguir:
(26)...Ele disse que não sou mais o mesmo que ele conheceu (Inf 29, masc. p.314 )
Do ponto de vista funcional, o item mesmo nessa ocorrência estabelece uma comparação no enunciado. Porém, o item, nessa construção, deixa em suspenso uma informação. Subentende-se que o uso do item, na ocorrência (26), desenvolve também uma suposição, sugerindo que João foi uma pessoa melhor (ou pior). É nesse sentido que se diz que mesmo é um item anafórico ou catafórico argumentativo (VOGT, 1977).
Para os estudiosos da Semântica Argumentativa, certos elementos linguísticos como mesmo, por exemplo, opera um valor argumentativo nos enunciados, pelo menos do ponto de vista virtual. Considero importante destacar essa perspectiva de estudo no âmbito da linguística, particularmente, no estudo do item mesmo.
Guimarães (1995, 49-52) destaca alguns aspectos relacionados à essa perspectiva: i) a argumentação é vista como uma forma de produzir sentidos na linguagem, sendo, por conseguinte, considerada de caráter linguístico. ii) a argumentação não é uma relação da linguagem com o mundo, mas uma relação que orienta de um sentido para o outro que se interpreta, então, como uma conclusão, numa enunciação particular. iii) a argumentação permite pensar a textualidade e a relação entre língua, discurso e enunciação.
A Teoria da Argumentação postula que, nos sentidos dos enunciados, os valores argumentativos são fundamentais e defendem que a argumentatividade está na língua. (Ducrot & Anscombre, 1983).
Espíndola (2004) explicita que:
A teoria da argumentação na língua postula que algumas relações argumentativas não fazem parte do valor semântico fundamental do enunciado, mas devem ser consideradas elas mesmas como fundamentais, como linguísticas no sentido pleno, uma vez que estão presentes na língua desde os níveis básicos. Tais valores são fundamentais na significação... Há presentes, nos sentidos dos enunciados, alguns valores semânticos que não podem ser nem deduzidos, nem mesmo derivados, de valores informativos mais fundamentais. Tais valores, considerados argumentativos, passam a ser considerados fundamentais na significação; enquanto os valores informativos deixam de ser fundamentais e passam a ser derivados daquele. (ESPÍNDOLA, 2004, p. 18)
As relações argumentativas não são absolutas. Os enunciados contem valores argumentativos e entre esses existe uma hierarquia que aponta numa direção dada. Em outras palavras, um argumento não é prova para algo, mas uma razão que é dada ao interlocutor para aceitar uma conclusão. O ato de argumentar resulta da concatenação de segmentos do discurso: um constituindo o argumento e o outro, a conclusão. Para demonstrar esse aspecto, Ducrot (1983) desenvolveu um raciocínio escalar dos argumentos, adotando para isso as
expressões mesmo, (até e até mesmo). Há entre os argumentos uma relação de maior ou menor força para uma certa conclusão. Segundo Vogt (1977), em uma estrutura comparativa em que mesmo é atuante deve-se tentar descrevê-lo, levando-se em conta esta disponibilidade argumentativa. Tento explicar esse postulado através do exemplo a seguir:
(27) I* Não. Como era que eu podia? Agora, por intermédio de televisão é que a gente vê mais o povo, conhece. Mais, no meu tempo num tinha isso, né? Mesmo no teatro mesmo, assim, eu gostava muito de teatro. (Inf, mas, p. 253)
Embora possa ser intepretado com valor de inclusão, na ocorrência (27), o uso de mesmo sugere uma gradação de fatos, principalmente, se a ele se antepõe a expressão até (até mesmo no teatro). Nesse enunciado, a presença de mesmo, além de está indicando que outras instituições religiosas já tinham esse comportamento, destaca esse fato como algo novo, estranho. Numa escala imaginária, o argumento introduzido por mesmo assume um caráter conclusivo e mais importante dentre outras possibilidades argumentativas, constituindo-se o argumento mais forte da escala. Isso indica que a presença de mesmo (ou até mesmo) na construção ressalta que a relação de argumentação está marcada na língua.
Uma classe argumentativa é formada por enunciados que levam a uma mesma conclusão. Na concepção de Ducrot (1988), uma escala argumentativa deve ser ordenada pela força menor ou maior dos enunciados. Ou seja, se p e p’ são argumentos para uma conclusão r, p’é sempre mais forte que p:
Argumento mais forte P’’ Mesmo no teatro...
P’ Agora, por intermédio da televisão... P No meu tempo, num tinha isso, né?
Os enunciados para constituir uma escala argumentativa devem trazer, sobretudo, a marca da língua. Ducrot (1988) demonstrou que mesmo (até, e até mesmo) estabelecem uma ordem argumentativa em função das intenções do discurso entre os enunciados p e p’, funcionando como um operador argumentativo. Segundo Guimarães (1995), deve-se observar que a escalaridade envolve relações de natureza comparativa, mesmo não se tratando de uma construção comparativa, o item mesmo pressupõe a comparação.
Finalizo esse quadro descritivo do item, relembrando suas diferentes funções na língua portuguesa.