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3.2 GENÇLĠK GARANTĠ PROGRAMI

3.2.6 Gençlik Garanti Programı Örnek Ülke Planları ve Değerlendirmeler

3.2.6.4 Ġrlanda

Karl Bühler fala que:

[...] toda língua possui um sistema de formas, destinadas a situar os elementos do mundo bio-social no quadro de um ato de comunicação e que funcionam no campo mostrativo da linguagem, em face do campo representativo ou simbólico. Essas formas, meramente indicativas, ou dêiticas em sentido amplo, são os pronomes. São indicados pela posição que ocupam no momento de uma mensagem linguística. (BÜHLER, 1934, apud CÂMARA JR, 1976, p. 89)

O papel dos demonstrativos é essencialmente dêitico, isto é, indicador do espaço, afirma Said Ali (s/d, 262). Cabe-lhe, entretanto, um segundo papel que ele chama de anafórico, o qual consiste numa referência ao mundo biossocial, mas ao que foi dito ou vai ser dito no contexto linguístico.

Comungando com ele, Camara Jr. (1976) clareia um pouco mais essa informação, destacando que, como pronomes anafóricos, os demonstrativos servem a um campo mostrativo centrado no falante. Os mostrativos funcionam não só para uma indicação no espaço em que se situam falante e ouvinte (função dêitica propriamente dita), mas também no âmbito do contexto linguístico, o que constitui sua função anafórica (gr.anaphorá “referência”).

Para Ilari & Geraldi

[...] os demonstrativos são expressões que permitem identificar pessoas, coisas, momentos e lugares a partir da situação de fala. A linguística moderna chama os demonstrativos de dêiticos, ou seja, “palavras que mostram”. Em outras palavras, os dêiticos realizam o fenômeno da dêixis (ato de mostrar)

que é um dos traços que distinguem a linguagem humana das linguagens artificiais.(ILARI e GERALDI 2003, p.66)

A intervenção de Biderman (2001, p. 322)21 sobre o assunto merece ser considerada, embora seus estudos centrem-se em outra área de conhecimentos linguísticos. Segundo ela, “as palavras podem ser de conteúdo e instrumentais”. Mas, entre estes conjuntos de palavras situam-se zonas lexicais mal definidas e de limites difusos. Nessas zonas, situam-se os dêiticos (pronomes demonstrativos, pessoais, pronomes adjetivos e advérbios), cuja função é mostrativa, portanto, não possuem conteúdo nocional. Como signos do campo mostrativo, são peças vitais que fazem funcionar a comunicação linguística. Assim, situam os seres e as coisas em relação ao espaço ou em relação ao tempo. Aí, estão incluídos os pronomes pessoais, os pronomes e adjetivos demonstrativos, alguns advérbios de lugar e de tempo. Salum (1984) chama demonstrativos os dêiticos que indicam, com respeito às pessoas do discurso e à não-pessoa, a noção básica de relação espacial e subsidiárias, como a de tempo; ao valor dêitico, associam-se o anafórico e o catafórico. Ela situa, ainda, entre os demonstrativos, os indicadores de identidade e da ênfase (do tipo mesmo), que se prestam ao reforço da dêixis e à anáfora e que se relacionam, por origem, a formas incluídas no quadro do demonstrativo latino.

Enfim, segundo Castilho (1991, p. 121), os demonstrativos mesmo, próprio, tal e semelhante compartilham propriedades sintático-semânticas com os pronomes pessoais e com os artigos, ou seja, guardam a disposição no mesmo lugar sintagmático e apresentam um traço em comum: a foricidade. Em outras palavras, promovem a retomada de conteúdos e indicam a posição espacial, temporal ou textual ocupada pelo referente. São palavras definidas por seu papel fórico e dêitico na linguagem.

Pelo exposto, não resta dúvida que, no conteúdo semântico do item mesmo, participam duas matrizes conceituais (dêitica/ fórica), atestando a complexidade cognitiva subjacente ao item. Essa dupla base conceitual lhe permite um leque abrangente de possibilidades de uso: reforçar, identificar, designar, comparar, fazer referências ou retomadas de porções informativas no texto. A seção seguinte destaca mesmo e sua propriedade de reforço.

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Apesar de estruturalista, considero o pensamento desenvolvido por Biderman pertinente a essa questão, contribuindo, do ponto de vista interdisciplinar, para o avanço da pesquisa lingüística.

3.4.3.1 SUA VOCAÇÃO DE REFORÇO

Destaquei na seção 3.3 a posição de mesmo, como dêitico/fórico no quadro mostrativo da linguagem, com missão de situar o referente no espaço e no tempo. Nessa missão, cabe ao item reforçar mensagens e intenções.

Entretanto, o reforço, apesar de se constituir uma propriedade das línguas naturais e ser, ainda hoje, uma tendência marcante no português, ao que parece, não é uma preocupação dos estudos linguísticos. Poucos estudos discutem essa característica, provavelmente, pela escassez de fontes de referência, entre outros aspectos.

Segundo Ilari (1992), no Latim Vulgar era comum o hábito de reforçar a ideia de identidade por meio do sufixo –met mais o artigo indefinido ipse, propiciando o aparecimento de construções egomet ipse (eu próprio em pessoa) e patremet ipse (o próprio pai em pessoa).

Logo, porém, essas locuções são reanalisadas em ego metipse, patre metipse e as duas expressões de reforço são vistas como formando uma única palavra, o adjetivo metipse que, colocado no superlativo vira metipsissimum ou metipsimum. Esse é o antepassado do port. mesmo, esp. mismo, fr. même, e it. medesimo.

Salum (1981), nos estudos que desenvolve sobre o reforço na formação dos demonstrativos e dos indicadores de identidade e da ênfase nas línguas românicas, traz algumas informações a respeito do assunto, que, sem dúvida, contribuem na construção deste estudo. Ela comprova, através de dados históricos, que a intenção de reforço já é conhecida desde o latim clássico, integrando o sistema tríplice demonstrativo da língua. Esse sistema chega às línguas românicas através do latim vulgar, porém, já reduzido a um sistema bigradual.

Salum (1981) ressalta que na composição dos demonstrativos das formas latinas, já se manifesta a tendência para o reforço através de idem e ipse, que representam a junção de is com as partículas dem e pse. Observa ela que desde o latim, de duas maneiras se realiza o reforço: por partículas epidíticas (do lat. ecce) e por acumulação de demonstrativos com ipse. As partículas epidíticas encontram-se como reforço na formação dos demonstrativos tanto no sistema do latim literário como, posteriormente, no latim vulgar e nas línguas românicas.

Da mesma forma, nas línguas românicas, a indicação dos valores da identidade e da ênfase, representados em latim por idem e ipse concentram-se em ipse, a que se aglutinam elementos diversos. Na origem dos indicadores dessas duas noções, repete-se o mesmo processo da junção de partículas de reforço a formas latinas. Ou seja, ao processo de junção acrescentam-se dois outros processos: a acumulação de demonstrativos latinos com ipse e a combinação de formas do pronome pessoal.

Salum (1981, p. 90) explica que a partícula met consta de metipse e metipsimu, formas latinas de que procederam a maior parte dos indicadores de identidade e da ênfase, nas línguas românicas. Essa partícula (met) foi reforço do pronome pessoal; ao lado dela ou, em concorrência com ela, usou-se ipse. A soma dos dois tipos de reforço originou expressões como egomet ipse; em seguida, observa-se o deslocamento da partícula para ipse, formando metipse, ou metipsimu22

.

De metipse provém medes (port. antigo)

De metipsium provém o. meesmo (port. ant) e o atual mesmo.

Finalizando, Salum (1981, p. 91) coloca que “o problema do reforço é apenas um dos aspectos de um tema mais amplo - a evolução dos demonstrativos e dos dêiticos, anafóricos e catafóricos a ele relacionados por origem”.

Vale a pena ainda acrescentar, respaldada em Neves (1981), que Ipse entra na formação de mesmo usado junto de substantivos, de pronomes pessoais e demonstrativos, como reforço de identificação. O papel desse pronome ipse era identificar ou pôr em evidência a pessoa designada pelo pronome pessoal. Aparece acompanhando os pronomes pessoais ou substantivos. Semanticamente, ele equivale a “pessoalmente” ou “sozinho”, “por si”.

No português atual, o item mesmo, além de continuar exercendo suas funções habituais de reforço, amplia essa possibilidade para outros contextos de uso.

3.4.3.2 SUA VOCAÇÃO ANAFÓRICA

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O item mesmo em destaque desenvolve outras funções, integrando o complexo sistema de meios referenciais da língua como instrumento de coesão textual e de coerência conceitual.

Como anafórico, uma das suas propriedades é fazer referência dentro do texto. Assim, além de servir para retomar porções de sentido (anáfora), pode também antecipar porções de sentido (catáfora), fazendo progredir o texto. O item mesmo em pauta desenvolve essa operação quando usado como substantivo (nome) na frase. Sua natureza anafórica facilita essa operação, tendo o privilegio de resumir e recuperar proposições inteiras, evitando a repetição de informações.

Nos estudos linguísticos sobre a referência, esse fenômeno é entendido como nomeação.

A nomeação é interpretada por Apothéloz & Chanetcomo:

[..] a operação discursiva que consiste em referir-se, por meio de um sintagma nominal, a um processo ou estado que foi anteriormente expresso por uma proposição. As nomeações podem ser operadas por um pronome demonstrativo. A principal característica das nomeações reside no fato de elas darem um estatuto de referente, ou de objeto de discurso, a um conjunto de informações que antes não tinham esse estatuto discursivo. Na medida em que se trata das mesmas informações, as nomeações se parecem com a correferência; mas delas se distinguem pelo fato de que seu objeto não foi previamente estabelecido nem individuado por meio de uma expressão referencial. (APOTHÉLOZ e CHANET 2003, p. 132-134)

Um aspecto reconhecido das nomeações anafóricas é seu caráter resumidor. Mas deve- se considerar como nomeações apenas os casos em que o anafórico designa não uma enunciação única, mas uma seqüência mais ou menos longa de enunciações. A atualização discursiva de mesmo como substantivo tem conotações estilísticas, afetiva, e também, de gosto popular, porém, do ponto de vista funcional, pode ser interpretada como um fenômeno de mudança linguística por gramaticalização. Na linguística funcional esse fenômeno tem sido discutido sobre o prisma da reanálise.

Segundo Gonçalves et al,

a reanálise permite a criação de novas formas gramaticais no eixo sintagmático, à medida que, gradualmente, alternam-se as fronteiras de constituintes em uma expressão, levando uma forma a ser reanalisada como pertencente a uma categoria diferente da original. (GONÇALVES et al 2007, p.50)

Um dos principais tipos de reanálise presentes na gramaticalização é a eliminação de fronteiras entre duas ou mais formas morfológicas no processo de desenvolvimento de novas regras gramaticais. Deve-se atentar, porém, que a reanálise é diferente da gramaticalização, pois, nem sempre, ao se instanciar a reanálise, uma categoria lexical muda para gramatical ou amplia uma condição gramatical preexistente.

Como anafórico, uma das suas particularidades é estabelecer comparações dentro do texto. Na próxima seção, trato desse assunto, destacando, inclusive, sua força argumentativa no discurso.