Em meio às discussões sobre o corte etário para o ingresso no Ensino Fundamental no Paraná torna-se importante registrar a existência de Lei Estadual específica sobre o ingresso inicial no Ensino Fundamental, desde a década de 1990.
Em 1990, a Assembléia Legislativa do Paraná aprovou a Lei 9346/1990, facultando o ingresso no 1º grau para crianças que completassem 6 anos até o final do ano da matrícula, nos seguintes termos:
Art. 1º É facultada a matrícula escolar, antecipada, em classe de 1ª série regular de 1º grau, de crianças que vierem a completar 06 (seis) anos de idade até o final do ano letivo de matrícula.
Art. 2º A efetivação da matricula exigirá:
I - Autorização do estabelecimento de onde a criança freqüentou o último ano letivo, fundada em relatório técnico expedido por profissionais próprios, das áreas de pedagogia, psicologia, orientação e supervisão escolar, que abranja, também, o laudo do professor que tenha trabalhado com a criança nos últimos seis meses, em classe de pré-escola, de forma a comprovar as suas aptidões para ingresso no ensino escolar;
II - Laudo médico fornecido por neuro-pediatra, que ateste o amadurecimento neurológico da criança, exigível para acompanhar as atividades propostas.
Essa Lei foi objeto de Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 682) movida pelo Poder Executivo do Estado do Paraná junto ao Supremo Tribunal Federal - STF, com os argumentos de que a mesma feria os seguintes princípios constitucionais: a repartição de competência legislativa, segundo a qual é competência privativa da União legislar sobre “Diretrizes e Bases da Educação Nacional” (art. 22, inciso XXIV da Constituição Federal) e que a Lei 5692/71 já estabelecia o ingresso no ensino fundamental aos 7 anos de idade.
No entanto, apesar de ter sido distribuída no ano de 1992, a mesma obteve Resultado Final no ano de 2007, sendo julgada improcedente conforme Acórdão publicado no Diário da Justiça em 11 de maio de 2007:
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. LEI DO ESTADO DO PARANÁ 9.346/1990. MATRÍCULA ESCOLAR ANTECIPADA. ART. 24, IX E PARÁGRAFO 2º DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. COMPETÊNCIA CONCORRENTE PARA LEGISLAR SOBRE EDUCAÇÃO.
A lei paranaense 9.346/1990, que faculta a matrícula escolar antecipada de crianças que venham a completar seis anos de idade até o final do ano letivo de matrícula, desde que preenchidos determinados requisitos, cuida de situação excepcional em relação ao que era estabelecido na lei federal sobre o tema à época de sua edição (lei 5.692/1971 revogada pela lei 9.394/1996, esta alterada pela lei 11.274/2006). Atuação do Estado do Paraná no exercício da competência concorrente para legislar sobre educação. Ação direta julgada improcedente.202
Em outras palavras o Acórdão do STF julgou improcedente a ação em razão da competência concorrente para legislar sobre educação a ser exercida por União, Estados e Distrito Federal conforme estabelecido no art. 24, inciso IX da Constituição Federal, e da competência suplementar a ser exercida pelos Estados, conforme previsto no § 2º do mesmo artigo da Carta Magna Brasileira.
No entanto, a questão da idade de ingresso no ensino fundamental no decorrer dos anos 90 e início dos anos 2000 ficou, no âmbito estadual, circunscrita à competência do Conselho Estadual de Educação conforme demonstrado em seção própria. Mas, devido às discussões ocorridas na sociedade no período de implantação do Ensino Fundamental de 9 anos, principalmente após 2006, o assunto adentrou também a Seara Legislativa. A participação do Poder Legislativo no processo de implantação do Ensino Fundamental de 9 anos no Estado do Paraná também contribuiu para o delineamento da questão.
Em 30 de abril de 2007, após decisões judiciais que permitiam a matrícula no ensino fundamental com 5 anos de idade, o Deputado Estadual Luiz Cláudio Romanelli203 – PMDB, na tentativa de resolver os conflitos presentes naquele momento histórico, apresentou à Assembléia Legislativa Projeto de Lei sobre a idade de ingresso no ensino obrigatório. É importante ressaltar que o Projeto de Lei 300/07 apresentado não estabelecia data para o corte etário, pois o vinculava ao início oficial do ano letivo, e este estabelecido pelos Sistemas de Ensino:
Art. 1° Terá direito à matricula no 1º ano do ensino fundamental de 9 anos, a criança que completar 6 anos antes do início oficial das aulas.
Parágrafo Único. O início oficial das aulas será definido pelos respectivos sistemas de ensino.204
202 Cf. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL referente a ADI 682.
203 Líder da Bancada Governista na Assembléia Legislativa do Estado do Paraná.
Podem ser identificados na Justificativa do Projeto de Lei 300/2007 argumentos de ordem normativo-legal, pedagógica e prática (a este último optamos em denominar “argumento financeiro”).
Dentre os argumentos normativo-legais encontram-se a Constituição Federal (art. 208, incisos I e IV), LDB – Lei 9394/96, com as alterações dadas pelas Leis 11.224/05 e 11.274/06), além de Pareceres dos Conselhos Nacional e Estadual de Educação Entre os argumentos apresentados pelo autor do Projeto encontram-se os dispositivos legais, as orientações dos Conselhos Nacional e Estadual de Educação. No entanto, há implicitamente crítica em relação à arbitrariedade em relação ao corte etário e à centralidade assumida por esse corte nas discussões do Ensino Fundamental de 9 anos, destacando-se o direito da criança à educação infantil.
Há que se concordar que a delimitação de um corte temporal para o ingresso por vezes se torna arbitrário, já que decorre de previsão legal, acarretando independentemente da data estipulada, que algumas crianças serão incluídas e outras não. O ponto fulcral da questão em voga é que a criança de 5 anos inserida no ensino fundamental de 9 anos será privada do direito à educação infantil, etapa de ensino voltada a atender às especificidades da infância de zero a 5 anos.205
Ao exaltar o direito à educação infantil, podem-se utilizar argumentos de ordem pedagógica, pois as duas etapas, educação infantil e ensino fundamental, têm objetivos e características diferenciadas, necessitando proposta pedagógica adequada a cada oferta.
ao ampliar o ensino fundamental para 9 anos, não cabe à escola somente agregar a última etapa da educação infantil ao ensino fundamental, faz-se necessário reorganizar todos os anos deste nível de ensino, lembrando que esse processo de elaboração, implementação e avaliação da proposta pedagógica deve compor o cotidiano do coletivo da escola, visando sempre o zelo pela aprendizagem da criança.206
Quanto aos argumentos de ordem financeira, encontram-se: impossibilidade de matrícula imediata das crianças de 5 anos no ensino fundamental, com 9 anos de duração, falta de professores para atender a nova demanda, falta de espaço físico, impossibilidade de prover de imediato o correspondente acréscimo de transporte escolar, falta de previsão da des- pesa correspondente na Lei Orçamentária para 2007.
205 Cf. Justificativa do Projeto de Lei nº 300/2007. 206 Op. cit.
Tendo o Projeto 300/2007 sido encaminhado à Comissão de Constituição e Justiça, o mesmo obteve Parecer favorável em 05 de junho de 2007, tendo como relator o Deputado Professor Luizão – PT. No entanto, na Comissão de Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia, o mesmo Projeto teve parecer contrário em 31 de março de 2008. Ressalte-se que a presidência na Comissão de Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia era exercida pelo Deputado Péricles de Holleben Mello – PT, o qual estava intimamente vinculado à questão sobre a idade de ingresso em razão de ter sido prefeito do município de Ponta Grossa no período de 2001 – 2004, e na seqüência apresentou emenda modificativa ao referido projeto.
O Projeto 300/2007 seguiu para discussão em Plenário nos dias 13 e 14 de outubro de 2008. Em 1ª discussão, ocorrida em 13 de outubro, o referido Projeto foi aprovado. No entanto ao seguir para a 2ª discussão no dia 14 do mesmo mês, o mesmo foi retirado da discussão por requerimento do Deputado Péricles de Holleben Mello – PT. Houve, ainda, retirada do Projeto da Pauta de discussões por mais quatro seções seguidas, por requerimento do mesmo deputado.
Nesse ínterim o Deputado Péricles de Holleben Mello – PT apresentou Emenda Modificativa ao Projeto Inicial, propondo a seguinte redação:
Art 1º - Terá direito à matricula no 1º ano do Ensino Fundamental de nove anos, a criança que completar seis anos até o dia 31 de Dezembro.207
Para justificar a Emenda Modificativa, assim se posicionou o Deputado:
O ensino fundamental é um direito público subjetivo que garante à criança uma vaga na escola, já o ensino infantil, destinado para crianças de até cinco anos, não detém dessa vantagem. Por isso, é importante defender políticas públicas para dar aos alunos que completam seis anos durante o ano letivo em curso, condições de estarem na sala de aula.208
Esse posicionamento demonstra preocupação com as crianças que não tinham acesso à escola. Mas, tal posicionamento, além da defesa do direito das crianças à educação, está em consonância com as ações por ele implementadas quando exerceu mandato executivo no Município de Ponta Grossa, quando houve redução da oferta da educação infantil e a pré- escola foi agregada ao ensino fundamental, conforme será analisado no capítulo V deste
207 Cf. Emenda Modificativa ao Projeto de Lei 300/2007. 208 Op. cit.
trabalho. Ainda, na mesma justificativa há a indicação da realização de Audiências Públicas, realizadas em 2007 na Assembléia Legislativa, para discutir a temática “na busca de uma solução de consenso sobre o corte etário e de uma proposta pedagógica ideal para os alunos”.209
As Audiências citadas na Justificativa da Emenda ao Projeto 300/2007 foram realizadas em 26 de junho e 04 de setembro de 2007. Na primeira Audiência Pública, realizada em 26 de junho de 2007, participaram dos debates: José Lemos – APP Sindicato; Clayton Maranhão – Promotor de Justiça; Jacir Bonbonatto Machado – representante da Associação dos Municípios do Paraná; Romeu Gomes de Miranda – presidente do CEE; Carlos Sanches – presidente da UNDIME – PR e Leandra Amaral – Coordenadora da Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental da SEED – PR. Em linhas gerais a Audiência ocorreu com a apresentação do posicionamento de cada segmento representado, os quais são apresentados no quadro a seguir:
QUADRO 11 - POSICIONAMENTOS SOBRE O ENSINO FUNDAMENTAL DE 9 ANOS
NO PARANÁ AUDÊNCIA PÚBLICA – 26/06/07
SEGMENTO/REPRESENTAÇÃO SÍNTESE DO POSICIONAMENTO
Péricles de Holleben Mello – Deputado Estadual - PT
Eliminação do Corte Etário para incluir mais crianças no ensino fundamental
Clayton Maranhão – Ministério Público Fundamental de 9 anos em alguns municípios Problemas para a implantação do Ensino Necessidade de intervenção legislativa;
Defesa do corte etário paulista (31 de dezembro210)
Jacir Bonbonatto Machado – representante da Associação dos Municípios do Paraná
Necessidade de incluir a discussão financeira, principalmente sobre a capacidade de financiamento para o atendimento na educação
infantil.
Romeu Gomes de Miranda – presidente do CEE
Proteção à infância211
Defesa do Corte Etário aos 6 aos de idade.
Carlos Sanches – presidente da UNDIME – PR Preocupação com a transformação das escolas em “depósitos de crianças”;
Proposta de amplo debate sobre a questão;
Arleandra Amaral – Coordenadora da Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental
da SEED – PR
Ênfase nas questões pedagógicas da infância; Ensino Fundamental de 9 anos é para a criança permanecer mais tempo na escola para melhorar a aprendizagem e não para antecipar seu fracasso.
Defesa do Corte Etário aos 6 anos de idade.
Fonte: Audiência Pública sobre Ensino Fundamental de 9 anos, 26/06/07.
Tendo em vista os inúmeros e divergentes posicionamentos apresentados, o Presidente da Comissão de Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia comprometeu-
210 Na época vigorava a Deliberação nº 61/2006 do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, que em seu
artigo 5º previa: “Terão direito à matrícula no 1º ano do Ensino Fundamental, as crianças com 06 (seis) anos completados até 31 de dezembro do ano anterior ao ingresso.”.
211 Segundo o Presidente do Conselho Estadual de Educação do Paraná, não considerar a infância e a educação
se em envidar esforços para a ampliação do debate, visando alcançar um consenso sobre a questão.
Em 04 de setembro de 2007 ocorreu outra Audiência Pública, da qual participaram: Carlos Sanches – Secretário de Educação do Município de Castro e presidente da UNDIME – PR, Péricles de Holleben Mello – Deputado Estadual - PT, Moacir Fadel – prefeito do município de Castro, Esméria de Lourdes Saveli – ex Secretária de Educação do Município de Ponta Grossa na gestão 2001 – 2004212; Gisele de Souza – Movimento Interfóruns da Educação Infantil / Universidade Federal do Paraná, Arnaldo Vicente – representante do CEE/PR, Alaíde M. Pinto Digiovanni - representante da SEED/PR e Padre Walter – prefeito do Município de Apucarana. Os posicionamentos apresentados pelos participantes dessa Audiência Pública são apresentados a seguir:
212 É importante esclarecer que Esméria de Lourdes Saveli, exerceu o cargo de Secretária Municipal da Educação
em Ponta Grossa no período 2001- 2004, quando Péricles de Holleben Mello - PT foi Prefeito. Ainda, naquele período houve a implantação dos Ciclos de Aprendizagem com a ampliação do Ensino Fundamental de forma desigual, conforme exposto no capítulo 2.
QUADRO 12 - POSICIONAMENTOS SOBRE O ENSINO FUNDAMENTAL DE 9 ANOS
NO PARANÁ AUDÊNCIA PÚBLICA – 04/09/07
SEGMENTO/REPRESENTAÇÃO213 SÍNTESE DO POSICIONAMENTO
Péricles de Holleben Mello – Deputado Estadual Eliminação do Corte Etário para incluir mais crianças no ensino fundamental.
Moacir Fadel – prefeito do Município de Castro Sem recursos financeiros fica impossibilitada a implantação do Ensino Fundamental de 9 anos.
Esméria de Loudes Saveli - ex Secretária de Educação do Município de Ponta Grossa na
gestão 2001 – 2004
Defesa da forma de implantação ocorrida no município de Ponta Grossa no ano de 2001; Ênfase nas questões políticas, sem preocupação
com as pedagógicas.
Defesa da eliminação do corte etário;
Gisele de Souza – Movimento Interfóruns da Educação Infantil / UFPR
Defesa do direito à educação infantil; Necessidade de discutir a etapa respectiva à
educação infantil.
Bobagem acadêmica dizer que incluir o pré no Ensino Fundamental é garantir cidadania.
Carlos Sanches – presidente da UNDIME – PR Crítica ao fim do corte etário. Preocupação com as questões pedagógicas;
Arnaldo Vicente – representante do CEE/PR Defesa do corte etário aos 6 anos de idade; Alayde M Pinto Digiovanni - SEED Defesa do corte etário aos 6 anos de idade;
Fonte: Audiência Pública sobre Ensino Fundamental de 9 anos, 04/09/07, conforme anotações da Autora.
A partir dos posicionamentos apresentados nas Audiências Públicas realizadas pela Comissão de Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia da Assembléia Legislativa do Estado do Paraná é possível identificar os interesses e preocupações (em relação ao corte etário) centrais de cada segmento. Tais interesses podem ser classificados em: políticos, financeiros e pedagógicos. Com base nesses interesses podemos identificar a defesa assumida em relação ao corte etário.
213 Não foi incluído o posicionamento do Prefeito do Município de Apucarana, devido ao fato de o mesmo não
QUADRO 13 - COMPROMISSOS EVIDENCIADOS NAS AUDIÊNCIAS PÚBLICAS REALIZADAS EM 26 DE JUNHO E 04 DE SETEMBRO DE 2007
SEGMENTO INTERESSES DEFESA ASSUMIDA
POLÍTICO FINANCEIRO PEDAGÓGICO
Legislador X Eliminação do corte etário
Municípios X X Indefinição
CEE X Manutenção do corte etário
SEED X Manutenção do corte etário
Quadro organizado pela autora a partir da análise das Audiências Públicas realizadas pela Assembléia Legislativa do Paraná sobre o Ensino Fundamental de 9 anos.
Tendo em vista o resultado das Audiências Públicas realizadas, a Proposta de Emenda Modificativa não parece se justificar, visto que os debates se centraram na manutenção do corte etário. Note-se, ainda, a ausência do autor do Projeto original nas audiências realizadas. Mas, os verdadeiros interesses de modificações/adequações legislativas nem sempre estão explícitos e o Projeto de Lei 300/2007 foi encaminhado para a votação em plenário no último dia legislativo do exercício de 2008.
Após conturbada discussão de projetos polêmicos, e tendo adentrado a madrugada, o Projeto de Lei 300/2007 foi à votação do Plenário, sendo aprovado, com a Emenda Modificativa.
Assim, a Emenda aprovada em 17 de dezembro de 2009 foi sancionada, transformando-se em Lei Estadual no início do ano seguinte, em 19 de fevereiro de 2009, sob o nº 16.047. Teoricamente, essa lei pôs fim às discussões sobre o corte etário, mas no âmbito prático as questões permanecem latentes, principalmente por ter em seu âmago disputas políticas, as quais ainda precisarão de um longo tempo para se dissipar e colocar o direito à educação como central no debate.
4 A EDUCAÇÃO NA POLÍTICA EDUCACIONAL BRASILEIRA RECENTE: