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İKİNCİ BÖLÜM: NUR AYETİ’NDE YER ALAN SEMBOLİK KAVRAMLARIN VE MİSBÂHU’L-ESRÂR’IN ANALİZİ

2. Misbâhu’l-Esrâr’da İlimler Tasnifi

A chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder em 2003 é apontada como um marco na história política brasileira. Esse marco não significa apenas a vitória de um ex- retirante nordestino, que vence as mais árduas dificuldades que a materialidade de sua existência lhe impôs para chegar ao mais alto degrau da política nacional, mas, significa a clivagem da hegemonia política existente através da vitória de um partido nascido do movimento operário de esquerda. O significado social e político dessa mudança era, naquele momento histórico, incomensurável.

Todavia, é preciso entender que a vitória petista sobre a máquina tucana em 2002 só foi possível devido a uma conjuntura social, política e econômica que deu sustentação ao discurso alternativo de “mudança”nos encaminhamentos políticos do período, além de um aparato de marketing eleitoral que conseguiu fortalecer a idéia de “Lulinha paz e amor”, “despetizando” o então candidato do Partido dos Trabalhadores, conforme analisou Francisco Oliveira.

Não sem razão, o marqueteiro Duda Mendonça passou a ser o responsável pela performance de Lula num quadro em que as relações políticas haviam sido rompidas e revelavam-se ineficazes. Mas por que o êxito do marqueteiro, onde seus equivalentes sucumbiram com seus clientes? Exatamente porque os outros marqueteiros procuravam ainda “qualidades”em seus patrões, segundo códigos ainda de representatividade: Duda Mendonça resolveu ressalvar em Lula o que era inespecífico, vale dizer, o “Lulinha Paz e Amor”, procedendo à operação de “despetizar”o candidato. Ou, pegando carona em Musil, tratava-se de apregoar a qualidade de “um homem sem qualidades”. Tudo que ele havia declarado e representado antes já não tinha valor, e a campanha deveria ser livre, para prometer o céu, a terra e os peixinhos do mar. Numa versão diferente, era como repetir FHC quase uma década antes: “esqueçam tudo o que eu fui”.257

A política implantada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso encontrou um solo fértil para as teses desenvolvidas, pois representou coesão entre os interesses da burguesia brasileira, os quais estavam muito mais afetos à direita do que à esquerda derrotada na eleição presidencial de 1994. Os oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso possibilitou o fortalecimento dos interesses da alta burguesia através da cooptação da sociedade em geral para as teses defendidas. As ações empreendidas em acordo com a sociedade de forma geral possibilitaram, se não a submissão, a exposição da nação brasileira aos ditames da globalização do capital, através de intenso processo de privatizações, a retirada sutil do Estado dos serviços sociais essenciais, além do percurso traçado em conformidade com as orientações dos organismos internacionais vinculados ao capital financeiro.

Mesmo com o apoio de parte da sociedade, ao final do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso havia um grande número de inconformados com os caminhos percorridos. Havia grupos que se posicionavam contrários às ações implementadas no período, os quais defendiam uma mudança necessária para a retomada do desenvolvimento de forma não vinculada ao espectro ideológico neoliberal. Assim, havia um grupo formado por adeptos de idéias de mudanças (não necessariamente em defesa de um partido de esquerda), além de um trabalho político partidário extremado em defesa da esquerda no poder. A união desses grupos, divergentes na essência sobre os encaminhamentos necessários para uma reformulação da política em curso, mas, de certa forma, unidos pela defesa de alteração da política do governo federal, possibilitou que um candidato que tentava a eleição presidencial pela quarta vez, pautado em um discurso popular com história de luta na esquerda brasileira, pudesse chegar finalmente ao poder com o apoio de grupos antagônicos. Essa união e o

trabalho articulado do consultor político Duda Mendonça facilitaram a empreitada pela conquista do mais alto cargo governamental da política nacional. Dessa forma,

Lula conseguiu, a partir de seu patamar histórico, imantar os votos “órfãos”, compondo uma sólida maioria eleitoral no segundo turno das eleições, com a adesão dos amplos votos anti-FHC e um constrangido apoio dos descartados no primeiro turno.258

Deixando de lado os acordos realizados e o processo eleitoral que culminou com a vitória de Lula à presidência da República, é preciso considerar que, ao assumir o governo, o novo presidente trouxe consigo a representação de uma luta histórica contra a ditadura militar e em defesa dos interesses da população trabalhadora e oprimida no contexto social e econômico brasileiro. Por isso, sua entrada no poder foi acompanhada de expectativas referentes às ações e decisões que norteariam seu mandato. Essas expectativas, de um lado se justificavam pelos acordos realizados no período eleitoral, de outro pelo controle exercido pelo “núcleo duro”259 do PT e ainda pela influência exercida por intelectuais que apoiaram a candidatura de Lula à Presidência da República.

A área específica da educação foi, historicamente, central nas discussões e produções dos intelectuais vinculados ao PT, os quais defendiam uma política educacional que superasse o descaso governamental pela área e possibilitasse a emancipação popular em termos de conhecimentos e qualificação de recursos humanos para promover o desenvolvimento necessário para o país. 260

O PT tem claro, no entanto, que a modificação do atual quadro da educação brasileira, de modo a colocá-la a serviço dos interesses e necessidades dos trabalhadores, implica tarefas imediatas e tarefas a longo prazo. Não temos nem poderíamos ter, em função de nossa proposta, um modelo acabado de educação e de sistema educacional. Qual educação que melhor responde aos anseios da população trabalhadora é uma resposta que deve ser buscada na prática educacional, com a participação ativa de especialistas e trabalhadores na formulação de suas diretrizes, através de Conselhos Populares.261

258 Op. Cit. p. 26 – 27.

259 Segundo Francisco OLIVEIRA, o núcleo duro do governo recém iniciado era exercido por José Dirceu,

Antonio Palocci e Gushiken, aos quais se somava, ainda, o presidente do Banco Central. (OLIVEIRA, 2006).

260 Para aprofundar as defesas do Partido dos Trabalhadores para a área educacional a leitura do livro

referenciado oferece importantes subsídios: DAMASCENO, Alberto et. al. A educação como ato político partidário. 2 ed. São Paulo: Cortez. 1989.

261 SILVA, Luiz Inácio Lula da. Um sistema educacional a serviço dos interesses e necessidades da classe

trabalhadora. In: DAMASCENO, Alberto et. al. A educação como ato político partidário. 2 ed. São Paulo: Cortez. 1989. p. 60.

A política educacional do governo de Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro mandato foi aquela que demonstrava maiores sinais de fragilidade, pois, diferentemente do governo de Fernando Henrique Cardoso, que teve Paulo Renato de Souza à frente do Ministério por 8 anos, o que contribuiu para uma articulação e seqüência de ações em prol de um objetivo bem delineado, o primeiro mandato de Lula teve três ministros respondendo pelo Ministério da Educação, ocorrendo uma desarticulação e descontinuidade em relação às propostas a serem implantadas. A articulação e continuidade de ações para a educação só ocorreu de maneira mais significativa após a nomeação de Fernando Haddad para o Ministério em 2005262. As ações para a educação básica se centram, atualmente, no aprofundamento da avaliação, com a criação de um novo índice para mensurar a qualidade da educação – o IDEB, com a criação do FUNDEB em substituição do FUNDEF e, ainda, com o Plano de Desenvolvimento da Educação – PDE, devidamente articulado com o “Compromisso Todos pela Educação”263.

O início do governo Lula em 2003, conforme apontado anteriormente, foi marcado por um misto de esperança e expectativa:

A política educacional para um novo Brasil [...] pode ser construída de forma lenta, mas nunca regredindo nas conquistas historicamente acumuladas. A vitória de Lula e, junto com ele, dos movimentos sociais e populares que com suas lutas a fizeram possível, nos obrigam a não desistir, a não abandonar a vontade transformadora que deve alimentar a imperiosa reconstrução do espaço público e da democracia efetiva, numa sociedade marcada pelas injustiças, pela exclusão e pela miséria das grandes maiorias.264

O Partido dos Trabalhadores, ao longo de sua trajetória, teve como pilares de sustentação intelectuais, igreja católica e sindicatos. Por isso, a trajetória política e eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva sempre teve consigo tais segmentos. Tanto que o texto base do

262 Antes de ser nomeado Ministro da Educação, em julho de 2005, Fernando Haddad ocupava o cargo de

Secretário Executivo do Ministério da Educação. Fernando Haddad é bacharel em direito, mestre em economia e doutor em filosofia (todos os títulos pela Universidade de São Paulo). Professor de Teoria Política Contemporânea no Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais da Universidade de São Paulo. Exerceu, ainda, as seguintes funções: Analista de Investimento do Unibanco; Consultor da Fundação de Pesquisas Econômicas (Fipe) e Chefe de Gabinete da Secretaria de Finanças e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura do Município de São Paulo.

263 O “Compromisso Todos pela Educação” foi apresentado em 06 de setembro de 2006, como um movimento

de iniciativa da sociedade civil e conclamava a participação de todos os setores sociais. No entanto, esse movimento, se constituiu, de fato, como um aglomerado de grupos empresariais com representantes e patrocínio de entidades como o Grupo Pão de Açúcar, Fundação Itaú-Social, Fundação Bradesco, Instituto Gerdau, DPaschoal, Instituto Itaú Cultural, Faça Parte-Instituto Brasil Voluntário, Instituto Ayrton Senna, Cia. Suzano, Banco ABN-Real, Banco Santander, Instituto Ethos, entre outros. (SAVIANI, 2007, p. 1243)

264 GENTILI, Pablo; Mc COWAN, Tristan. (orgs.). Reinventar a escola pública: política educacional para um

Programa de Governo do Partido dos Trabalhadores para as eleições de 2002, intitulado “Uma Escola do Tamanho do Brasil”, foi escrito por destacados professores e pesquisadores engajados nas lutas populares.

Ao realizar o diagnóstico da Educação Básica Brasileira, o Programa de Governo do Partido dos Trabalhadores “Uma Escola do Tamanho do Brasil” aponta para algumas questões de extrema importância para a análise sobre o processo de ampliação da escolaridade obrigatória e demonstra um compromisso em romper com a realidade existente naquele período. Em síntese, podemos enumerar os seguintes pontos que, a princípio, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva demonstra ter disposição política para alterar.

Em relação à Educação Infantil, o referido documento expressa as seguintes questões:

Municipalização do ensino induzida pelo FUNDEF: preocupação com a educação infantil, pois a concentração de recursos no ensino fundamental impediu que os municípios expandissem o número de vagas em creches e pré-escolas, contrariando a lógica que deve orientar as políticas públicas, além de desconsiderar as necessidades de pais e mães trabalhadores;

Lento reconhecimento da infância como sujeito de direito à educação: entendimento corrente de que o direito à educação começa aos 7 e termina aos 14 anos, o que exclui as crianças de até 6 anos; não incorporação da educação infantil aos avanços da LDB; exclusão da infância das políticas de financiamento (FUNDEF); desmantelamento das redes municipais e estaduais de educação infantil, devido a política de financiamento que priorizou o ensino fundamental; desvalorização dos profissionais da educação infantil; etc.

Em relação ao ensino fundamental o documento expressa o seguinte diagnóstico:

Sacrificar a oferta de educação infantil não assegurou a plena universalização do ensino fundamental: existência de crianças fora da escola e parte do grupo que frequenta a escola não está, necessariamente, na série adequada à sua idade.

As políticas oficiais causaram prejuízos à educação básica, especialmente à de jovens e adultos com pouca ou nenhuma escolaridade e à da população em idade pré-escolar;

Para se contrapor ao diagnóstico apresentado, a Proposta de Governo apresenta propostas e metas. Dentre essas propostas e metas para a educação infantil destacamos:

Estabelecer uma política de financiamento que considere a necessária expansão progressiva do atendimento, com vistas à universalização da educação infantil e o estabelecimento de um valor custo-aluno-qualidade para a creche e pré-escola;

Alcançar, no segundo ano do governo, a universalização da educação infantil para crianças de 6 anos. No dia do seu sexto aniversário, a criança estará automaticamente matriculada na pré-escola;

No quarto ano do governo, todas as crianças que completarem 4 anos de idade estarão automaticamente matriculadas em centros de educação infantil;

Para o ensino fundamental as ações centram-se no combate ao fracasso escolar e implementação de políticas que garantam a permanência dos alunos na escola. Nesse sentido, são previstas as seguintes propostas e metas:

A escola propiciará condições para que, no processo ensino-aprendizagem, seus alunos sintam-se motivados a “aprender a aprender”, tornando mais importante o aprender do que o ensinar;

Participação efetiva da comunidade escolar na elaboração, implementação, efetivação e avaliação do Projeto Político-pedagógico;

Reconhecimento das diferenças existentes entre os alunos, de modo a garantir a todos o acesso à educação de qualidade;

Avaliação contínua e formativa, garantindo a progressão continuada das aprendizagens;

Correção das distorções idade/série/ciclo, ainda presentes no ensino fundamental; Ampliação da jornada escolar para 5 horas diárias, no mínimo;

Acompanhamento sistemático do Programa bolsa-escola, de forma a garantir a permanência dos alunos na escola.

Vê-se que nas propostas do Programa de governo “Uma Escola do Tamanho do Brasil”, não se encontra referência à ampliação da escolaridade obrigatória (ensino fundamental de 8 para 9 anos)265. Todavia, foi no governo Lula, mais especificamente no segundo mandato, que ocorrereram as maiores discussões a respeito da questão, havendo inclusive sanção de Lei específica que ampliou o ensino fundamental de 8 para 9 anos.

No entanto, após Luiz Inácio Lula da Silva assumir a presidência da República, houve a adesão às políticas que antes combatera, sem a autocrítica necessária para a compreensão dos efeitos das ações desenvolvidas para as classes populares, havendo, inclusive, algumas críticas em relação ao distanciamento das bases eleitorais que o elegeram, conforme apontado por vários pesquisadores.

Uma leitura apressada do que foi o primeiro governo Lula (2003 – 2006) nos levaria a dizer que é possível servir a dois senhores, mesmo se assim estivéssemos contrariando a Bíblia. Isso porque, se de um lado sua política econômica favoreceu largamente os interesses do capital financeiro nacional e internacional (garantindo elevada rentabilidade mediante a manutenção de elevadas taxas de juros e viabilizando um lucro bancário recorde) e do agrobusiness, por outro, implementou uma série de programas e iniciativas, direcionada aos segmentos mais pobres da população brasileira e àqueles até então excluídos de algumas políticas. E na compreensão corrente de seus críticos, à esquerda de suas posições, essa possibilidade não seria possível, pois haveria uma total oposição entre essas duas „orientações‟: os programas e as iniciativas do governo são vistos, no máximo, como meramente assistenciais, passíveis de críticas de toda ordem.266

Com a ascensão do PT ao poder federal, sua tendência majoritária realizou um movimento de aproximação com o empresariado, ocorrendo certo distanciamento de suas bases originais. Talvez isso explique, de certo modo, por que o MEC, ao formular o PDE, o tenha feito em interlocução com a referida parcela da sociedade, não com os movimentos dos educadores.267

Quando, finalmente, Lula venceu as eleições de 2002, o país estava de cabeça para baixo. Ao contrário da potência criadora das lutas sociais da década de 1980, o cenário era de estancamento das forças sociais do trabalho, embaralhadas em meio a tanta desertificação social. A eleição que levou Lula ao poder foi, por isso, uma vitória política tardia. Nem o PT, nem o país eram mais os mesmos. O segundo estava desertificado enquanto o primeiro havia se desvertebrado.

Por isso, a política que o governo do PT vem implementando, desde sua primeira hora, é em parte continuidade de seu transformismo e sua conseqüente adequação à ordem e à institucionalidade.Mas, é preciso acrescentar que a intensidade da subordinação e da sujeição ao financismo, ao ideário e à pragmática neoliberais, deixaram estupefatos até seus mais ásperos críticos. Enquanto isso, o tucanato e o Partido da Frente Liberal (PFL) transitaram, da surpresa inicial, ao constatarem que

265 A ampliação do Ensino Fundamental para 9 anos de duração é prevista no Programa de Governo de Fernando

Henrique Cardoso.

266 MARQUES, Rosa Maria; MENDES, Áquila. Servindo a dois senhores: as políticas sociais no governo Lula.

Revista Katális. Florianópolis, v. 10, n. 1, jan/jun. 2007, p. 16.

267

SAVIANI, Dermeval. O Plano de Desenvolvimento da Educação: análise do Projeto do MEC. Educação e Sociedade. Campinas, v. 28, n. 100 especial , out. 2007. p. 1243.

o PT no poder é o antípoda do PT na oposição, para um segundo e atual momento, de escárnio e crucificação.268

Onde está, pois, o centro de gravidade do governo Lula? Surpreendentemente para um governo vertebrado por um partido saído diretamente do movimento sindical, que se autodenominou “dos Trabalhadores” e que efetivamente se estruturou nas forças do trabalho, seu centro de gravidade está diretamente ligado aos processo de financeirização do capitalismo no Brasil.269

Assim, a política efetivada no governo de Luiz Inácio Lula da Silva não rompeu com as políticas anteriores, havendo, inclusive, seu aprofundamento. É preciso ressaltar que a continuidade das propostas anteriormente combatidas pelo Partido dos Trabalhadores deu-se com o apoio da maioria da sociedade. É nesse contexto, de contraditória continuidade, que se situa o processo de ampliação da escolaridade obrigatória.

As ações específicas para a educação básica que direcionaram e interferiram no processo de ampliação do ensino fundamental ocorreram ao final do primeiro e durante o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, através do incentivo da política educacional no âmbito federal, alterações legislativas e orientações oficiais. Tais direcionamentos influenciaram a ocorrência de ações específicas para a ampliação da escolaridade obrigatória em todo o território nacional.

4.3 ENSINO FUNDAMENTAL AOS SEIS AOS DE IDADE: A TRAMITAÇÃO DA LEI

Benzer Belgeler