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De acordo com o artigo 52, X, da Constituição Federal, no controle difuso de constitucionalidade, a decisão emitida pelo Supremo Tribunal Federal que declara a inconstitucionalidade de determinado dispositivo em sede de Recurso Extraordinário tem eficácia erga omnes e efeito vinculante quando o Senado Federal, através de resolução publicada no Diário Oficial, suspende a norma ora declarada inconstitucional.

Hodiernamente, há uma tendência inovadora da doutrina e da jurisprudência de equiparação dos efeitos da decisão do controle difuso às do controle concentrado, ou seja, o efeito da decisão que declara a inconstitucionalidade de determinada norma pelo Supremo no exame de um Recurso Extraordinário não ficaria restrita somente ao caso concreto analisado.

Essa nova tendência reforça a idéia de que o Supremo Tribunal Federal não pode acumular funções de um Tribunal Constitucional e ao mesmo tempo julgar causas cujos efeitos de sua decisão somente repercutirão entre as partes envolvidas, uma vez que a função precípua desse tribunal é justamente a de guarda da Constituição.

Esse entendimento, segundo o ministro Gilmar Ferreira Mendes, “marca

uma evolução no sistema de controle de constitucionalidade brasileiro, que passa a equiparar, ainda que de forma tímida, os efeitos das decisões proferidas nos processos de controle abstrato e concreto”.13

13 MENDES, Gilmar Ferreira, Controle de Constitucionalidade incidental. Disponível em

<http://www.gilmarmendes.com.br./web/gilmarmendes/content/view/id/66>. Acesso em: 4 de novembro de 2008.

49 A abstrativização do controle difuso de constitucionalidade é a busca de uma maior objetivização do Recurso Extraordinário, visto que para tomar decisão em ação que envolva questão constitucional é necessário que o julgador faça um juízo sobre a validade de uma determinada norma que tem por característica a generalidade, não possuindo assim, por natureza, a destinação de regular casos concretos específicos, mas sim aplicar um comando abstrato para um número indefinido de situações.14

Faz-se importante ressaltar, nesse momento, que tanto no controle concentrado, quanto no controle difuso de constitucionalidade, apenas o Plenário do Supremo Tribunal Federal tem competência para proferir decisão que declara a inconstitucionalidade de norma inserida no texto constitucional.

Dessa forma, a questão da adoção da abstrativização do controle difuso surge de uma da dúvida que gira em torno do das decisões referentes à constitucionalidade ou inconstitucionalidade de determinada norma, proferidas em julgamentos de determinados recursos extraordinários pelo Supremo, terem efeitos diversos daquelas proferidas em sede de controle concentrado, uma vez que estas também são analisadas pelo mesmo Plenário julgador.

Tal dúvida advém do entendimento que o Supremo Tribunal Federal é defensor máximo de nossa Constituição, não devendo, portanto, ocupar-se diariamente de um amontoado de questões que só se referem a determinados interesses particulares.

A função do Supremo nos Recursos Extraordinários não deveria ser a de resolver litígios entre as partes, nem a de revisar todos os pronunciamentos das cortes inferiores.

O processo entre as partes trazido à corte via Recurso Extraordinário deve ser visto apenas como pressuposto para uma atividade jurisdicional que transcende os interesses subjetivos.15

Nesse contexto, e segundo as próprias palavras do ministro Gilmar Ferreira Mendes, o que vem ocorrendo é uma verdadeira mutação constitucional, visto que, a partir desse entendimento, o artigo 52, X, da Constituição, que traz em

14 ZAVASCKI, Teori Albino. Eficácia das sentenças na jurisdição constitucional. São Paulo:

Editora Revista dos Tribunais, 2001, pág. 26.

15 ___. Processo e Constituição. Estudos em homenagem a professor José Carlos Barbosa

Moreira. In: DIDIER JR., Fredie. Transformações do Recurso Extraordinário. São Paulo: RT,

50 seu bojo a necessidade da participação do Senado Federal na suspensão da execução da lei declarada inconstitucional, por exemplo, vem sendo interpretado de forma diferente.

É importante salientar a definição de mutação constitucional, que, segundo os ensinamentos do jurista Pedro Lenza, ocorre quando há alterações no significado e sentido interpretativo de um texto constitucional, ou seja, a transformação não está no texto em si, mas na interpretação daquela regra enunciada.16

Segundo essa nova interpretação, o Senado Federal só possuiria o ônus da publicidade, tendo apenas o dever de divulgar a suspensão da execução, no todo ou em parte, de lei declarada inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal.

Essa mudança de postura referente à eficácia geral da decisão emanada de Recurso Extraordinário pode ser vista em recentes julgamentos do Tribunal Maior.

Inicialmente, pode-se destacar o julgamento do HC 82.959, que teve como relator o ministro Gilmar Ferreira Mendes, no qual, além de declarar a inconstitucionalidade do parágrafo 1º do artigo 2º da Lei federal 8.072/90 (Lei dos Crimes Hediondos — vedando a progressão de regime), aplicou o artigo 27 da Lei 9.868/99 (Lei da ADI/ADC), para dar eficácia ex nunc à sua decisão, ao invés do efeito ex tunc, aplicando ao controle difuso de constitucionalidade um instrumento do controle concentrado.

Outro caso, no qual se pode verificar o sentido da abstrativização da decisão proferida em sede de Recurso Extraordinário, ocorreu no julgamento pelo STF do RE 197.917, no qual o Supremo interpretou a cláusula de proporcionalidade prevista no inciso IV do artigo 29 da Constituição, que cuida da fixação do número de vereadores em cada município.

Tal decisão, que deveria possuir apenas eficácia inter partes, foi utilizada pelo TSE como base para a Resolução 21.702/2004, a qual foi alvo de duas ações diretas de inconstitucionalidade (3.345 e 3.365, rel. min. Celso de Mello) que foram de plano rechaçadas, sob o argumento de ser o Supremo Tribunal Federal o

16MENDES, Anderson de Moraes. A abstrativização do controle de constitucionalidade concreto.

Disponível em: <http://www.lfg.com.br/public_html/article.php?story=20080530104048994>. Acesso em: 6 de novembro de 2008.

51 guardião constitucional máximo e diante do princípio da força normativa da Constituição.

Nesse ínterim, é importante destacar novamente que a objetivização das decisões proferidas em sede de Recurso Extraordinário visam a não proliferação de milhares de recursos que, a cada dia, ingressam no Supremo, muitos deles versando sobre as mesmas questões e usando o tribunal, que deve ter uma função precipuamente constitucional, apenas como mais uma instância de análise processual.

Esse novo entendimento é, também, dentro do controle de constitucionalidade no Brasil, uma nova forma de enxergar uma verdadeira preocupação no que concerne à guarda da Constituição, vislumbrando assim, uma maior efetividade e universalidade das normas constitucionais.

5.5 A importância da Repercussão Geral como instituto que objetiva firmar o

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