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2.2.1 Princípio da confiança

Outra questão de bastante relevo para a teoria da imputação objetiva é o princípio da confiança, pelo qual cada indivíduo que possui um papel social deve agir de acordo com o mesmo, sendo lícito esperar igual comportamento de um terceiro.

Assim, aquele que se encontra inserido em uma prática danosa, a qual surgiu unicamente pelo descumprimento do dever de cuidado esperado de um terceiro, não pratica crime, sendo atípica a sua conduta pela aplicação do princípio da confiança.

Por oportuno, é de bom alvitre mencionar os casos específicos descritos na doutrina de Günther Jakobs, que, por este princípio, tornam-se condutas não- imputáveis:

Jakobs extrai desse princípio duas configurações básicas da não- imputação. A primeira refere-se ao indivíduo ‘A’, que engendra fato aprioristicamente inócuo, tornado depois danoso porque o sucessor ‘B’ não observou seus deveres na relação social correspondente. A segunda atine ao indivíduo ‘A’, que se insere em relação social previamente disposta pelo antecessor ‘B’, confiando em que não causará dano algum, se nela interegir com plena observância de seu próprio rol. Em ambos os casos, ‘A’ não responde pelas expectativas que ‘B’ defraudou, porque podia confiar em que ‘B’ agiria conforme seu rol, resguardando a normalidade das relações. (FELICIANO, 2005, p.101-102).

ϱϳ Entretanto, é de bom alvitre mencionar que tal princípio não é aplicado de maneira absoluta, sendo mais utilizado em danos no trânsito, em danos em trabalhos de equipe e na realização de conduta criminosa por parte de terceiro, a qual, sendo dolosa ou culposa, gera a responsabilidade apenas do próprio terceiro, como acentua Damásio E. de Jesus (2002a). Deste modo, torna-se fácil inferir que a aplicação do princípio da confiança, por não ser absoluta, possui certas limitações. Assim, tal princípio não pode ser invocado, dentre outras circunstâncias, nas seguintes situações:

[...] quando existem, à disposição do sujeito, elementos de convicção inequívocos a demonstrar que o terceiro defraudou expectativas ou se conduziu irregularmente. (FELICIANO, 2005, p.107).

[...]

Nas atividades que não transigem com deficiências comunicativas (v.g., medicina, engenharia e arquitetura), os resultados danosos a que deu causa o auxiliar são imputáveis ao interlocutor subordinante (médico, engenheiro, arquiteto), se o mesmo não se certifica que suas instruções foram corretamente apreendidas pelos interlocutores subordinados (enfermeiros, mestres de obras, trabalhadores). Dado um tal contexto, o princípio da confiança não beneficia o interlocutor subordinante que descurou da purgação de seus canais de comunicação. (FELICIANO, 2005, p.109-110).

Por fim, ainda sobre este tema, cumpre-nos citar, mais uma vez, as bem escolhidas palavras do doutrinador Guilherme Guimarães Feliciano (2005, p.106), que ao tratar do princípio da confiança, garante-o bases constitucionais, nos seguintes termos:

Impende admitir, pelo exposto, que o princípio da confiança não é mera criação doutrinal, mas uma emanação natural e necessária do pressuposto maior da legitimidade do Estado Democrático de Direito, instrumentalizado para humanizar a distribuição da justiça penal. Conseqüentemente, fiar-se em que os demais atores sociais não defraudarão expectativas sociais e eximir-se, desse modo, da imputação penal pelo fato alheio é, mais que um critério objetivo de subsunção, uma garantia liberal para o réu, implícita à maneira do que dispõe o par. 2º do art. 5º da nossa Carta. (grifo do autor)

2.2.2 Princípio da proibição de regresso

Ao tratarmos desta questão, logo nos vem à mente a teoria do nexo de causalidade, posto que a proibição de regresso, ou a proibição do regressus ad infinitum, é um princípio limitador do nexo causal, na medida em que, mesmo diante do caráter absoluto deste dogma, o qual não permite interrupções, evita que se confira relevância a ações anteriores praticadas com total ausência de dolo, ou relevância típica, em relação ao evento danoso.

ϱϴ Trazendo tal princípio para o âmbito da teoria da imputação objetiva, ao mesmo é conferida igual tarefa. Contudo, dentro da mencionada teoria, não se trata de aferir se a conduta anterior de um indivíduo é desprovida de dolo ou de relevância típica, mas, sim, em constatar que a conduta anterior é insuficiente para a eclosão de um resultado danoso, sendo também a ela inaplicável a teoria da participação ou da co- autoria.

Isto ocorre porque o relacionamento daquele que pratica a primeira conduta, como vender uma arma de acordo com as normas legais, com aquele que realiza uma ação criminosa, como, por exemplo, praticar um homicídio, é uma relação lícita. O risco gerado pela conduta do vendedor é permitido, é tolerado pela sociedade, de modo que à sua conduta não pode ser creditada qualquer responsabilidade penal, em relação ao crime praticado pelo comprador da arma. Assim, a conduta antecedente é atípica.

Entretanto, esta atipicidade persiste apenas se a mencionada conduta restringe-se, única e exclusivamente, a uma prática normal da vida, a um comportamento tolerado, desprovido de qualquer especialidade.

Por outro lado, se a conduta antecedente não guarda em si os padrões de comportamento aceitos socialmente, e, em giro diverso, soma-se de maneira específica ao comportamento do real agente, há imputação objetiva também na conduta antecedente. Tal situação é vislumbrada no seguinte exemplo fornecido pelo doutrinador Damásio E. de Jesus (2002a, p.52):

Suponha-se que um comerciante venda uma camioneta a um terrorista, que a utiliza na prática de um atentado. Responde pelo crime a título de participação? Não, salvo se, abandonando a atividade estereotipada de vendedor (ação standart), tenha acondicionado o veículo com um recurso técnico especial, capaz de assegurar a eficácia da prática delituosa, como ‘envenenando’ o motor. (grifo do autor)

Neste caso, o vendedor não se restringe a uma prática corriqueira, mas, de outro modo, efetua serviço específico ao criminoso, com o fim de auxiliá-lo na sua prática delituosa, o que o faz também responder pelo crime praticado por este último.

Benzer Belgeler