Características Sócio-Econômicas e Educacionais
O Brasil e a Itália apresentam diferenças significativas no que se refere à extensão territorial, população total, densidade demográfica, Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, desenvolvimento econômico, distribuição de renda, gastos públicos com educação. Por acreditarmos que estes aspectos influenciam diretamente no processo de escolarização da população de um país, expomos abaixo uma tabela com dados referentes a tais indicadores que poderão contextualizar as reflexões acerca de cada país.
TABELA 1 – Características geográficas, demográficas, econômicas, educacionais e sociais do Brasil e da Itália em 2009.
Indicadores Brasil Itália
Extensão Territorial (km2) 8.514.876,599 301.268,000 População (hab) 193.733.795 59.870.123 Dados
geográficos e
demográficos Densidade Demográfica (hab/ km2) 22 193 Produto Interno Bruto – PIB (US$) 1.595.497.752,838 2.303.058.798,157 Dados
econômicos PIB per capita (US$) 8.136 38.047
Gastos públicos com Educação (%PIB) 4,1 4,9 Matrícula no Ensino Obrigatório (%) 87,2 91,8 Dados
Educacionais
População alfabetizada (% acima de 15 anos) 90,0 98,9 Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) 0,813 0,951 Dados sociais
Classificação por IDH (em 182 países) 75 18
Fontes: Organização das Nações Unidas (ONU); Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO); Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP); e Istituto Nazionale di Statistica (ISTAT).
Os dados indicam que o território brasileiro é, aproximadamente, vinte e oito vezes maior que o da Itália. Mesmo que no Brasil haja três vezes o número de habitantes da Itália, ele apresenta uma densidade demográfica de 22 hab/ km2, enquanto que a Itália apresenta 193 hab/ km2.
O Produto Interno Bruto per capita do cidadão italiano é quase seis vezes maior que a do cidadão brasileiro e, consequentemente, isso gera uma maior disponibilidade para o financiamento nos diversos setores da sociedade, como o da educação, se comparado com o Brasil. Nota-se isso, observando a diferença entre as taxas de matrícula e de alfabetização entre os países. Por fim, e considerando os dados apresentados, a Itália apresenta um maior IDH que o Brasil, sendo o 18º país dentre os com maior nível de
desenvolvimento do mundo, enquanto que o nosso país coloca-se na 75ª posição dentre 182 países, colocando-se dentre os países com nível médio de desenvolvimento.
Por fim, acreditamos ser necessária a apresentação sobre a organização do sistema educacional dos dois países, considerando que é nesse contexto que a Educação Especial se constitui (Figura 1).
FIGURA 1 – Organização atual dos sistemas educacionais do Brasil e da Itália, por idade.
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 BRASIL
ITÁLIA
Ensino Obrigatório
ENSINO FUNDAMENTAL ENSINO MÉDIO EDUCAÇÃO SUPERIOR CRECHE PRÉ‐ESCOLA UNIVERSITÀ FORMAZIONE PROFESSIONALE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL ASILO NIDO SCUOLA DELL'INFANZIA SCUOLA PRIMARIA SCUOLA SECONDARIA DE 1º GRADO LICEO Desvendando Conceitos
Uma das dificuldades para se fazer estudos comparativos sobre a política de Educação Especial são as diferenças terminológicas e conceituais frequentemente existentes em dois ou mais contextos educacionais. Nesta parte do estudo iremos apresentar os conceitos de integração e de inclusão escolar e a definição do alunado da Educação Especial presentes em cada país atualmente, a fim de que o leitor possa levar tais pontos em consideração no processo de compreensão dos dados.
Integração e Inclusão Escolar
No Brasil, como expõe Édler-Carvalho (2004), o princípio da integração posiciona-se na perspectiva de que os alunos devem adaptar-se às exigências da escola enquanto que o princípio da inclusão escolar defende que a escola é que deve se adaptar às necessidades dos alunos. Então, a literatura na área da Educação Especial demonstra um consenso de que a escola precisa adequar seus espaços físicos, dispor de materiais necessários
ao processo de ensino-aprendizagem, e aprimorar suas ações em busca de atender a todos os alunos, sem discriminação (ÉDLER-CARVALHO, 2004; MENDES, 2006).
Não se deve excluir, portanto, o princípio da integração ao referir-se à inclusão das pessoas com deficiência, quando se discursa que “a integração está sendo superada pela inclusão”. Isso porque, equivocadamente, os profissionais da educação julgam suficiente a inserção dos alunos na turma, “dispensando-se as ajudas e apoios necessários para sua integração (interação) com outros colegas e com os objetos do conhecimento e da cultura” (ÉDLER-CARVALHO, 2004, p. 68).
Na Itália, segundo autores como De Anna (2002) e Canevaro (1999), o termo adotado é o de integrazione (integração) para denotar, mais do que o processo de interação entre os sujeitos, a intervenção pedagógica no contexto escolar, considerando-se as características do aluno, de modo a oferecer uma pluralidade de intervenções, sejam interpretativas ou operacionais, identificando-se os limites e potencialidades, tanto cognitivas quanto motoras e sociais, para o planejamento de intervenções pela equipe escolar.
Portanto, o conceito de integração italiano equivale ao princípio da inclusão, conforme adotado no contexto brasileiro.
Alunado da educação especial
No Brasil, os termos adotados para se referir ao alunado da educação especial foram, ao longo dos anos, “excepcionais” e, mais recentemente, “educandos com necessidades educacionais especiais”. Atualmente, este segmento populacional foi restringido em alunos com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altas habilidades/superdotação (BRASIL, 2008a).
Na Itália, os parâmetros para a identificação do alunado focam apenas nas deficiências, o que faz com que a estimativa da população se posicione no intervalo entre 1 e 2%. Os critérios adotados naquele país seguem a International Classification of Functioning,
Disability and Health – ICF (Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e
Saúde – CIF) da Organização Mundial da Saúde, significando que a perspectiva médica é predominante na elegibilidade do alunado da Educação Especial (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2001).
A elegibilidade do alunado da Educação Especial, seguindo-se critérios médicos, especificamente baseado na deficiência da pessoa é um parâmetro seguido por
outros países, tais como a França, Estados Unidos e Inglaterra (STAINBACK; STAINBACK, 1999; MENDES, 2009). As conseqüências de se seguir tais critérios atingem desde a identidade do alunado da Educação Especial, até a canalização de verbas para este segmento populacional. Quanto mais abrangente for esta definição, maior necessidade de financiamento para oferecer os serviços especializados. No caso, constata-se que a definição do alunado no contexto brasileiro é mais abrangente do que a da Itália.
Nesse momento, após apresentar as características de cada país que envolvem, direta ou indiretamente, a escolarização das pessoas com deficiência, detalharemos os caminhos seguidos para o desenvolvimento do presente estudo.