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TEKNOLOJİ KABUL MODELİ İLE İLGİLİ LİTERATÜR TARAMASI

No caso específico da questão indígena, essa nova ingerência acarretou, em muitas situações impedâncias, as quais atribuímos ao desconhecimento, por parte dos empreendedores, das especificidades que permeiam o tema, com o agravante que, desde a formação da parceria, essas concessionárias privadas não contaram com consultoria especializada na área antropológica voltada ao assessoramento de seus gerentes.

Ainda que nas decisões de Furnas para a gestão da questão indígena esteja agregada a decisão da Parceria Privada, no decorrer desse trabalho é basicamente de Furnas que iremos tratar, ou a ênfase recairá na chamada parceria Furnas/Funai, pelo fato de que Furnas sempre representou, em última instância, a parceria frente ao órgão indigenista. Buscamos aqui a noção de campo de Bourdieu:

As ideologias devem sua estrutura e as funções mais específicas às condições sociais de sua produção e da sua circulação, quer dizer, às funções que elas cumprem, em primeiro lugar, para os especialistas em concorrência pelo monopólio da competência considerada (religiosa, artística, etc.) e, em segundo lugar e por acréscimo, para os não especialistas. (Bourdieu, 1989).

A apreciação do papel do técnico especializado, no espaço institucional e no campo antropológico se dá, quando observamos, de acordo com Bourdieu, de que os intelectuais/técnicos são profissionais especialistas na produção de um sistema ideológico necessário à luta pelo monopólio da produção ideológica legítima.

Originadas de trabalhos antropológicos junto aos índios Avá-Canoeiro, em Goiás, nossas reflexões voltam-se para a análise crítica da autoridade atribuída ao antropólogo por Furnas, no sentido de gerenciar as medidas compensatórias para os índios “impactados” pelo empreendimento hidrelétrico.

96 Para a questão indígena, os contratos em vigência desde 2001, foram estabelecidos entre a Semesa e a Funape

(Fundação de Apoio à Pesquisa da Universidade Federal de Goiás)

97 Antropólogos, pesquisadores, Fundação de Apoio à Pesquisa, órgão da Universidade Federal de Goiás que administra

95 O convênio Furnas -Funai, com a implantação parcial dos compromissos firmados, prin cipalmente a seccionada execução do Programa Avá-Canoeiro (Pacto), emerge dessas relações como um esforço de tradução do conhecimento antropológico sobre os índios para a administração empresarial que tende a se apropriar do mesmo como uma política de “responsabilidade social”, senão conduzida para uma redução de custos, restrita a uma conotação filantrópica.

Nesse sentido, apontamos para um “paradoxo do indigenismo -empresarial”98 que se

instaura com a autorização oficial de projetos econômicos sobre terras de usufruto exclusivo dos índios, processo que gerou uma série de compromissos, a serem coordenados pela Funai, e cumpridos pelos empreendedores, contando para isso, com um antropólogo em sua equipe.

No entanto, o que se depreende dessa realidade é que, a partir de 1998, com a mudança na política gerencial do órgão ambiental de Furnas, além da ingerência da parceria privada, até 2004, as decisões foram tomadas, fazendo-se prescindir da participação antropológica, no sentido de organizar o gerenciamento da nova situação. Decorreram, dessa postura gerencial, equívocos na condução dos processos, supostamente advindos do não domínio das especificidades inerentes ao tema, tendo como conseqüência imediata o recrudescimento no relacionamento com o órgão condutor da política indigenista oficial, tanto na esfera local como central, que são remetidos à ineficiência dos resultados propostos para as ações relativas à questão indígena.

Durante esse período, a participação do antropólogo nessas situações, via de regra, só se consolidava depois de instaurado o “problema”, quando este profissional era instado a proceder a análises para emissão de pareceres técnicos, com vistas à solução da pendência, naturalmente, sob a ótica empresarial. Como o encaminhamento da questão, pelo antropólogo, passava por procedimentos metodológicos e éticos inerentes à sua disciplina, normalmente suas recomendações técnicas não eram levadas em consideração, por não atenderem, em geral, às expectativas gerenciais no encadeamento das ações a serem articuladas para a condução das tratativas do processo associado à questão indígena.

Esse paradoxo dá origem a um fato controverso, qual seja, o da transferência de responsabilidade da instituição para o antropólogo na razão inversa da retirada de poder do mesmo para levar adiante suas ações e orientações em prol do cumprimento dos compromissos assumidos para a viabilidade ambiental do empreendimento. Não raro, a interpretação de tais compromissos sofre uma distorção, de obrigações devidas que se constituem, como contrapartida pela utilização de parte do território indígena pelo empreendimento, para serem tratadas como uma ação de cunho

98 Partindo do princípio que indigenismo empresarial se remete a casos nos quais o poder econômico de grandes

empresas sobrepuja o poder político do órgão indigenista (Baines, 1998:1), já que na Terra indígena Avá-Canoeiro a assistência aos índios está relacionada a convênios e contratos entre a Funai e Furnas.

social-filantrópico, mascarando o que chamamos de responsabilidade social técnico-gerencial,99

provocando, além de previsível resistência, uma sucessão de mal-entendidos entre os agentes da Funai que acabam por postergar ainda mais o andamento das ações planejadas. A essa altura, a Funai, que conta com a aliança do Ministério Público Federal na defesa dos interesses indígenas, já reivindicou sua participação no processo, para que as leis sejam cumpridas em auxílio das comunidades indígenas, que são, de fato, as prejudicados nesse “jogo de empurra” institucional.

A partir desse princípio e no decorrer da implantação das ações dos programas inerentes às comunidades indígenas, por Furnas, pode-se então sugerir que as dificuldades sentidas pelos empreendedores estão para além dos impasses gerados pela deficiência dos aspectos teóricos- metodológicos na gestão da questão indígena: a começar pela percepção de que não basta contar com antropólogos em seu corpo técnico, se estes profissionais não são dotados de autonomia hierárquica no sentido de fazer frente à análise técnica de um problema que emerge dessa parceria institucional, e gerar respostas às demandas do convênio ajustado entre as instituições.

Nossa experiência também revela que o acatamento (ou não) de uma orientação ou parecer técnico fundamentado na antropologia, tende a dimensões que gravitam em torno de interesses específicos que fogem do alcance do especialista, uma vez que o técnico fica subordinado a uma estrutura hierárquica, onde atuam agentes despreparados para o gerenciamento da pluralidade, embora em outras ocasiões, dependendo dos interesses e inconveniências os ocupantes das posições dominantes tendem a transferir a responsabilidade institucional para esse técnico, o antropólogo, sem contudo viabilizarem procedimentos e comandos eficazes nas ações que envolvem a parceria.

Nesse contexto, buscamos compreender que, nos espaços institucionais, circula capital simbólico em diferentes intensidades, que remete ao discurso instituído (o discurso competente) ratificando quem está autorizado a dizer o que:

o discurso competente é aquele que pode ser proferido, ouvido e aceito como verdadeiro ou autorizado porque perdeu os laços com o lugar e o tempo de sua origem. (Chauí, 1981) Assim foi sendo (mal) conduzido o Convênio, firmado desde 1992, com vigência de cinco anos, prorrogáveis. Eis que, vencido o prazo de vigência, a iniciativa de solicitar a prorrogação era da Funai, por meio de um ofício, o que foi feito em 1997, em data anterior ao fim do prazo previsto para o encerramento do mesmo. Contudo, por inépcia da Funai, o Convênio expirou -se em 2002. Desde então, tão somente as poucas ações do Pacto que estavam em curso tiveram continuidade, por força do Decreto 103/96, enquanto tentativas de entendimento para ajustamento de um novo Convênio se sucederam.

99 Entendida aqui como estratégia de valorização dos serviços - no caso, a atuação técnica do antropólogo endossada

97 Ainda em 2002, Furnas e Funai acordaram por adequarem os termos para o novo instrumento contratual que teria como “anexo” o Programa Avá-Canoeiro, quando Furnas, a pedido do parceiro (Semesa) apresentou à Funai, para análise, uma nova proposta para o Pacto, mais enxuta que a anterior. Diferentemente dos termos do Cono Programa Avá-Canoeiro e vênio expirado em 2002, que não informava em seu escopo o custo estipulado para a sua implantação, a partir da promulgação da Lei 8.666/93100 essa especificação passou a ser obrigatória para todo instrumento

contratual que conte com a participação de empresas públicas. Desse modo, foi solicitado à Funai apresentar o orçamento das ações pendentes e programadas, tendo sido acordado o prazo de sessenta dias.101

O objetivo dessa nova versão seria adequar o programa às reais necessidades dos índios, já que, na sua versão original, algumas ações foram previstas em função de um cenário projetado que não se efetivou na realidade. Uma delas era a possibilidade do contato eminente com outros grupos de Avá isolados e outra era o controle de endemias no entorno da terra indígena, à época do início do enchimento do reservatório, caso ocorressem os prováveis surtos de malária trazida por garimpeiros de outras regiões, atraídos pelo leito aflorado do rio Tocantins à jusante102 da barragem,

dentro dos limites da terra indígena, onde o rio praticamente secou por um determinado período. Como essas projeções não se realizaram como previstas, por ocasião das negociações para um novo convênio, Furnas apresentou a citada proposta para ser apreciada e devidamente orçada pela Funai.