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2. TEDARİK ZİNCİRİ YÖNETİMİ SİSTEMİNDE TEDARİKÇİ SEÇİMİ

2.2 Tedarikçi Seçimi

O autor Jacques Aumont, em A estética do filme (2002), no capítulo dedicado ao realismo no cinema, fala que em uma análise fílmica, em primeiro lugar, é preciso distinguir o realismo dos materiais de expressão (imagens e sons) e o realismo do tema e tratamento dos filmes. Pois bem, em Família rodante, essa distinção é mais confusa e complexa. Melhor seria dizer que há uma combinação dos elementos de expressão e tema realistas neste filme.

Pablo Trapero elege sua avó materna Graciana Chironi para o papel mais importante do filme. Segundo o diretor, no making of Como se hizo Familia rodante (2004) – presente no DVD do filme –, a escolha da avó se deu não somente por uma questão de afeto, mas porque Trapero se interessa pelo trabalho de atores não- profissionais. “Graciana não se parece com Emilia. Tinha confiança, mas também tinha dúvidas, porque ela não é atriz e tem 83 anos, mas foi muito bem”, diz Trapero.

E o diretor escalou sua avó não somente neste, mas nos seus dois longas- metragens anteriores. Em Família rodante, Graciana foi protagonista pela primeira vez e seu papel é vital para o filme. É Emilia quem provoca a viagem e, ao mesmo tempo, quem trata de manter a família no lugar, apesar de todas as confusões. A cena de toda a família empurrando a Viking 58 quebrada pela estrada, direcionados por Emilia com o bebê no colo, é emblemática de todo o filme (Figura 14): é ela quem guia, quem sustenta a família, ao longo de boa parte dos seus 83 anos.

Além de sua abuela, o diretor escalou outros não atores (mas há também atores profissionais, como Liliana Capuro e Ruth Dobel), seguindo uma proposta já presente em sua filmografia de realizar filmes realistas, quase que num estilo documental. Esta característica realista também se faz presente em outros Filmes de estrada, junto à utilização de locações reais e cenários naturais. No longa, a viagem realmente aconteceu pela Ruta 14 (conhecida como Ruta de la muerte72, por abrigar muitos caminhões e ter somente uma via) e passou por Buenos Aires, Corrientes e Misiones.

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Segundo Verardi (2009), a escolha por não atores ou novos atores é outro aspecto renovador do cinema argentino dos anos 1990. A proposta de novos discursos e espaços também se dá na busca de novos corpos para os personagens:

[...] una búsqueda por trabajar los personajes, los rostros, los cuerpos desde un punto cero, evidenciando que una nueva discursividad debía necesariamente anclar en un nuevo modo de organizar la materialidad significante (la corporalidad, el decir, el mirar, etc) 73 (VERARDI, 2009, p. 185).

Uma curiosidade que remete a essa experiência realista está também na composição da equipe técnica: em paralelo à viagem da família rodante ficcional, houve outra viagem familiar. O diretor não escalou somente sua avó Graciana como protagonista, mas teve, na estrada, as companhias de Martina Gusman (sua esposa e produtora executiva), Martín Trapero (seu pai, dono e mecânico do Chevrolet Viking 1958), María del Carmen (sua mãe, babá de Mateo – filho de Pablo e Martina – e acompanhante da mãe Graciana), Marina (sua irmã) que acompanhava Elvio

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“[...] uma busca por trabalhar os personagens, os rostos, os corpos desde um ponto zero, evidenciando que um novo discurso devia necessariamente ancorar em um novo modo de organizar a materialidade significante (a corporeidade, o dizer, o olhar, etc)” [tradução nossa].

Maza Veja (seu cunhado e assistente de arte) e Marisa Urruti74 (sua sogra e figurinista).

No making of, Trapero conta que quando escreveu o roteiro de Família rodante pensava em realizar um projeto relaxado, com um pequeno grupo de pessoas e um clima de viagem, como um Filme de estrada entre amigos, família e equipe técnica. Mas o projeto tomou outra direção, porque o diretor estava em seu terceiro longa e, então, tinha muita coisa a mostrar e experimentar no filme. “O projeto começou a tomar dimensões cada vez maiores. A história sempre foi a mesma. Todo o processo foi inversamente proporcional à ideia original de fazer um filme mais tranquilo”, descreve o diretor (2004).

Enquanto a história do filme é simples, de poucos acontecimentos e quase nenhuma grande ação, a logística empregada na produção foi complexa, desde a ideia original: uma viagem de 12 pessoas na casa rodante. Os números do longa- metragem são interessantes: a equipe contou com mais de 80 pessoas, sendo 70 técnicos e 12 atores principais; 500 extras para a cena da festa de cavalgada em Corrientes; três meses de filmagem – para os três dias de viagem ficcional; 1.400 quilômetros rodados; 15 veículos utilizados.

Há, ainda, que se destacar o uso da Viking set: um segundo trailer, numa espécie de set sobre rodas, montada em uma caminhonete adquirida no processo de pré-produção e idêntica ao ‘personagem’ do filme, com uma plataforma de 10 x 4 metros, desmontável para o trânsito na estrada, onde a equipe posicionou as câmeras e realizou as cenas de interior do veículo. Segundo o diretor, a opção pela Viking set se deu pelo desejo de manter as cenas internas no mesmo estilo das externas e evitar estúdios, back projections75 e mesmo imagens de pós-produção. “Para esse projeto, para o tipo de atuação e para o espírito de cinema de Família rodante, nós decidimos construir a Viking set”, conta Trapero no making of (2004).

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Marisa Urruti também é figurinista de Diários de motocicleta. 75

Back projection é uma técnica de cinema composta por uma tela semi transparente, sobre a qual é projetada uma imagem ou uma cena já existente, enquanto à frente da tela o ator representa seu papel. Fonte: HAMUS-VALLÉE, 2004, p. 50.

Dentro do set podíamos filmar em todas as direções, olhando para qualquer lado, olhando de qualquer janela e também desde dentro. Eu me interessava em ter uma relação direta com os atores, a estrada e com o clima de estar viajando, no calor (TRAPERO, 2004).

Do ponto de vista técnico e relacionado à estética realista presente no filme, há duas estruturas de planos: os fixos e close-up dos personagens dentro do veículo e os gerais relacionados à paisagem. No longa, Trapero optou por um registro em 16mm e 35mm, respectivamente. A partir do momento em que o filme cai na estrada, os dois tipos de planos convivem: os planos fixos e de enquadramento muito aproximado dos rostos e de detalhes dos corpos dos personagens (do lado de dentro) e os planos em movimento e gerais da paisagem e da Viking 58 na estrada (do lado de fora). Enquanto os primeiros planos dos rostos dos personagens e os planos-detalhes contam em uma escala a “fechada” convivência entre eles, os planos gerais trazem uma perspectiva de liberdade e de movimento que só um Filme de estrada pode realizar.

Trapero retrata essa família com bastante realismo, com personagens e diálogos de “carne e osso”. No filme, a família é só uma família com suas relações e o longa acaba por realizar a afirmação coletiva da existência da família “toda” na casa rodante, além de sua importância como uma instituição social. A sensação é de que o diretor faz filmes como a vida mesmo, usando elementos reais da sua própria experiência: a avó, as locações reais, a Viking 58 e o mesmo trajeto da viagem familiar etc. Pode-se pensar até se Martín (quem mais aproveita a viagem) não seria uma representação do que fora o diretor na sua infância.

Essa confusão entre ficção e realidade parecer interessar a Trapero. O diretor sempre fala do que acontece à sua volta. Mesmo abandonando o relato e a participação de sua família nos filmes subsequentes a Família rodante, Trapero ainda se dedica a histórias sobre a realidade de sua cidade Buenos Aires e da Argentina, mas àquelas histórias que não são contadas, que estão fora das páginas dos jornais.

Benzer Belgeler