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do direito ambiental deve receber solução em prol do último, haja vista a i nalidade que este tem de preservar a qualidade da vida humana na face da terra. O seu objetivo central é proteger patrimônio pertencente

às presentes e futuras gerações (grifou-se)69.

Controle. Brasília, 2011, pp. 11-54. Disponível em: http://www2.senado.gov.br/bdsf/bitstream/ id/242559/1/000940398.pdf. Último acesso em 21abril 2013.

67 BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. REsp 1.120.117/AC, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 10.11.2009.

68 BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. REsp 876.931/RJ, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 10.08.2010.

69 BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. REsp 588.022/SC, Rel. Ministro José Delgado, Primeira Turma, julgado em 17.02.2004.

Enfatiza-se, aqui, o último julgado apresentado. O relator do caso encon- trado na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, Min. José Delgado, ai rma expressamente que o direito ambiental deve prevalecer no confronto com o direito ao desenvolvimento por conta do seu objetivo de preservar a

vida humana. Ora, o que isso signii ca se não atribuir ao direito ambiental um

caráter absoluto?

É claro que a proteção ao meio ambiente em muito diz com o direito à vida, especialmente com o direito à sadia qualidade de vida, conforme protegido pela Constituição Federal de 1988, em seu art. 225, caput. No entanto, não é razoá- vel que o direito ao meio ambiente proteja de imediato o direito à vida — assim como não faria sentido que o direito constitucional tratasse sempre, em primeiro plano, da dignidade da pessoa humana. Para melhor explicar, vale conferir um exemplo bastante conhecido na seara constitucional: quando um jornal, uma revista ou um livro publicam algo sobre a vida de alguém, e essa pessoa se sente ofendida pela publicação, é possível que haja colisão entre os princípios da liber- dade de expressão e da privacidade e intimidade. Não há, aqui, colisão entre a liberdade de expressão e a dignidade da pessoa humana, apesar de, em casos de ofensa à privacidade e intimidade, poder se falar, em um âmbito mais geral, em ofensa à dignidade da pessoa humana. O mesmo raciocínio deve ser aplicado ao direito ambiental. Se o Estado autoriza a construção de uma usina hidrelétrica em local coberto por vegetação nativa, os princípios em colisão são a proteção ao meio ambiente e o direito ao desenvolvimento econômico do país, e não o direito à vida da presente e das futuras gerações e o direito ao desenvolvimento econômico. Por óbvio, há situações nas quais tratar-se-á diretamente do direito à vida, como seria o caso, por exemplo, de uma indústria que despeja substâncias cancerígenas em um rio responsável por abastecer uma cidade. Nesta hipótese, ter-se-ia, em primeiro plano, uma violação direta ao direito à vida. Entretanto, isso não vale para todos os casos envolvendo o meio ambiente.

Nesse sentido, se se permitir que o direito ambiental traga sempre em pri- meiro plano a proteção à vida, qualquer ponderação entre a vedação do retro- cesso ambiental (ou qualquer outro princípio de direito ambiental) e outro princípio já terá, a piori, o seu resultado dei nido, pois o legislador, o adminis- trador e o julgador (cada um diante de situações diferentes de ponderação de princípios em colisão) vão deixar sempre prevalecer o direito à vida. Apesar de não haver hierarquia entre os direitos fundamentais previstos na Constituição Federal de 1988, é de se esperar que, quando um dos princípios em colisão seja realmente o direito à vida, o agente decisório opte por sua prevalência, pois sem

ele não há porque garantir qualquer outro direito. Portanto, considerar sempre que o direito ao meio ambiente tem, em sua mais rasa dimensão, uma proteção direta ao direito à vida pode ter como consequência a descaracterização dos conceitos de princípio, de ponderação e de exame de proporcionalidade, o que seria inconsistente com a matriz teórica de princípio invocada pela doutrina para dei nir a vedação de retrocesso. Como visto na teoria de Alexy, as relações de prevalência não comportam determinações a piori, pois o peso de cada prin- cípio depende das condições fáticas e jurídicas existentes em um determinado caso concreto. Além disso, expressa perigoso componente arbitrário, já que o intérprete “escolhe” como absoluto o meio ambiente ou a vida em detrimento de outros princípios que o constituinte quis preservar com igual status.

Para visualizar melhor os problemas envolvidos nessa discussão, é possível fazer uma analogia com outro debate sobre princípios constitucionais e seus con- l itos. Há, na doutrina nacional, similar debate teórico acerca da problemática de um determinado princípio sempre prevalecer sobre outro: trata-se da suposta prevalência necessária do interesse público sobre o interesse privado, a “suprema- cia do interesse público”. Não obstante os princípios em colisão serem diversos, a lógica por trás da reprovação da prevalência a priori de um determinado princípio se dá pelo mesmo fundamento tanto na esfera do direito administrativo, quanto na do direito ambiental. Nesse sentido, coni ra-se lição de Gustavo Binenbojm:

a noção de um princípio jurídico que preconize a prevalência a priori de interesses da coletividade sobre os interesses individuais revela-se absolu-

tamente incompatível com a ideia da Constituição como sistema aber- to de princípios, articulados não por uma lógica hierárquica estática,

mas sim por uma lógica de ponderação proporcional, necessariamente

contextualizada, que ‘demanda uma avaliação da correlação entre o esta-

do de coisas a ser promovido e os efeitos decorrentes da conduta havida como necessária à sua promoção (grifou-se)’70.

A prevalência do interesse público é rejeitada, também, por Humberto Ávila. O autor assevera que no lugar de uma “’relação abstrata de prevalência absoluta’, (...) deve ser descrita uma ‘relação concreta de prevalência relativa’, cujo conteúdo depende das circunstâncias do caso e cujos efeitos só são desen- cadeados caso verii cadas as condições de prevalência do princípio envolvido”71. 70 BINENBOJM, Gustavo. Uma teoria do direito administrativo: direitos fundamentais, democracia e consti-

tucionalização. 2. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Renovar, 2008, p. 30.

71 ÁVILA, Humberto Bergmann. Repensando o “princípio da supremacia do interesse público sobre o par-

ticular. In: Revista Eletrônica sobre a Reforma do Estado. Salvador: no 11, set./out./nov. 2007. ISSN

Como se vê, é inadmissível que um princípio sempre vença em qualquer situação de conl ito. Portanto, o primeiro passo para aplicar a vedação do re- trocesso ambiental em conformidade com a teoria dos princípios é conseguir analisar qual direito deve ser tutelado em primeiro plano, mesmo que em uma dimensão mais geral tenha-se a proteção ao direito à vida.

Até o momento, é possível concluir que a doutrina insere a vedação do retrocesso ambiental em uma matriz teórica de princípio constitucional. Apesar disso, apresenta grande dii culdade de perceber que o instituto, além de apresen- tar conl ito entre o direito do meio ambiente e a autonomia do legislador, rel ete — o que é perigosamente complicado — conl itos mais intricados com direitos fundamentais, como a livre iniciativa, o desenvolvimento econômico e o direito de propriedade, que também estão abarcados pela obrigação de não retroceder.

Nesse cenário, faz-se importante investigar como deve se dar o sopesamento dos princípios materiais em questão. É necessário identii car um instrumental de aplicação da proibição de retrocesso na seara do meio ambiente que, se não supere completamente as críticas acima apontadas, pelo menos as minimize.

4. ANÁLISE ECONÔMICA DO DIREITO E VEDAÇÃO DO RETROCESSO AMBIENTAL: