2.3. ALICININ YÜKÜMLÜLÜKLERİNİ İHLAL ETMESİ HALİNDE
2.3.2. Türk Borçlar Kanunu’na Göre Satıcının Hakları
2.3.2.5. Tazminat (Aynen İfadan Vazgeçip Müspet Zarar) Talebi
Apesar de já se ter comentado sobre a crítica brasileira, cumpre estabelecer uma diferença entre os diferentes momentos de circulação da obra de J. K. Rowling no Brasil. As primeiras manifestações críticas ocorreram de forma esparsa, sem que se pudesse fazer uma coleta mais precisa e com suficientes dados comparativos. A reportagem de Marina Colasanti tem maior repercussão no meio on-line e grande número de participantes do fórum, com maior formação acadêmica, manifestou-se apenas no ambiente virtual.
Quando se pensa no espaço da imprensa escrita, as primeiras opiniões de intelectuais brasileiros foram cheias de reticências. A reportagem de Eliane Lobato menciona uma resenha de Ana Maria Machado, em que a escritora demonstra acreditar que a obra de J. K. Rowling houvesse recebido investimento de divulgação desde o princípio, como se depreende no início da citação que se segue. Na mesma seqüência, a repórter expõe o que pensa a psicanalista Ana Olmos, contrapondo-se ao que diz Ana Maria:
[...] a série “é boa, sim, mas não tem nada demais” e atribuiu ao eficiente marketing de lançamento a responsabilidade pelo enorme sucesso. “Não quero endeusar essa obra e nem sentar o pau, porque não é um horror”, afirmou ela. A psicanalista Ana Olmos,
37 MYERSON, Jonathan. Harry Potter e os adultos tristes. Folha de S. Paulo, São Paulo, 2 dez 2000, Caderno Mais, p.10-11.
entretanto, rebate: “O marketing é bom, mas não teria resultado se o produto não tivesse os elementos capazes de mobilizar a paixão.” Ruth Rocha, também escritora infantil, concorda: “Não li Harry Potter, por isso não posso julgar. Mas acredito que a autora escreva bem. Do contrário, não faria sucesso”, diz ela. 38
Em outra ocasião, a “leve má vontade” de Ana Maria Machado, em relação à obra inglesa, fica mais evidente ao comentar sobre o lançamento da série, na televisão, do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, reivindicando um pouco mais de atenção para outras obras, ao fazer observações que considera importantes para a indústria cultural destinada ao mercado infantil:
De qualquer modo, já que insistiam, tentei dizer alguma coisa aos repórteres. Duas observações (políticas) que passaram ignoradas. A primeira parece ser meramente cultural: qualquer adaptação de obra literária brasileira para crianças é bem-vinda em nossa televisão e merece ser recebida com, pelo menos, um centésimo da boa vontade arreganhada que a mídia demonstrou para saudar a milionária campanha de lançamento de Harry Potter. A segunda pode dar a ilusão de ser apenas econômica: partir de grandes clássicos literários é um caminho interessante e promissor para o estabelecimento de uma indústria cultural forte nessa área - até mesmo seguindo o exemplo de Walt Disney, que foi além de Donald e Mickey para construir seu sucesso mundial, erigido sobre as sólidas fundações dos livros. Contos de Grimm, Perrault e Andersen, e histórias folclóricas do Tio Remo se alinharam a obras-primas universais do gênero, como Peter Pan, Alice, Pinóquio, Mowgli, Bambi para, ao lado da mitologia grega e da tradição das Mil e Uma Noites, construir o maior império de entretenimento do mundo. As pessoas de todas as idades, em todas as latitudes e todas as épocas, precisam de histórias que discutam idéias. E disso os livros estão repletos, há séculos. É um equívoco total achar que se vai muito longe apenas com barulho, cores, e umas garotas no foco da câmera, dançando ao som das mais recentes imposições da indústria fonográfica. Ou com a passiva transformação de pokemons em modelos de comportamento, diante da indiferença geral dos bem-pensantes formadores de opinião que tantos reparos se dispõem a fazer ao primeiro sinal de algo letrado, que saia da mesmice homogeneizante das importações massificadoras. 39
Ao realçar as ligações entre produtos da indústria cultural que se consagram por se originarem em produções literárias consistentes, a escritora defende a importância das narrativas para a discussão das idéias e, nesse sentido, Harry Potter precisaria ser mais do que uma “mera versão masculina do conto de Cinderela” para merecer entrar no circuito do que a academia chama clássico.
Ana Maria Machado chama continuadamente a atenção para os textos considerados clássicos, partilhando da mesma opinião de Ítalo Calvino no livro Por que ler os clássicos.
38 LOBATO, Eliane. A mágica de um livro. ISTO É, São Paulo, Três, n.1656, p.61-62. 27 jun. 2001. 39 Disponível em: < http://www.no.com.br/revista/noticia/44889/1007417269000#top - 3/12/2001>
Outro dado, a ser lembrado, é a relação entre livro e cinema. Muitas vezes, o fato de um livro ser transformado em filme não lhe garante espaço, nem o consagra como clássico. É o que lembra Alexander Martins Fontes, da editora, ao falar sobre algumas obras infanto- juvenis. Muitas vezes o mercado editorial interfere e acredita em algum produto, mas há outros em que o produto se sustém por si só. Ele chama o processo de Clássico Embrionário:
Mas não se pode dizer que a Martins Fontes não tome atitudes mais ousadas, preferindo encastelar-se nos clássicos. A editora adquiriu os direitos sobre uma trilogia da qual só foi escrito o primeiro volume. Trata-se da escritora australiana Lian Hearn (Gilian Rubenstein), que passou pelo crivo da qualidade.
Não é como a Objetiva fez com a trilogia de Phillip Pullman, que já era conhecido. A conterrânea de Pámela Travers é bem mais arriscada, pois é uma autora que ninguém conhece, mas a lendária percepção Martins Fontes apontou-a como sendo um clássico. O mercado está concordando com isso e já se fala em transformar a saga em filme.[...] “Eu gostaria que livros vendessem como chocolates, mas são mercados distintos”. [...]Não há reais garantias de que a filmagem venha a proporcionar incremento nas vendas. Roald Dahl, por exemplo, vende principalmente porque foi adotado nas escolas, não por ser um dos autores mais filmados, ao contrário do Ursinho Puff, que foi um fracasso de vendas.40
O que se percebe da exposição de Alexander é que o comportamento do mercado pode ser imprevisível e o seu funcionamento interessa, nessa discussão, por se tratar de investimentos que dependem de um público leitor que adquirirá este ou aquele livro, dependendo de fatores nem sempre claros. Um público leitor de determinada obra pode se tornar seu público-alvo preferencial quando ela se transforma em filme e vice versa, mas nem sempre as coisas funcionam dessa forma, como é o caso de Roald Dahl, que,embora tenha sido muito filmado, vende por ser uma leitura indicada na escola. Ele foi apontado como um dos pioneiros a explorar o mesmo espaço em que J. K. Rowling se inseriu, no entanto, seu sucesso não foi o mesmo. Os filmes tiveram mais repercussão do que os livros nos quais foram baseados, como: “A fantástica fábrica de chocolate” ou “Gremlins”.
Passados três anos do primeiro impacto no Brasil e na América Latina, em relação à série “Harry Potter”, registra-se uma alteração na postura receptiva de críticos literários,
40 Disponível em: <http://www.sobresites.com/literaturajuvenil/entrevista6.htm>. Acesso em: 2004 e 19/02/2007 (segundo acesso).
momento em que Nelly Novais Coelho é a primeira a tratar, de forma positiva, sobre a existência de qualidades no texto, em entrevista registrada na rede e também na revista Nova Escola:
[...] Recreionline: E o que a senhora acha do livro Harry Potter?
Nelly Novaes Coelho: Eu li os quatro e acho que essa escritora (Rowling) é muito
boa, ela tem um domínio de linguagem incrível e o que ela faz nesses livros é construir uma trama que trabalha com arquétipos, com mitos, com necessidades fundamentais do ser humano. É muito inteligente, bem situado em nosso tempo, com uma linguagem muito rápida, como um videogame. Embora a literatura brasileira também seja muito rica, o fato de ele ser inglês não faz mal nenhum, porque a autora não está trabalhando, vamos dizer assim, “coisas” inglesas. É mundial, é universal. Na verdade, o Harry Potter está numa alta categoria literária.
Recreionline: Mas vários críticos, ao analisar Harry Potter, não o consideraram como
literatura. O que a senhora acha disso?
Nelly Novaes Coelho: Não, não concordo. O livro está muito bem estruturado, muito
bem escrito, do ponto de vista da elaboração literária, está muito bom. Ele é completo, a linguagem que ela usa é coerente. Isso não é verdade, literariamente é bem realizado, sem dúvida é uma obra de literatura. 41
Embora, segundo a professora, a autora não esteja trabalhando “‘coisas’ inglesas”, existe uma abordagem cultural visível. Num cenário aparentemente neutro, percebe-se a afirmação de aspectos culturais locais, além do estudo sobre as formas de apropriação que a autora faz de todo o acervo que a antecedeu.
A professora Nilma Gonçalves Lacerda42, sem ter lido Harry Potter, sentiu-se motivada a escrever sobre a polêmica em torno da obra, comentando, em artigo, que procurará ter tempo para ler o livro que deu à filha e ao sobrinho. Argumenta que o leitor se forma lendo
41 Disponível em: <http://recreionline.abril.com.br/professor/prof_literatura.html>. Acesso em 12/07/03. A entrevista online é mais detalhada do que a menção à opinião de Nelly Novaes Coelho, feita por Roberta Bencini em “Por que ler os clássicos”, na revista Nova Escola, de abril de 2003. Na reportagem, são apresentadas as opiniões de Ana Maria Machado sobre a leitura dos clássicos, como escolher uma adaptação, além da sugestão de livros considerados por ela imperdíveis: qualquer livro de Lobato, Contos dos irmãos Grimm, Peter Pan, Robison Crusoé, A Ilha do Tesouro. Em setembro de 2001, na mesma revista, Ana Maria Machado indicava entre os autores que não deviam faltar nas bibliotecas: Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Ziraldo, Sylvia Orthof, Bartolomeu Campos de Queiroz, Marina Colasanti, Pedro Bandeira, João Carlos Marinho, Mary e Eliardo França, Ricardo Azevedo, Marcos Reis, José Paulo Paes, Cristina Porto, além dela e de Lygia Bojunga, que haviam recebido o prêmio Christian Andersen. Também disponível em:
<http://novaescola.abril.com.br/index.htm?ed/161_abr03/html/hora_leitura> Acesso em: 20/02/2007.
42Nilma Gonçalves Lacerda é autora de Manual de Tapeçaria, Fantasias, Fingimentos, Finalmente! e de Cartas Do São Francisco: Conversas Com Rilke à Beira Do Rio: ensaio sobre ética nos livros para crianças e jovens.
não apenas obras consagradas pelo cânone. Nesse sentido, reconhece o papel das fotonovelas em sua própria experiência de leitura. Refletindo sobre a leitura e o leitor, afirma:
O gosto do leitor. De que leitor falamos? De um leitor que pode confrontar seu próprio cânon com o de Harold Bloom? De um outro, que exclui de sua experiência leitora tudo que não reconhece como sendo de “sua praia”? De um leitor que está em formação, precisa aprender a saber e julgar, mas, antes, bem antes, precisa aprender a gostar de ler? De um leitor que nasce numa época da história humana, em que os referenciais são velozmente substituídos?43
As indagagações da professora retomam questões como a importância da leitura bem como o gosto pela leitura sem submetê-la a uma seleção prévia com fim formativo, nem exigir preparo crítico desse leitor. Ou seja, em outras palavras, lembram dois aspectos envolvidos quando se fala da recepção da obra de J. K. Rowling: a oscilação entre a leitura entretenimento e de formação, que não está preocupada com um julgamento literário em profundidade, e a de apreciação estética, situando a questão entre o pedagógico e o literário.