4. Tazminatın Ödenme Biçimi
4.3. Tazminatın Ödenme Biçiminde Takdir Yetkisinin Kullanımı
Ao responder à pergunta no ensaio que coloca a questão, Kant afirma: “o iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado”,307 ou seja, a culpa pela menoridade – a incapacidade para orientar-se segundo seu próprio entendimento308 – é do próprio homem, se ele mesmo não decidir, por preguiça e covardia, sair desse estado. O que é necessário, então, para deixar de ser menor? Apenas a liberdade de pensar por si mesmo. Defendo, nesta seção, que a liberdade de pensamento é fundamental para a defesa do DHAA; para tanto, resgato o papel social da filosofia, uma vez que, concomitante à saída do estágio de menoridade, à medida que o homem desenvolve o uso público da razão rumo ao esclarecimento, está aberta a possibilidade de um progresso moral na história, no que tem papel fundamental as instituições do direito público.309
Embora não caiba neste trabalho maiores considerações sobre o termo em si (“enlightenment”) – iluminismo/esclarecimento/ilustração –, é importante considerar os dois sentidos que tinha na época. Em sentido genérico, referia-se àquela atitude ou processo que só reconhecia a autoridade do indivíduo livre, ou seja, neste sentido não se podia estabelecer um começo ou fim de um período de ilustração, mas tratava-se do domínio da análise crítica, portanto, do uso da razão, algo que alguém faz, não uma era a que pertence; em sentido específico, o termo era usado para designar um período da história européia, grosseiramente falando, o século XVIII, quando emergiu uma consciência do papel e da promessa do iluminismo em questões de moral, política e religião, e a ciência se tornou o modelo de conduta para os negócios públicos e para análise e solução de problemas públicos.310 De qualquer modo,
306Um exemplo de “sociedade secreta” será apresentado no último capítulo, na discussão sobre as decisões para liberação de OGMs.
307 Resposta, A 481, p. 11.
308 A respeito do sentido de entendimento (Verstand) substituído por Vernunft no ensaio “Que significa orientar-
se no pensamento” (1786) ver KLEIN, Joel Thiago. A resposta kantiana à pergunta: que é esclarecimento. Ethic@
Florianópolis v. 8, n. 2 p. 211 - 227 Dez 2009.
309 Sobre o papel da cultura para o progresso da moralidade ver NADAI, Bruno. Progresso e moral na filosofia da
história de Kant. 2011. 306f. Tese (Doutorado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
Departamento de Filosofia. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2011, p. 59 et seq.
310 Essa distinção é atribuída ao filósofo Charles Frankel. Cf. SCHMIDT, James. What counts as an Answer to the
question “what is enlightenment”. Talk for the Philosophy Department, Boston University, 2011. Disponível em
para saber se o termo ilustração se aplicava a este ou aquele processo ou comportamento, era preciso antes responder à questão “o que é o esclarecimento”, e esse foi o contexto em que o ensaio de Kant foi escrito,311 portanto, ele não estava preocupado em definir um período da história.312
O que me interessa no ensaio kantiano é a relação que ele faz entre os usos da razão e o esclarecimento, a partir da qual eu discuto de que modo os usos da razão podem ser empregados para a defesa do DHAA e os conflitos que surgem quando se considera o papel do Nutricionista, como agente público e como cidadão. Considero fundamental a liberdade de manifestação pública do pensamento para a defesa dos direitos humanos, visto que, para que um povo possa defender os seus direitos, é preciso estar acerca deles esclarecido; para tanto, defendo a atuação do Nutricionista como sujeito partícipe que colabora para o esclarecimento de uma comunidade republicana.313 Seria inaceitável para tal profissional, sendo a alimentação um direito humano, que renunciasse ao esclarecimento,314 já que também temos a obrigação de conhecer este direito, para saber como exigi-lo e contribuir para outras pessoas fazerem o mesmo, o que apenas publicamente pode ser feito. A exigibilidade do direito humano requer a liberdade de crítica, na qual repousa a própria existência da razão.315
Minha primeira crítica é que, diferentemente do contexto kantiano – marco na evolução dos direitos de humanidade –, não identifico aqui o entusiasmo que Kant presenciou, seja por parte da população, seja por parte dos políticos, frente às questões públicas que dizem respeito à alimentação. Por outro lado, é certo que a história brasileira apresenta fatos bem diferentes, mas questionei no início deste trabalho se poderíamos balizar algo como um “progresso moral”,
311 O iluminismo, naquele sentido específico, é tudo, menos algo que expresse uma uniformidade ou unidade entre os filósofos, especialmente os da Inglaterra, França e Alemanha. Ver PORTER, Roy. The enlightment in England. Excerpt. In: PORTER, Roy; TEICH, Milulás. Enlightenment in the National Context. Cambridge University Press,
1981. Disponível em
https://books.google.com.br/books/about/The_Enlightenment_in_National_Context.html?id=j- v3Li4uaysC&redir_esc=y. Acesso em 06 jan 2015.
312 Na verdade, Kant julgou “enfadonho” esclarecer uma época, dados os obstáculos que dificultariam a educação dos sujeitos individuais, com o que facilmente se poderia instituir a ilustração (Orientar-se, nota A 330, p. 55). 313Quando se trata de direitos naturais, “a ilustração do povo é a sua instrução pública acerca dos seus deveres e
direitos no tocante ao Estado a que pertence”, cujos arautos e intérpretes serão os filósofos, difamados como
iluministas, gente perigosa para o Estado (CF, § 8, p. 106-7). Não à toa Kant compara a faculdade de filosofia à ala esquerda do parlamento (da ciência), por oposição à ala direita que representaria o partido do governo representado pelas faculdades superiores. O primado da faculdade de filosofia só veio com a reforma universitária de Humboldt, que se deu em 1810. Cf. POZZO, Riccardo; OBERHAUSEN, Michael. The place of science in
Kant’s university. History of Science, XL, 129, 2002. Disponível em http://adsabs.harvard.edu/full/2002HisSc..40..353P. Acesso em 10 out 2014.
314 No ensaio Resposta à pergunta: que é o iluminismo (1784) em que abordou pela primeira vez a questão do
esclarecimento, Kant afirmou: “Um homem, para a sua pessoa, e mesmo então só por algum tempo, pode, no que
lhe incumbe saber, adiar a ilustração; mas renunciar a ela, quer seja para si, quer ainda mais para a descendência,
significa lesar e calcar aos pés o sagrado direito da humanidade” (Resposta, A 490, p. 16).
no campo da alimentação, a partir dos avanços no campo do direito e da política no Brasil. A respeito disso, Kant afirma que o lucro que este progresso para melhor trará ao gênero humano não será uma “quantidade sempre crescente da moralidade na disposição de ânimo, mas um aumento dos produtos da sua legalidade em ações conformes ao dever, sejam quais forem os motivos que as ocasionem”, 316 ou seja, o resultado do progresso seria observado “nos atos bons dos homens, que se tornarão sempre mais numerosos e melhores, portanto nos fenômenos da condição moral do gênero humano”.317
Por enquanto, não fomos capazes de moralidade, pois, sequer chegamos a um acordo entre o direito, a política e a moral no campo da alimentação, como apresento nesta tese. Se, por um lado, pode-se dizer que temos resolvido alguns graves problemas da não realização do direito à alimentação – no que diz respeito à escassez –, por outro lado, uma nova realidade se configura, agora caracterizada pelo excesso de alimentos pouco saudáveis disponíveis no mercado, os alimentos extremamente processados pela indústria, e pela adoção de estilos alimentares, decorrentes da modernização do trabalho e intensa urbanização, com graves consequências para a saúde. Neste processo, identifica-se tanto a ação como a omissão do Estado na exposição da população a riscos decorrentes da alimentação, ferindo frontalmente o que assegura a lei de segurança alimentar e nutricional. Temos ainda algumas políticas que não traduzem na prática o que é direito, revelando um desacordo entre a política e a moral, que não deveria existir.318
Assim sendo, para as considerações feitas nesta seção acerca do papel do Nutricionista, tenho como pressuposto a participação social, já devidamente reconhecida nas políticas públicas319 como elemento essencial do próprio Estado de Direito, que reflete a ideia mesma de república, e tomo como referências do exercício profissional as diretrizes curriculares para o Curso de Nutrição, estabelecidas pelo MEC, nas quais se estabelece o perfil deste profissional conforme segue:
Nutricionista, com formação generalista, humanista e crítica, capacitado a atuar, visando à segurança alimentar e à atenção dietética, em todas as áreas
316 CF, § 9, p. 109 (grifos do autor).
317 CF, § 9, p. 109. Apesar da ética kantiana ser uma ética da boa vontade, ele mesmo admite a impossibilidade de conhecer as intenções humanas, nesse sentido, poderíamos identificar os atos morais, não suas intenções. 318 No I Apêndice da Paz Perpétua, Kant distingue a política como aplicação da doutrina do direito e a moral como teoria dessa doutrina. Deste modo, o direito seria fundado teoricamente pela moral e aplicado pela política, de forma que não seria possível o desacordo entre moral e política, pois, isso implicaria uma contradição. O acordo entre a política e a moral tem na sua origem aquele estado inicial de violência, quando homem se obriga a sair do estado de natureza e erigir o estado civil. Para isto, há que se admitir a liberdade.
319 A FAO reconhece a participação como princípio para a garantia do DHAA. Cf. Diretrizes Voluntárias, 2005,
do conhecimento em que alimentação e nutrição se apresentem fundamentais para a promoção, manutenção e recuperação da saúde e para a prevenção de doenças de indivíduos ou grupos populacionais, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida, pautado em princípios éticos, com reflexão sobre a realidade econômica, política, social e cultural.320
Uma das habilidades e competências deste profissional para exercer sua profissão, segundo o perfil esperado descrito acima, é a comunicação, “na interação com outros profissionais de saúde e o público em geral”.321 Esta habilidade tem uma função muito importante em toda a discussão deste capítulo. Já vimos como foi importante para o progresso, e agora vou tratar da relação entre comunicação e esclarecimento na nossa atuação profissional. Kant reconhece na comunicação recíproca, “uma vocação natural da humanidade”, especialmente, quando “diz respeito ao homem em geral”.322 O que diz respeito ao homem em geral é o que nos é dado pelo ponto de vista cosmopolita do homem, isto é, do homem como cidadão do mundo. Em qualquer lugar que habite, o homem deverá ter o alimento que garanta sua vida, e é tarefa do Nutricionista declarar ao público, de qualquer lugar do mundo, a alimentação como direito universal.
Parto, então, da consideração do uso do termo “Declaração” (de origem francesa), segundo expõe a historiadora Lynn Hunt, isto é, como um modo público de afirmar algo, de modo solene ou formal. De acordo com a autora, as declarações, “mais do que assinalar transformações nas atitudes e expectativas gerais [...] ajudaram a tornar efetiva uma transferência de soberania”.323 É o que expressa a Declaração francesa, em que “os representantes do povo [...] resolveram apresentar numa declaração solene os direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem”.324 Proclamar a Declaração foi um ato soberano de um povo que se deu uma constituição e isso é o que confere poder àquele que declara.
Não tivemos aqui uma revolução, mas a alimentação foi reconhecida como direito social na nossa Constituição. Entretanto, não deixa de ser lamentável que se possa, ainda nos dias de hoje, no Brasil, afirmar a ausência do povo, especialmente pela fala, que é o modo de afirmar
320 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA/MEC. Conselho Nacional de Educação/CNE. Câmara de Educação Superior/CES. Resolução nº 5/2001, art. 3º, I.
321 MEC/CNE, Resolução nº 5/2001, art. 4º. 322 DC, A 267, p. 92.
323 HUNT, Lynn. A invenção dos direitos humanos: uma história. Tradução de Rosaura Eichenberg. São Paulo: Cia das Letras, 2009, p. 113.
324 Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789). Disponivel em http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/dec1793.htm. Acesso em 18 abr 2015.
sua soberania.325 Fábio Konder Comparato, ao tratar do sentido e alcance do processo eleitoral no regime democrático de representação, assim avalia a condição brasileira:
A partir de 1945, quando o número de votantes nas eleições nacionais cresceu progressivamente, de 16% da população a mais de 50% nos anos 80 em diante, o grande desafio para os grupos ou classes dominantes consistiu, justamente, em admitir o funcionamento do mecanismo eleitoral sem que a maioria do povo assumisse, em razão de sua esmagadora predominância numérica, as rédeas do Estado.326
Temos, portanto, uma condição historicamente desfavorável ao esclarecimento, apesar da nossa constituição atual ser republicana e do nosso progresso jurídico no que se refere à positivação do direito à alimentação. Mas também no caso específico da segurança alimentar, a situação preocupa; basta analisarmos a organização do SISAN (Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional), que requer a participação da sociedade civil organizada na formulação e implementação de políticas, planos, programas e ações com vistas em assegurar o direito humano à alimentação adequada.327
O artigo 8º da LOSAN estabelece os seguintes princípios de organização daquele sistema: I – universalidade e eqüidade no acesso à alimentação adequada, sem qualquer espécie de discriminação; II – preservação da autonomia e respeito à dignidade das pessoas; III – participação social na formulação, execução, acompanhamento, monitoramento e controle das políticas e dos planos de segurança alimentar e nutricional em todas as esferas de governo; e IV – transparência dos programas, das ações e dos recursos públicos e privados e dos critérios para sua concessão. Recordo que Conselhos e Conferências foram criados para possibilitar a
325A respeito do “mutismo brasileiro” ver LIMA, Venício A. de. História, fronteiras conceituais e diferenças. Palestra. Disponível em http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de- debates/_ed749_historia_fronteiras_conceituais_e_diferencas/. Acesso em 30 abr 2015.
326 COMPARATO. Fabio K. Sentido e alcance do processo eleitoral no regime democrático. Estudos Avançados. 14 (38), 2000, p. 135.
327 O Estado do Rio Grande do Norte, embora tenha instalado o Conselho Estadual de SAN, até o momento, não tem uma Política Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional.
participação e o controle social.328
Uma das competências do CONSEA, estabelecidas no art. 2º do Decreto 7272/2006, é “zelar pela realização do direito humano à alimentação adequada e pela sua efetividade”, no entanto, continuamos na condição de infante, apesar de não termos a censura como nos tempos de Kant, e todos, inclusive os filósofos, poderem falar e ser ouvidos, já que a publicidade é também um preceito constitucional. Se o que realmente precisamos é “uma verdadeira reforma do modo de pensar”, e para isso, nada mais se exige do que a liberdade no uso público da razão, então, é por meio desse uso que chegaremos ao esclarecimento, ou seja, se se dá a liberdade de uso da razão, o público se ilumina por si mesmo. Porém, de que se trata esse uso público da razão e em que se distingue do uso privado?
Para responder a isto, começo citando Kant: “Por uso público da própria razão entendo aquele que qualquer um, enquanto erudito, dela faz perante o grande público do mundo letrado. Chamo uso privado àquele que alguém pode fazer da sua razão num certo cargo público ou função a ele confiado.”329
Inicialmente, julgo necessário, para entender a citação acima, esclarecer os grifos do autor, pois, à primeira vista, se pode pensar que o uso público da razão estaria restrito a uma categoria, a dos eruditos, perante um público também restrito, o do mundo letrado; restaria aos que ocupam cargos públicos apenas o uso privado da razão, sendo este limitado a uma comunidade específica, no exercício da profissão. De fato, ao tratar novamente do tema na obra O Conflito das Faculdades, Kant chama de eruditos os mestres públicos, professores das universidades – eruditos corporativos – e os independentes que não fazem parte das universidades e sim de corporações livres do saber, como sociedades e academias, além dos
328 A respeito disso, ver WENDHAUSEN, Águeda. O duplo sentido do controle social: (des) caminhos da
participação em saúde, A autora constata, no caso dos conselhos de saúde, que só a presença dos usuários não
qualifica sua participação, o governo se utiliza da maior parte dos espaços de fala, em função das relações desiguais (quanto às diferenças de escolaridade, profissionalização, status social), caracterizando relações de saber/poder,
sendo as resistências pontuais, frágeis e desarticuladas. Disso, a autora conclui que “a institucionalização da
participação não garante sua efetivação e as práticas que temos podem, contrariamente, voltar-se contra a democracia, tornando-se, o conselho, um braço popular que serve apenas à legitimação das políticas
governamentais” disponível em http://hygeia.fsp.usp.br/cepedoc/trabalhos/Trabalho%20543.htm. Acesso em 13
maio 2015. A situação na saúde é espelho do que acontece nos conselhos gestores em geral respeito da participação e o exercício do controle social em SAN, há vários trabalhos reportando as dificuldades encontradas, tais como fragilidade da organização popular; dificuldade de acesso à educação de qualidade e acesso a informações, baixa representatividade. In: SILVA, Maria Ozanira da Silva e. Participação social nas políticas de segurança alimentar e nutricional. Revista de Políticas públicas. 2005, 9, (2). Os próprios movimentos sociais estão conscientes do problema. Cf. http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/Entidades-apontam-fragilidades-no- controle-social-de-programas/5/3753. Acesso em 10 mai 2014. O melhor exemplo do desacordo entre a vontade popular e as decisões do governo será dado com a discussão sobre alimentos transgênicos no último capítulo. 329 Resposta, A 485, p. 13, grifos do autor.
que vivem num estado de natureza da erudição, chamados amadores.330 Os letrados constituem outra categoria de eruditos, aquela que está investida em um cargo público e, por isso, funcionam como “instrumentos do governo, para um fim peculiar seu (não precisamente para o maior bem da ciência)”.331 A estes técnicos do saber, rigorosamente mantidos na ordem pelo governo para cumprir sua função pública, cujos princípios fundamentais emanam apenas dos sábios, só é exigido “o conhecimento empírico dos estatutos da sua função (portanto, no tocante à prática)”.332 Kant diz ainda que eles não são livres para fazer uso público do saber “porque se dirigem diretamente ao povo, composto de ignorantes (como, porventura, o clero aos leigos) e detêm em parte, na sua especialidade, o poder executivo, se não legislativo”.333
Todavia, é preciso fazer a ressalva, que este uso no Conflito é limitado ao contexto do debate científico entre as faculdades superiores e a faculdade de filosofia.334 Nada impede qualquer erudito de se dirigir por escrito a um público letrado, como parte de um conflito legal com a faculdade filosófica, que a tudo deve examinar segundo os princípios da razão. É neste conflito que a filosofia exerce o seu papel de examinar a verdade de cada ciência.335
É oportuno destacar, entre os dois textos (Resposta e Conflito), uma distinção que será importante para minhas considerações sobre o papel do Nutricionista, pois se coloca no âmbito de uma disputa política com as ciências. No primeiro texto, Kant está especialmente preocupado com as coisas da religião, chegando mesmo a afirmar que “em relação às artes e às ciências os nossos governantes não têm interesse algum em exercer a tutela sobre os seus súbditos”;336 já no segundo texto, torna-se evidente que o governo também quer exercer seu poder sobre as ciências,337 por exemplo, no conflito entre a faculdade de medicina e a faculdade de filosofia, Kant fala sobre o papel do médico, o qual, como um instrumento do governo, não é livre para
330 CF, p. 19-20. 331 CF, p. 20. 332 CF, p. 20. 333 CF, p. 20.
334O termo “Streit” (conflito), segundo uma pesquisa no léxico da época, aparece também na expressão técnica
“Streitsschriften”, que quer dizer escritos polêmicos, referindo-se a uma tipologia de escritos em busca da verdade
ou falsidade de uma matéria que foi exposta por outrem, e que é demonstrada publicamente seguindo apenas as regras da razão. Tratava-se, portanto, de um tipo específico de debate científico. Cf. DI DONATO, Francesca.
Università, scienza e política nel conflitto dele facoltà di Kant. 4. Il “conflitto” tra le facoltà: principi e condizioni.
Bolletino telematico di filosofia política. Disponível em http://btfp.sp.unipi.it/dida/streit/. Acesso em 08 abr 2015. 335 O termo usado para designar aquele confronto necessário entre as faculdades superiores e a faculdade inferior
– é transposto por Kant também para o âmbito político, quando ele diz que as faculdades superiores, como ala direita do parlamento da ciência, representariam o partido do governo, e a faculdade de filosofia seria o “partido