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3. Maddi Tazminatın İndirilmesine Etki Eden Haller

3.4. Diğer Haller

3.4.8. Özel Durumlar

3.4.8.2. Özel Hukuk Cezaları

O século XX foi marcante para o debate sobre o problema alimentar no mundo, seja pelo acúmulo do conhecimento na área que teria iniciado já com as descobertas de Lavoisier (1743-1794) – e assim possibilitado o nascimento de uma Ciência da Nutrição –, seja pela experiência das duas grandes guerras que revelou ser a alimentação não apenas uma questão

social e econômica, mas de segurança nacional.168

No início dos anos 30, ao mesmo tempo em que avançava o conhecimento científico sobre a biologia humana que permitiu conhecer a fundo a desnutrição, economicamente, agricultores dos países industrializados lidavam com o problema do excedente alimentar, chegando-se ao paradoxo em que:

os especialistas em nutrição humana alertavam sobre a necessidade de aumentar as disponibilidades alimentares simultaneamente ao fato de que os economistas recomendavam reduzir a produção agrícola para resolver o problema dos excedentes invendáveis.169

Essa situação é reveladora de como a relação entre ciência e política é fundamental na abordagem ética que precisa ser feita sobre a solução dada aos problemas alimentares, sobretudo, quando se busca garantir um direito humano.170

No mesmo período, também no Brasil, o tema “alimentação” veio a se tornar um novo campo de saber científico171 – a “nutrologia”, que passou a ser “nutrição” –, a partir do desenvolvimento de várias pesquisas que originaram duas vertentes principais de estudo,172 além da criação de cursos nas escolas médicas que ajudou na formulação de políticas públicas. Dessa articulação entre ciência e economia resultou a política que instituiu o salário mínimo, por meio da lei 185/36,173 embasada nos estudos que mostravam a relação entre renda e

168 Não que em épocas anteriores o mundo tenha desconhecido este mal, sobretudo, sua forma coletiva. Segundo

registros bíblicos, a fome remonta aos tempos de Abraão. Cf.

http://www.bibliacomentada.com/Busca.aspx?Palavra=fome#axzz3Tp43xSVf. Acesso 08 mar 2015. 169 CHONCHOL, 2005, op. cit., p. 33.

170 SEN registra que a economia teve duas origens relacionadas à política, mas diversamente ligadas à ética. A

respeito da “origem ética” da economia, de fonte aristotélica, ver SEN, Amartya. Sobre ética e economia. Tradução

de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras,1999, p.19 et seq.

171 Sobre uma reconstrução dos estudos no campo da nutrição no Brasil, que aponta seu início ainda no século XIX, ver VASCONCELOS, Francisco de Assis Guedes de; BATISTA FILHO, Malaquias. História do campo da Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva no Brasil. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro , v. 16, n. 1, p. 81-90, Jan. 2011.

172 Uma vertente priorizou estudos de caráter predominantemente biológico, da utilização de nutrientes, enfocando uma fisiologia da nutrição no âmbito clínico individual; a outra vertente voltou-se para os aspectos sócio- econômicos no âmbito populacional, englobando a produção e distribuição de alimentos, o que viria a constituir o campo da alimentação e nutrição em saúde coletiva. Cf. VASCONCELOS, Francisco de A.G. de. Tendências históricas dos estudos dietéticos no Brasil. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.14, n.1, p.197-219, jan.-mar. 2007.

173A lei estabelece em seu Art. 1º que “Todo trabalhador tem direito, em pagamento do serviço prestado, num salário mínimo capaz de satisfazer, em determinada região do Paiz e em determinada época, das suas necessidades

normais de alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte”. CF. http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1930-1939/lei-185-14-janeiro-1936-398024-publicacaooriginal-1- pl.html. Acesso em 11 jan 2015. A lei estabelecia uma ração mínima, composta por 12 itens alimentares, segundo a região do trabalhador.

alimentação, cujo precursor foi o médico pernambucano Josué de Castro174.

Os estudos de Castro trouxeram à luz o tabu da fome.175 Para ele, a fome tinha um fundamento moral: “tanto a fome de alimentos, como a fome sexual, é um instinto primário e por isso um tanto chocante para uma cultura racionalista como a nossa, que procura por todos os meios impor o predomínio da razão sobre os instintos na conduta humana”.176 A fome não era discutida; considerada uma fatalidade, nada se podia fazer a respeito. O grande responsável por essa visão fatalista foi, sem dúvida, Thomas Malthus (1766-1834), cuja obra Ensaio sobre a população (1798) explicava a fome como uma forma de regulação demográfica, uma vez que a população crescia mais do que seus recursos alimentares. Era, portanto, a necessidade, como lei da natureza, que trazia a miséria humana e a fome para estabelecer limites e garantir o equilíbrio entre o crescimento da população e a produção de alimentos. Malthus não poderia defender um direito humano à alimentação que exigisse intervenção do Estado para garantir alimento a todos; ao contrário, ele considerava repugnantes as leis sociais, o pobre precisava saber que eram as leis da natureza – como leis de Deus – que o condenavam à miséria.

Por outro lado, Malthus admitiu, em seu ensaio, que: “É uma verdade reconhecida pela filosofia que uma teoria verdadeira sempre será confirmada pela experiência” e que “uma teoria não verificada na prática não pode ser razoavelmente assegurada como provável, muito menos como correta, até que todos os argumentos contra ela tenham sido sabiamente confrontados e refutados clara e firmemente”. 177 A experiência confrontou Malthus e o derrotou, dado que os números atuais sobre a fome e a produção de alimentos não confirmaram sua teoria.

Segundo Ziegler, “depois de 2005, a curva global das vítimas da fome cresceu de forma catastrófica, enquanto o crescimento demográfico, em torno de 400 milhões de seres a cada cinco anos, permaneceu estável”.178 A população onde é maior a prevalência de fome não se encontra nas regiões mais populosas: temos 24% de famintos na população da Ásia – região mais populosa – e 34% na África subsaariana. A FAO reconheceu que a produção de alimentos é suficiente para alimentar 12 bilhões de pessoas, em um mundo com pouco mais da metade

174 Mesmo assim, o enfoque que prevaleceu na orientação dos programas destinados ao enfrentamento dos graves problemas alimentares, foi aquele que explicava o problema a partir da falta de educação, ou seja, era preciso ensinar o povo a comer de modo correto. Cf. VASCONCELOS & BATISTA FILHO, 2011, op. cit.

175 Outro tabu apontado por Castro, fundamental na solução do problema da fome, foi a reforma agrária. Não pode existir direito à alimentação sem direito à terra. Nenhuma sociedade pode viver em paz, se existe fome entre os seus, e foi isso o que tornou possível usar a fome como arma de guerra. Cf. CASTRO, Josué de. Geografia da

Fome: o dilema brasileiro: pão ou aço. 10ª ed. Rio de Janeiro: Antares, 1984.

176 CASTRO, 1984, op. cit. p. 30.

177 MALTHUS, Thomas Robert. Ensaio sobre a população. Tradução Antônio Alves Cury, São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 244.

disso.179 Portanto, a fome permanece existindo num mundo de abundância de alimentos.180 Recordo que essa realidade já era conhecida pela FAO nos anos 70, afirmada na primeira Cúpula Mundial da Alimentação (CMA) e reafirmada nos anos 90, quando se reconheceu na pobreza a causa da fome (Segunda CMA).

Para onde e para quem vai tanto alimento produzido, se ainda temos tanta gente sem acesso? Segundo dados do Relatório (2008-2014) de Olivier de Shutter, relator especial da ONU para o DHAA, as perdas alimentares no campo alcançam de 20 e 40% da safra em potencial nos países em desenvolvimento, sendo de 12% a até 50%, as perdas de frutas, legumes e hortaliças; outro destino da produção agrícola de alimentos é produzir ração animal: segundo as estimativas, em função do aumento do consumo de carne, até metade do século, metade da produção mundial de cereais será destinada a isso; a perda de calorias da alimentação animal com cereais representa a necessidade calórica anual para mais de 3,5 bilhões de pessoas; outro importante destino da produção de alimentos, além do lixo e da ração animal, é a produção de biocombustíveis. 181

Isto posto, ainda que pudesse ter sido razoável, matematicamente falando, aceitar o raciocínio de Malthus, para a sua época, sobre a progressão geométrica do crescimento populacional e a progressão aritmética da produção de alimentos, é inadmissível técnica e eticamente que ainda hoje o pensamento malthusiano possa estar presente, quando se tenta “culpar” a reprodução dos pobres pelos mais graves problemas do mundo, como a fome e a destruição da natureza, sobretudo, porque temos alimentos suficientes para alimentar bem mais do que a população da Terra.

Entretanto, se Thomas Malthus teve grande aceitação entre a burguesia europeia de sua época que encontrou na sua teoria uma justificativa para a exploração que promovia, especialmente, em outros continentes, como a América Latina, a Ásia e a África – exatamente os mais afetados pela fome –, não é de se espantar que, em tempos de globalização e com a

179 ONU E/CN.4/2001/53. The right to food. Jean Ziegler. Disponível em: <http://www.righttofood.org/wp- content/uploads/2012/09/ECN.4200153.pdf>. Acesso em 05 fev 2015.

180 A Monsanto, porém, líder na produção de sementes transgênicas, insiste no discurso da falta de alimentos decorrente do crescimento populacional. Cf. http://descubra.monsanto.com.br/crescimento-populacional/. Acesso

em 20 mai 2015. Segundo Andrioli, “As tentativas tecnocráticas de forçar a sociedade a usar uma técnica inefetiva

estão fundamentadas ideologicamente, seja através do medo neomalthusiano (de que futuramente faltaria comida

para alimentar uma crescente população mundial) ou através da crença nos milagres da técnica”. ANDRIOLI,

Antônio Inácio. O mito da neutralidade da ciência. Revista Espaço Acadêmico, nº 96, maio de 2009, p. 2. 181 DE SHUTTER, Olivier. Agroecologia e o direito humano à alimentação. Relatório. Tradução Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (CAISAN). Brasília, DF: MDS, 2012, p. 14-15. A respeito disso, vale a pena ler também o capítulo específico sobre a segurança alimentar no Brasil, intitulado “A maldição

da cana-de-açúcar”, na obra de Ziegler, onde o autor critica a afirmação do Presidente Lula de que não havia

motivos para se inquietar com a expansão do Proálcool, pois: “o Proálcool nada tem a ver com a alimentação. A cana não é comestível” (2013, op. cit., p. 258).

necessidade incessante de “novos mercados”, a ideia de responsabilizar os pobres por sua própria miséria seja retomada para justificar abusos, em nome da sobrevivência de toda a humanidade. Como diz Ziegler: “Admirável Malthus! Provavelmente sem pretendê-lo de forma deliberada, ele libertou os ocidentais de sua má consciência [...]. Naturalizando o massacre, creditando-o à necessidade, Malthus livrou os ocidentais de sua responsabilidade moral.”182

Defender Malthus ainda hoje é absolutamente incompatível com tudo o que foi apresentado aqui sobre o direito à alimentação na configuração do direito internacional, no qual se espelha o direito brasileiro. Na verdade, a fome constitui um obstáculo ao exercício dos direitos humanos, e se tais direitos são naturais porque tem por fundamento a dignidade da pessoa humana – como afirmado em todos os documentos internacionais após a DUDH –, a fome não pode ser natural, porque não afeta a todos igualmente.

Diante disso, devemos nos orgulhar de poder questionar tanto Malthus como a tese das raças,183 graças aos estudos sobre a fome de Josué de Castro que mostraram que não era a necessidade, Deus ou a natureza, a causa deste flagelo, mas a ação humana. Com Josué de Castro, a humanidade pode retomar sua responsabilidade moral, reconhecendo que a fome pode e precisa ser vencida. Por isso, Castro falou sobre a fome,184 não como fenômeno natural e inevitável, mas como a expressão biológica de males sociológicos, produto da exploração colonial imposta à maioria dos povos. Em resposta a Malthus,185 Josué de Castro nos diz: “as dificuldades a vencer, ao contrário do que afirma a tese malthusiana, não são de ordem técnica, são dificuldades de natureza política, de uma complexidade bem maior”.186 Não se justifica, portanto, que um profissional Nutricionista se declare um mero ‘técnico’, sem admitir o seu papel político (e moral) na defesa do DHAA.

Vimos que a experiência europeia do horror da fome pode ter alterado a consciência do problema, antes considerado resultado da explosão demográfica entre os pobres. Mesmo após o fim da guerra, a situação permanecia devastadora, com a destruição das nações e a redução da área cultivada e da mão-de-obra. Esse caos possibilitou às “nações unidas” iniciarem uma

182 ZIEGLER, 2013, op. cit. p. 108.

183 Segundo essa tese, índios, negros e caboclos eram preguiçosos, pouco inteligentes por causa da raça. Josué escreveu, para derrubar essa tese, Alimentação e raça, afirmando que os males que afetavam essas pessoas tinham sua origem na fome, e não na raça.

184 Fome (Limós) é filha da Discórdia (Éris). Cf. BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário mítico-etimológico da

mitologia grega. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 449.

185 Sobre a resposta de Josué de Castro a William Vogt – que publicou, em 1948, a obra intitulada O caminho da

sobrevivência, bíblia dos neomalthusianos – ver CASTRO, Josué de. Malthus e o caminho da Perdição. In: Ensaios de biologia social. São Paulo: Brasiliense, 1968, p. 127-133.

186 CASTRO, Josué de. Fome um tema proibido: últimos escritos de Josué de Castro. Anna Maria de Castro (org.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 59.

guerra contra a fome, reconhecendo a alimentação como direito de todos, e negando sua inexorabilidade, para o que era necessário romper o tabu da fome. Na avaliação de Ziegler, os europeus “tornaram-se mais receptivos às análises de Josué de Castro. Rejeitando a ideologia malthusiana da lei da necessidade, eles convictamente se engajaram, então, na campanha contra a fome [...].”187

Não podemos dizer que a campanha foi um sucesso, a julgar pelos vergonhosos dados mundiais, que revelam a persistência de um grave problema cuja solução é plenamente possível. A fome passou de tabu a escândalo moral. E pior, mesmo quando se aceita discutir o problema e se assume o compromisso político de escolher a fome como prioridade,188 é possível ainda persistir no desrespeito ao direito à alimentação. A distribuição dos recursos do orçamento público brasileiro é um retrato desta contradição: enquanto o percentual do PIB destinado ao pagamento de juros da dívida interna gira em torno de 40%, os percentuais destinados à saúde, agricultura, assistência social e direitos de cidadania – somados – giram em torno de 10%.189 O exemplo brasileiro mostra a tendência, já percebida por Josué de Castro sobre o tabu da fome e seu enfrentamento, em que:

ao imperialismo econômico e ao comércio internacional a serviço do mesmo, interessava que a produção, a distribuição e o consumo de produtos alimentares continuassem a se processar indefinidamente como fenômenos exclusivamente econômicos – dirigidos e estimulados dentro dos seus interesses econômicos – e não como fatos intimamente ligados aos interesses da saúde pública.190

Como resultado do predomínio da visão econômica desconectada do direito, não apenas a fome permanece no mundo, como agora também a alimentação – por ser inadequada – se tornou um problema de saúde pública no Brasil e no mundo e, igualmente, uma questão moral, dado que constitui uma violação da dignidade humana.

No mundo da economia global, o alimento não é um componente do direito à

187 ZIEGLER, 2013, op. cit., p. 137

188“Minha presença aqui, em mais esta importante reunião, renova meu compromisso e o do meu governo com

aquela que tem sido nossa primeira prioridade: a segurança alimentar e a erradicação da fome”. (Presidente Lula,

na abertura da Cúpula Mundial da Alimentação, Roma, 2009). Disponível em http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/ex-presidentes/luiz-inacio-lula-da-silva/discursos/2o-mandato/2009/2o- semestre/16-11-2009-discurso-do-presidente-da-republica-luiz-inacio-lula-da-silva-na-sessao-de-abertura-da- cupula-mundial-sobre-seguranca-alimentar/view. Acesso em 01 mar 2015.

189 Ver a esse respeito os estudos feitos pela auditoria cidadã, disponibilizados no site da entidade. http://www.auditoriacidada.org.br/e-por-direitos-auditoria-da-divida-ja-confira-o-grafico-do-orcamento-de- 2012/. Acesso em 05 jan 2015.

alimentação, mas uma commodity. Em um de seus estudos mais recentes, a FAO191 repete aquela afirmação de Josué de Castro, no título da publicação: Economic growth is necessary but not sufficient to accelerate reduction of hunger and malnutrition, isto é, para reduzir a fome e a má nutrição não basta redistribuir a renda, embora isso seja necessário, mas é preciso redistribuir a terra e que o “mercado mundial” considere os produtos agrícolas algo além de meras mercadorias.

Apresentei a importância dos estudos sobre a fome no início do século passado, mas com o surgimento das políticas de abastecimento alimentar, incentivos agrícolas e programas sociais na área, os estudos evoluíram para considerações também acerca do acesso e da produção sustentável; neste início de século XXI, os problemas decorrentes do consumo de alimentos inadequados revelaram outra realidade, em que não mais se trata de garantir alimento/comida para todos, mas sim alimentação saudável ou “comida de verdade”. A relação entre economia e alimentação faz-se sentir de modo cada vez mais preocupante, e o confronto que se dá, nos dias de hoje, exige uma reflexão ética sobre as escolhas alimentares visando à garantia do direito já conquistado à alimentação saudável, não apenas do ponto de vista individual, mas também do ponto de vista das políticas públicas, quando estas devem optar entre atender os interesses sociais ou aqueles econômicos.

Há, portanto, duas preocupações: do ponto de vista das políticas públicas, que envolve o debate ético sobre a ação estatal, na garantia do DHAA; e do ponto de vista individual, quando se pensa nas escolhas moralmente corretas que deve fazer o cidadão, sendo que nesse caso, há também necessidade da intervenção do Estado, mas no sentido de possibilitar o exercício dessa autonomia por meio da garantia de condições de vida cidadã, em que se desfrute da liberdade de escolha. O profissional Nutricionista deve enfrentar na sua prática as duas questões.

É evidente que slogans do tipo “quem tem fome tem pressa”,192 ou a expressão food first,193 e programas como o Fome Zero tem forte apelo público para a dimensão da segurança alimentar que implica estar livre da fome, no entanto, diante do perfil nutricional contemporâneo, torna-se imperativo buscar a realização do direito à alimentação em sua forma plena, ou seja, garantir que todos tenham o que comer e que essa alimentação acessível a todos

191 FAO, WFP and IFAD. 2012. The State of Food Insecurity in the World 2012. Economic growth is necessary but not sufficient to accelerate reduction of hunger and malnutrition. Rome, FAO.

192 Esse foi o slogan da Campanha da Ação Cidadania contra a fome e a miséria e pela vida, desencadeada em 1993, pelo Movimento pela Ética na Política, liderado pelo sociólogo Herbert de Souza (Betinho).

193 Food first é um movimento que começou a partir dos trabalhos de Frances Moore Lappé e Joseph Collins, para atuar contra as injustiças que causam a fome. O movimento já publicou mais de 60 livros e inúmeros artigos expondo as causas da fome, ajudando os movimentos a buscar soluções. Para maiores informações ver http://foodfirst.org/.

seja adequada e saudável. A preocupação com o “adequado” e “saudável” tornou-se indispensável, porque o perfil nutricional da população brasileira começou a se modificar, em um fenômeno que ficou conhecido como “transição nutricional”, processo inserido na transição epidemiológica e associado à transição demográfica por que passou o país nas últimas três décadas, que levou à redução das chamadas doenças carenciais e ao aumento das doenças causadas pelos excessos de gordura, sódio, açúcar e alimentos processados revelando, a tendência de aumento da obesidade e excesso de peso em todas as faixas etárias. 194

A OMS recomenda,195 para a prevenção da obesidade e de outras doenças associadas à alimentação, aumentar o consumo de alimentos in natura, o que inclui consumo de frutas, legumes e verduras, cereais integrais e oleaginosas, reduzir o consumo de produtos industrializados, gorduras, açúcares livres e sódio, além da manutenção do balanço energético. No Brasil, o Ministério da Saúde reconhece que “O modo de viver da sociedade moderna tem determinado um padrão alimentar que, aliado ao sedentarismo, em geral não é favorável à saúde da população”.196 No combate à fome, já enfrentamos o pior, e o Brasil é referência internacional, segundo o mais recente Relatório da FAO sobre a insegurança alimentar do mundo, no qual são citadas, “As experiências exitosas como transferência de renda, compras diretas para aquisição de alimentos, a capacitação técnica de pequenos produtores, entre outras, estão sendo transferidas para outros países”.197

Contudo, não podemos dizer que houve uma realização “progressiva” do DHAA, como apontam os estudos desde os anos 90, os quais já indicavam a pouca expressão da fome no

194 Para conhecer este processo, diversos estudos podem ser consultados: MONTEIRO, Carlos Augusto; MONDINI Lenise. Mudanças no padrão de alimentação na população urbana brasileira (1962-1988). Revista de

Saúde Pública, v. 28, n. 6, p. 433-439, dez. 1994; MONTEIRO, Carlos Augusto et al. Da desnutrição para a