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KISIT SAYISI

4.8. Tavlama Benzetimi

A elaboração da Constituição deu-se num momento histórico de profunda riqueza político-conjuntural, seja na ordem interna quanto na ordem internacional. A afirmação de direitos civis e políticos, em especial na América Latina a partir dos processos de redemocratização que atravessaram parte dos seus países, por exemplo, serviu de intenso estímulo à elaboração doutrinária em torno das questões políticas que os ventos da década de 1980 anunciavam.

“No plano da filosofia política, o tema da cidadania sintetiza as demandas dos conceitos centrais da filosofia política nos anos 70 – a justiça – e nos anos 80 – a comunidade, revelando mais uma vez seu duplo caráter. Nesse plano, observa-se ainda uma tendência para ampliar as reflexões sobre o caráter político da cidadania: de um lado, desenvolvem-se análises das relações entre cidadania e identidade, em que se reexamina a cidadania como vínculo criado pelos Estados-Nação a fim de delimitar aqueles que estariam sujeitos a sua ordem; de outro, a cidadania é analisada como condição da democracia. Neste último ponto, aparece a preocupação em superar a aceitação passiva da cidadania,

principalmente por meio da participação política, gerando uma cooperação mais acentuada entre os cidadãos. Os meios estariam no desenvolvimento da democracia participativa, no ‘republicanismo cívico’ – que concebe a participação política como um valor em si mesmo – ou na ‘sociedade civil’, cujas associações podem ensinar as virtudes cívicas aos cidadãos.”127

Assim, ancorada na necessidade de atribuir um conteúdo material ao conceito de cidadania, a Constituição Federal de 1988 inaugura seu texto normativo afirmando a instituição do Estado Democrático de Direito, explicitando que o fundamento do poder soberano pertence ao povo, devendo ser exercido diretamente ou por meio de representantes. Assim prescreve:

“Art. 1º. A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

(...) Parágrafo Único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos, ou diretamente, nos termos desta Constituição.”128

Pela primeira vez na história constitucional brasileira, a prerrogativa de exercer o poder soberano é compartilhada entre o seu titular e os representantes eleitos, ainda que em outras Cartas houvesse alguma referência à adoção dos instrumentos de deliberação semidireta das decisões estatais. É constituída a forma semidireta de governo, instaurando uma ordem política absolutamente nova para a cidadania brasileira.

127 MAUÉS, Antonio Gomes Moreira. Poder e democracia: o pluralismo político na

Constituição Federal de 1988. Porto Alegre: Síntese, 1999, p. 91-2.

Neste sentido, é perfeitamente possível afirmar que o constitucionalista de 1988 fez distinta escolha pela democracia participativa enquanto forma de governo do Estado brasileiro. Tal opção irradia sua força normativa para todos os entes federados, impondo o dever de compartilhar o poder entre governos e governados.

José Afonso da Silva sustenta posição contrária. Após discorrer sobre a democracia e sua forma de exercício, entende que o tratamento destinado aos partidos políticos significa uma opção do constituinte pátrio pelo modelo de democracia indireta:

“Podemos concluir este capítulo com a observação de que os

constituintes optaram por um modelo de democracia representativa que tem como sujeitos principais os partidos

políticos, que vão ser os protagonistas quase exclusivos do jogo político, com temperos de princípios e institutos de participação direta dos cidadãos no processo decisório governamental. Daí decorre que o regime assume uma forma de democracia participativa, no qual encontramos participação por via representativa (mediante representantes eleitos através de partidos políticos, arts. 1º, parágrafo único, 14 e 17; associações, art. 5º, XXI; sindicatos, art. 8º, III; eleição de empregados junto aos empregadores, art. 11) e participação por via direta do cidadão (exercício direto do poder, art. 1º, parágrafo único; iniciativa popular, referendo e plebiscito, já indicados; participação de trabalhadores e empregadores na administração, art. 10, que, na verdade, vai caracterizar-se como uma forma de participação por representação, já que certamente vai ser eleito algum trabalhador ou empregador para representar as respectivas categorias, e, se assim é, não se dá participação direta, mas por via representativa (...)).”129 (destaque acrescido)

129 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 19. ed. rev. atual. São

Incorre em erro o insigne constitucionalista. Sendo correto afirmar que a existência de instrumentos de participação popular, per se, já configura o modelo semidireto de democracia, tão precisa é a assertiva do Parágrafo Único, art. 1º, ao assegurar a participação direta do povo na administração do poder soberano. Não implica, portanto, na afirmação de um modelo dúbio, que, em essência é indireto, limitando-se a autorizar a deliberação popular quando for conveniente aos titulares de mandatos representativos.

A Constituição atual não olvidou tratar com primor a representação política, reservando todo o Título II, Capítulo V, para cuidar dos partidos políticos. Foi-lhes assegurada a liberdade de formação, bem como autonomia para definir sua estrutura interna. As atividades partidárias foram limitadas àquelas que afrontam a soberania nacional, a ordem democrática, o pluralismo partidário, os direitos fundamentais, estando, ainda, proibidos de constituírem-se em organizações paramilitares e de receberem recursos financeiros de entidades ou governos estrangeiros ou de subordinação a estes. A importância atribuída aos partidos políticos, pela Constituição de 1988, reforça o dever de observância ao princípio do pluralismo político, dotando-lhe de materialidade normativa. Por se tratar de uma democracia semidireta, a existência dos instrumentos elencados no art. 14 já faculta o seu exercício, desde que sejam atendidos os requisitos estabelecidos pela própria Constituição, ou em legislação ordinária, cujo papel será regulamentá-los, jamais amesquinhá-los.

Ademais, entendido o direito à participação como direito fundamental, e ancorado no que preceitua o art. 5º, § 1º da mesma Constituição (“As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm

aplicação imediata”130), tem-se que a deliberação popular goza de auto- aplicabilidade. Portanto, não se assegura plausibilidade a qualquer entendimento que limite a prerrogativa de adoção dos instrumentos constantes do art. 14, bem como dos demais mecanismos de oitiva da cidadania esparsos ao longo do corpo constitucional.

3.3. DOS INSTRUMENTOS CONSTITUCIONAIS DE PARTICIPAÇÃO