CFP Azalma
5. SONUÇ VE ÖNERİLER
Com amparo no art. 14, tem-se como mecanismos de participação direta o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular. Ressalta-se que, conforme já indicado anteriormente, esses não representam os únicos instrumentos de decisão popular, podendo ser encontrados outros ao longo do próprio Texto constitucional ou, ainda, criados por disposição política dos governos.
Pelo Texto constitucional, o plebiscito será adotado por decisão exclusiva do Congresso Nacional (art. 49, XV, CFB) e será obrigatório para a deliberação de criação de novos Estados ou Município. Tem-se, portanto, uma deliberação discricionária dos congressistas, que deverão atentar à conveniência e relevância das matérias postas à apreciação do Poder Legislativo.
De forma bastante abreviada, a Constituição limitou-se a tratar do referendo ao explicitar, apenas, que a sua convocação será de competência exclusiva do Congresso Nacional.
No que tange à iniciativa popular, a Constituição foi mais cuidadosa, prescrevendo, em seu art. 27, § 4º, que a lei disporá sobre a utilização do presente mecanismo no processo legislativo estadual. Também, em seu art. 61, § 2º, estabeleceu a forma de adoção desse instrumento. Assim, a Câmara dos Deputados apreciará o projeto de lei que estiver subscrito por, no mínimo, um por cento do eleitorado nacional, distribuído pelo menos em cinco Estados, com não menos de três décimos por cento dos eleitores de cada um deles.
Efetivamente, o que se vivenciou na prática constitucional brasileira pós-1988 foi uma democracia participativa em recesso. Elevada à qualidade de norma constitucional, diretriz da atuação dos governos, a participação popular não obteve significante avanço no desiderato de democratizar as deliberações estatais.
Além do plebiscito de 1993, cuja realização já estava estabelecida no próprio Texto promulgado em 5 de outubro de 1988, foi realizado apenas um único referendo, em 23 de outubro de 2005. Tal consulta destinou-se a deliberar acerca da proibição do livre comércio de armas de fogo e munição, cláusula pertencente ao Estatuto do Desarmamento (Lei 10.826, de 22 de dezembro de 2003). Todavia, útil ressaltar que tal consulta ocorreu mais pela indisposição do Congresso Nacional em enfrentar o lobby das indústrias armamentistas, do que pela intenção dos congressistas em auscultar a opinião da nação brasileira.
A própria regulamentação constitucional do art. 14, III, presente no art. 61, § 2º, cria obstáculo à adoção da iniciativa popular. Calcula-se que sejam necessárias mais de 1.200.000 assinaturas, posto que, atualmente, o
número de eleitores chega a quase 126 milhões.131 Para um país de dimensão continental é, no mínimo, irrisório imaginar a participação ativa da cidadania na elaboração permanente de iniciativas legislativas! De igual modo, atribuir a prerrogativa de autorizar plebiscitos e referendos exclusivamente ao Congresso Nacional significou um grande entrave à atuação cidadã.
Além dos instrumentos de participação devidamente expressos no art. 14, é possível encontrar, ao longo do corpo constitucional, outros mecanismos de participação popular. Por esses caminhos, não é possível afirmar que a natureza democrática participativa da Carta de 1988 é negada por inteiro. Evidente que a adoção desses mecanismos não representa o avanço desejado, posto que as grandes deliberações estatais continuam distantes do povo. Todavia, são indispensáveis ao amadurecimento da cultura político-democrática da nação.
Assim sendo, a Constituição estabelece, em seus arts. 10 e 11, a gestão participativa das empresas, incorporando as demandas dos trabalhadores nos colegiados dos órgãos públicos e instituindo representação classista nos espaços de deliberação.
No que tange à fiscalização das contas públicas, o art. 31, § 3º, assevera que a população terá acesso às contas dos Municípios. De igual modo, o art. 74, § 2º, estabelece que “qualquer cidadão, partido político,
131 O Brasil possui 125.913.134 eleitores devidamente habilitados a votar nas últimas eleições
presidenciais, realizadas em outubro de 2006, segundo informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE – Tribunal Superior Eleitoral. Consulta de resultados eleitorais: quadro geral. Disponível em: < http://www.tse.gov.br/internet/index.html>. Acesso em 13 abr. 2007).
associação ou sindicato é parte legítima para, na forma da lei, denunciar irregularidades ou ilegalidade perante o Tribunal de Contas da União”132.
Por força da Emenda Constitucional nº 19, de 4 de junho de 1998, o art. 37, § 3º, passou a prescrever a possibilidade de participação dos usuários no controle da administração pública, direta e indireta, a fim de garantir que sejam realizadas reclamações relativas à prestação dos serviços públicos, o acesso a registros administrativos e a forma de representação contra o exercício negligente ou abusivo de cargo, emprego ou função no âmbito da administração pública.
O exemplo citado é bastante ilustrativo na medida em que demonstra que, por força de emenda à Constituição, é possível promover alterações positivas no sentido de aprimorar os mecanismos de participação popular. E, desde que não seja desvirtuada a essência constitucional, protegida pela petrificação de certas normas, é possível criar novos instrumentos constitucionais de deliberação popular.
A natureza democrática da Constituição Federal, cuja força normativa se impõe sobre os demais ordenamentos jurídicos, fez-se presente na legislação ordinária que cuidou de regulamentar os art. 182 e 183 da Carta Política. Assim, a Lei 10.257, de 10 de julho de 2001, denominada Estatuto da
Cidade, prescreve, em seu art. 2º, II e III, que a política urbana terá como
diretrizes de execução, dentre outras, a “gestão democrática por meio da participação da população e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade na formulação, execução e acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano” e se realizará
132 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. cit., p.
mediante a “cooperação entre os governos, a iniciativa privada e os demais setores da sociedade no processo de urbanização, em atendimento ao interesse social” 133.
Outros exemplos podem ser extraídos do corpo da Constituição, a exemplo dos arts. 194, VII, 198, II, 204, II, 206, VI. Ainda, podem ser reveladas novas formas de atuação cidadã, posto que estejam implícitos no Texto Maior. De igual modo, como forma de garantir a concretização da democracia participativa como instrumento de afirmação dos ideais que fundam e fundamentam o Estado Democrático de Direito brasileiro, torna-se imperiosa a criação de novos instrumentos de participação popular ou a facilitação da adoção dos já existentes, tornando-os acessíveis e rotineiros.
3.4. DA LEGISLAÇÃO ORDINÁRIA À ALTERNATIVA DEMOCRÁTICA: