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3.2. Araç Rotalama Problemi Türleri

3.2.4. Kısıtların durumuna göre araç rotalama problemleri

O regime político em que governantes e governados se confundem no exercício do poder estatal, excluindo intermediários entre a vontade do povo, titular do poder soberano, e as decisões políticas do Estado é chamada de Democracia Direta. Esse foi o modelo utilizado nas ágoras atenienses, em que a população reunia-se para o direto e imediato exercício do poder político do Estado, elaborando normas, editando leis ou revogando as já existentes, dentre outras prerrogativas públicas.

Salienta Bonavides que esse modelo de organização estatal só foi possível na Grécia antiga graças à estrutura social dos seus povos. Uma vez possuidor da mão-de-obra escrava, estava o cidadão grego livre para dedicar-se aos seus interesses públicos, compondo ativamente o cotidiano político. Por outro lado, havia o comprometimento com o fazer política como forma de salvaguardar os seus interesses, que, em última análise, seria a preservação da própria cidade grega.

“Tais condições faziam com que o cidadão da Grécia visse sempre no ordenamento estatal mais do que a contemplação ou prolongamento de sua vida individual: visse no Estado o dado mesmo condicionante de toda a sua existência.”74

O modelo direto de democracia pugnava pela igualdade de todos os cidadãos perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Ressalta-se, todavia, que o conceito de cidadania grego era bastante limitado, distanciando- se da perspectiva moderna que ampliou (e continua a ser ampliada) a definição dos que possuem o status de cidadão. Ainda, havia uma clara preocupação pela abolição de qualquer ordem hierárquica que privilegiasse determinados indivíduos em detrimento de quaisquer outros. As funções públicas eram destinadas ao pleno exercício de qualquer cidadão, independente de suas habilidades, posses ou prerrogativas.

Por fim, como característica do modelo direto de democracia experimentado na Grécia antiga, tinha-se a palavra como elemento essencial para o exercício da política, garantindo a todos liberdade de opinião e expressão. A ágora era, efetivamente, um espaço público onde se concretiza a

experiência do diálogo entre os sujeitos democráticos, sem negar-se o conflito como elemento essencial para as deliberações públicas, diretamente emanadas do próprio poder soberano.

A afirmação do modelo de democracia direta encontra em Jean- Jacques Rousseau seu principal defensor, fundamentando a sua posição a partir da oposição enfática ao desprezo pelos negócios públicos em detrimento dos interesses privados e, conseqüentemente, à idéia de representação. Para o celebrado filósofo, o exercício do poder soberano só se efetiva diretamente, livrando-o de qualquer forma de intermédio entre governo e povo.

“Tão logo o serviço público deixa de ser a principal atividade dos cidadãos, ao qual preferem servir com sua bolsa do que com sua pessoa, já o Estado se acha à beira da ruína. (...) Quando alguém diz, referindo-se aos negócios do Estado: Que me importa?, pode- se ter certeza que o Estado está perdido. (...) A soberania não pode ser representada pela mesma razão que não pode ser alienada; consiste essencialmente na vontade geral, e a vontade não se representa: ou é a mesma, ou é outra – não existe meio-termo. Os deputados do povo não são, pois, nem podem ser os seus representantes; são simples comissários, e nada podem concluir definitivamente. Toda lei que o povo não tenha ratificado diretamente é nula, não é lei.” 75

A principal preocupação de Rousseau centra-se na excessiva influência dos interesses privados sobre os negócios públicos do Estado. Uma vez que os interesses públicos são indevidamente subtraídos e, pari passu, substituídos pelos anseios particulares, tem-se instituído um sistema de

75 ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social. Trad. Antonio de Pádua Danesi. 3. ed. São

escravidão. Assim, conclui Rousseau: “De qualquer modo, no momento em que um povo nomeia representantes, já não é um povo livre: deixa de ser povo.” 76

Atualmente, apenas alguns cantões suíços exercitam a democracia direta: Glaris, Unterwalden e Appenzell. Durante muito tempo a

Landsgemeinde era o locus público destinado aos cidadãos a fim de reunirem-

se para decidirem sobre assuntos pertinentes à política local, tais como a adoção ou revogação de leis e a cobrança de tributos. Mesmo enfraquecido em muitas localidades suíças, esse espaço perdura em alguns cantões, sendo auxiliado, atualmente, pelo Conselho Cantonal, que assume responsabilidade pela condução da política local, a partir da participação direta da população nas decisões. 77

Entretanto, à medida que as relações sociais tornaram-se mais complexas, uma reorientação na forma de organização dos governos proporcionou o progressivo abandono do exercício direto da democracia. A dimensão que os diversos Estados passaram a ter, com a ampliação das populações e o alargamento das demandas governativas, tornou impraticável a assimilação da vontade geral, bem como o exercício do poder político estatal por todos os indivíduos que compõem a nação.

“Por outro lado, quantas coisas difíceis de reunir não supõe tal governo (de democracia direta)? Primeiro, um Estado muito pequeno, em que seja fácil reunir o povo e onde cada cidadão possa conhecer facilmente todos os outros; segundo, uma grande simplicidade de costumes que previna o grande número de dificuldades e as discussões espinhosas; em seguida, muita igualdade nas classes e nas fortunas, sem o

76 Idem, p. 116.

que a igualdade não poderia subsistir por muito tempo nos direitos e na autoridade; e, enfim, pouco ou nenhum luxo, pois ou o luxo é o efeito das riquezas ou as torna necessárias; corrompe ao mesmo tempo o rico e o pobre, um pela posse, outro pela cobiça; vende a pátria à lassidão e à vaidade; subtrai ao Estado todos os seus cidadãos para sujeitá-los uns aos outros, e todos à opinião.” 78

A socióloga Maria Victória Benevides, professora da Universidade de São Paulo, enfrentando o debate atual acerca da utilidade da democracia direta, elenca diversas desvantagens e vantagens na adoção do modelo participativo, dentre as quais se destacam:

“O elenco de vantagens/desvantagens sobre as formas de democracia direta reúne tópicos mais ‘clássicos’ e outros referentes às sociedades de massa contemporânea. São igualmente discutidos por defensores e adversários da participação popular – em geral o que os primeiros consideram ‘vantagens’ são, justamente, ‘desvantagens’ para os outros. (...) Em breve resumo, as

desvantagens apontadas da democracia direta, comumente

apontadas, são as seguintes: – o enfraquecimento dos partidos (‘pilares da democracia’), das lideranças políticas e do próprio Parlamento, o que pode prejudicar o regime democrático; – o risco das ‘consultas plebiscitárias’, que levam à tirania pela manipulação do ‘apelo ao povo’; (...) – a apatia do eleitorado, pressionado por tantos apelos de participação, ou, em sentido contrário, a criação do monstro leviatã, ou ‘cidadão total’; (...) As vantagens da democracia direta, por outro lado, seriam assim sumarizadas: – processo permanente de educação para a cidadania; o povo torna-se co- responsável no destino da coisa pública; – fortalecimento do regime democrático pelo processo constante de controle e cobrança dos atos emanados dos órgãos públicos (governo e Parlamento); – instrumento para aferição da vontade popular, servindo para a

expressão tanto de seus desagrados, quanto de suas aspirações; possibilidade de mobilização dos ‘apáticos’, das ‘maiorias silenciosas’.” 79

Pelo exposto, ainda que valorosos de ambos os lados, os argumentos não esgotam o debate em torno da aplicação de um modelo puro de governo – o que permite a afirmação da impossibilidade de exercício de um único arquétipo de governança estatal. A democracia direta, hodiernamente, traz em si mesma contradições que servem de afirmação ao próprio modelo, ou seja, os argumentos que a justificam ou se prestam à sua rejeição servem à asseveração enquanto modelo apropriado à coexistência política com outro modelo, qual seja a democracia representativa.

Os principais obstáculos à concretização atual da democracia direta são a dimensão territorial que a maioria dos países possui, a complexidade cada vez mais acentuada das relações sociais e o predomínio dos interesses econômicos na condução dos assuntos públicos. Neste sentido, ainda que se afigure de difícil retorno ao modelo clássico, a democracia direta deve ser debatida como um referencial para a composição dos governos, de modo a assegurar a permanente e íntima ligação entre governantes e governados, sendo esses concebidos como titulares do poder soberano.

Por fim, há que se ter por certo que o ideal da democracia direta é o que melhor serve à afirmação da soberania popular como referencial de composição dos governos e suas decisões. O legado de Rousseau, segundo o qual “se houvesse um governo de deuses, haveria de governar-se

79 BENEVIDES, Maria Victória de Mesquita. A cidadania ativa: referendo, plebiscito e iniciativa

democraticamente”80, jamais deve ser entendido como um ideal metafísico de forma de governo, senão como a afirmação da participação direta enquanto instrumento de consolidação da vontade geral para a construção e consolidação do Estado, bem como dos valores e princípios que o regem e fundamentam.