Este trabalho teve por objetivo identificar os impactos e/ou as mudanças que a entrada de um jovem oriundo das camadas populares em uma escola de alto prestígio acadêmico pode causar em sua rede de sociabilidade, em sua proficiência escolar, na rotina doméstica e nas práticas culturais de sua família. O estudo também propôs investigar se as práticas do Programa Bom aluno contribuíram para diminuir as diferenças culturais e sociais de classe entre os bolsistas e seus colegas da escola particular. A título de conclusões, vou retomar aqui, sucintamente, esses impactos.
Foram pesquisados sete jovens - quatro meninas e três meninos -, que se encontravam matriculados nos dois colégios classificados em primeiro e segundo lugares no ENEM/2008 na cidade de Belo Horizonte, e suas famílias. Duas meninas estavam cursando o 9º ano do Ensino Fundamental e dois meninos estavam cursando o 2º ano do Ensino Médio no colégio aqui denominado por Dom Assis. Uma menina e um menino estavam cursando o 9º ano do Ensino Fundamental e uma menina, o 2º ano do Ensino Médio no colégio denominado aqui por Alcântara.
As mudanças sofridas nas redes de sociabilidade dos bolsistas podem ser manifestadas nas formas de construção de grupos de amizade, nas formas de inserção em redes de sociabilidade já constituídas e no afastamento dos antigos grupos sociais. A formação de um novo grupo de convívio aconteceu, em alguns casos, permeada de sentimentos de inferioridade, desconfiança e medo do desconhecido. Ao longo do tempo, esses sentimentos foram se dissipando, dando lugar a um sentimento de conquista. Com relação à manutenção dessas redes de relacionamento, parece ter pesado, entre outros fatores, o forte capital escolar desses jovens. Com efeito, os antigos laços de amizade foram se dissipando devido à falta de tempo dos jovens, que agora têm de se dedicar com mais afinco aos estudos, bem como a exposição a novas informações acabou por modificar os interesses dos alunos bolsistas participantes do Programa.
Por outro lado, apesar de estabelecerem uma relação de amizade com os novos colegas, os jovens se veem impedidos de participar nesses grupos com intensidade. Os motivos principais são a distância entre as moradias dos bolsistas e
a região onde os colegas moram e, consequentemente, onde passam o tempo livre juntos, e a falta de recursos financeiros para patrocinar essa convivência.
Com base nesses fatores acima mencionados, constatou-se que os jovens passam a se sentir parte dos dois meios, e, ao mesmo tempo, em alguns casos, de nenhum deles. A aquisição de disposições que permitem que esses jovens deslizem por esse novo espaço social pode, em princípio, gerar uma sensação de pertencimento, mas, em longo prazo, ela pode desaparecer, dando lugar a um sentimento de distanciamento do mundo de origem e de aproximação de um novo mundo que parece se afastar a cada passo dado pelos jovens rumo à sua conquista.
Sobre a proficiência escolar dos jovens, esta pesquisa constatou que a mudança de estabelecimento causa, ao longo do primeiro ano, uma queda no rendimento acadêmico. Os jovens que eram excelentes alunos nas escolas particulares, assim que entram para a escola particular não conseguem manter a mesma qualidade quanto ao desempenho acadêmico, o que acaba gerando frustração e sofrimento. Depois, o jovem tende a aprender a lidar com as exigências da nova escola e retoma o bom desempenho. Por fim, acontece a acomodação. Dos sete jovens pesquisados, quatro se encontram com notas altas, um se encontra com notas aceitáveis e dois com notas baixas.
Alguns fatores contribuem para o bom desempenho escolar do bolsista, como a importância que a família atribui à escolarização. O bom desempenho da maioria dos jovens conta com o apoio da família que parece ter interiorizado práticas escolares similares às práticas adotadas pelas classes médias. Dentre os sete casos estudados, apenas uma jovem se deparou com condições familiares pouco favoráveis aos estudos. Essa bolsista luta para superar tais condições que nem sempre são passíveis de ser superáveis.
A entrada de um filho para a escola, segundo Perrenoud (1987), altera a rotina das famílias por pelo menos doze anos. A necessidade de organizar a vida dos filhos em torno da hora de se levantar, de estudar, de almoçar, de fazer as tarefas de casa, de assistir à televisão, de sair com os amigos, de ir dormir, dentre outras, gera grande mobilização por parte dos pais que temem causar constrangimentos para o jovem na escola e, no caso deste estudo, no Programa.
As famílias dos participantes do Programa Bom Aluno já tinham uma rotina diária estabelecida em torno das necessidades de cada filho que já se
encontrava na escola e, de uma hora para outra, veem seu cotidiano alterado por uma nova realidade que acaba de se instalar dentro de seus lares: as exigências da nova escola, mais as do Programa. A reorganização da rotina em torno dessas novas demandas exige que as famílias lancem mão de estratégias, por exemplo, em relação ao controle do tempo e aos constantes deslocamentos dos filhos.
Os pais dos jovens se veem frequentando espaços sociais destinados às camadas médias, os irmãos e irmãs se mobilizam em busca de uma escolarização de melhor qualidade e/ou mesmo em dar continuidade aos estudos, a família se vê às voltas com despesas não planejadas geradas indiretamente por essa inserção e as mães têm de lidar com o acúmulo do trabalho doméstico decorrente da liberação do filho para que este dedique seu pouco tempo livre aos estudos.
Sobre mudanças nas práticas culturais dessas famílias, o estudo mostrou que pouco aconteceu nesse campo. Essas famílias, que já vivem uma vida financeira precária, não podem dispor de recursos para financiar atividades dessa natureza. As perguntas feitas durante as sete entrevistas revelaram que não está no horizonte dos membros dessas famílias a frequência a espaços destinados a praticas culturais como cinema, teatro, concertos e exposições de arte.
Quanto às ações que o Programa Bom Aluno promove com o objetivo de capacitar o jovem para frequentar uma escola de alto prestígio acadêmico, a pesquisa revelou o seguinte: a inserção e a permanência do jovem nesse novo ambiente seriam mais penosas sem as ações desse Programa. Não que ela tenha sido tranquila e sem sofrimento, mas as práticas do Programa, por exemplo, permitiram ao jovem se recuperar da queda inicial do rendimento escolar com mais rapidez. As aulas de hábitos de estudos acabaram por organizar a alocação do tempo dos jovens com relação ao estudo de cada matéria, bem como a estudar com “barulho”. As discussões promovidas durante as aulas de desenvolvimento pessoal permitiram e ainda permitem aos jovens debater sobre sua inserção no novo ambiente. Os jovens consideram essas aulas uma importante ferramenta na construção dessa reflexão. O que não se sabe é se, no fundo, os jovens convivem pacificamente com essas diferenças. Pôde-se inferir, através de alguns depoimentos, que as conquistas feitas por esses jovens são acompanhadas de algum sofrimento. O caso da jovem Eliana, que mencionou que as colegas têm peles lindas porque vão ao dermatologista (e ela não), ou que nos dias de chuva ela se
molha toda esperando pelo ônibus, enquanto as colegas vão para casa de carro, contribui para essa afirmação.
A análise dos depoimentos revelou que o espaço de convivência criado pelo Programa proporciona uma agradável sensação de compreensão mútua, representando um mundo ideal para esses jovens. Esses últimos sabem como os colegas se sentem porque também estão tendo experiências semelhantes. Segundo o depoimento de Mário, “o espaço Bom Aluno é ideal porque é a interseção dos dois mundos”, a saber: o de sua origem e o da escola particular.
Mas é Hoggart (1970) quem expressa melhor como se sente um indivíduo que passa por tais experiências. Ao chegar todas as noites em casa após terem cruzado várias fronteiras sociais, esses jovens já não olham mais para o seu universo com os mesmos olhos de outrora. Ao ter acesso a “outras formas de dizer, de ver e de sentir, não é possível não se sentir”, de alguma forma, tocado/transformado e ao mesmo tempo “[...] é também difícil esquecer o elo indefectível, familiar e afectivo que liga pais e filho” (HOGGART, 1970:164).
Ao trazer para a nova escola particularidades de seu meio e ao levar para sua casa particularidades de outro meio, o jovem acaba por usar essa experiência educativa como ferramenta que permite (re)construir suas fronteiras sociais.
Retomo aqui a noção fronteira social, segundo Almeida et al. (2010:11).
A noção de fronteira social, por sua vez, tem sido utilizada como ferramenta que busca apreender a desigualdade social como algo dinâmico, ou seja, como o resultado de lutas cotidianas nas quais os indivíduos e grupos se posicionam a partir de uma percepção sobre o lugar que podem e devem ocupar no mundo [...].
Tudo indica que o investimento na educação, além de conquistas profissionais e econômicas, vale também para conquistas de novas posições na escala da hierarquia social.
Por outro lado, essa luta que se trava no interior de nossa sociedade, em busca de espaços melhor qualificados, não acontece sem sofrimento. Para Terrail (1994), um “trânsfuga” de classe é alguém que, por pertencer a dois mundos, não se sente mais à vontade em nenhum. Principalmente quando esses mundos quase não têm nada em comum. Essa mudança para uma posição superior na hierarquia social, via aquisição de um diploma, faz com que a existência desse indivíduo seja permeada pela solidão e pelo isolamento. Lahire (2001) afirma que esses
sentimentos não são visíveis no comportamento dessas pessoas e que isso não é revelado em uma primeira conversa. Esse sentimento de contradição está na vivência que elas têm de todo esse processo.
Para finalizar, menciono uma das várias indagações que surgiram ao longo deste estudo. São elas: (1) Quais possibilidades/elementos dessa experiência fizeram diferença na vida desses jovens?; (2) O preço a pagar para ter uma “boa” escolarização passa for afastar-se/diferenciar-se das práticas pertinentes às classes populares?
Tendo essas e outras indagações acerca do tema aqui tratado a ser respondidas, acredito que a realização de outros estudos a partir deste possa ser de grande valia para a compreensão dos casos de bom desempenho escolar nos meios populares.