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O que ainda resta esclarecer acerca da exposição realizada por Sócrates é a noção de separação. Nas palavras de Charles Kahn, “não é claro se Sócrates quer dizer "separados umas das outras" ou "separadamente de seus participantes", mas Parmênides irá levá-lo no último sentido (KAHN, 2013. P4)90”. A dificuldade de esclarecer o que significa a separação não é uma

dificuldade presente apenas na dramaticidade do diálogo, mas é também um problema do intérprete de Platão, uma vez que “de fato, nunca o termo χωρίς é usado por Platão, a respeito das Formas, fora do Parmênides (Scolnicov, 2003. p51)91”.

Para entender de que maneira Parmênides se insere no diálogo e qual a importância de suas questões no diálogo, é necessário ler:

Pitodoro então contou que, estando Sócrates a dizer essas coisas, ele próprio <,Pitodoro,> pensou que Parmênides e Zenão estariam irritando-se a cada palavra; eles, ao contrário, estavam prestando-lhe muita atenção, e, olhando frequentemente um para o outro, sorriam como que admirando Sócrates. E foi isso então que expressou Parmênides, quando ele <,Sócrates,> terminou: Sócrates, disse, quão digno és de ser admirado pelo ardor que tens pelos argumentos! Mas, dize-me: tu mesmo assim fizeste a divisão tal como falas: de um lado certas formas mesmas, de outro as coisas que delas participam? E te parece a semelhança mesma ser algo, separada da semelhança que temos, e também o um e as múltiplas coisas e todas as coisas que há pouco ouviste de Zenão?

Parece-me sim, disse Sócrates.

Será que também, disse Parmênides, coisas tais como uma certa forma em si e por si do justo, e também do belo, e do bom, e ainda de todas as coisas desse tipo?

Sim, disse ele.

Mas.... e uma forma do homem, separada de nós e de todos tais como somos nós, uma certa forma mesma do homem, ou do fogo, ou ainda da água?

Muitas vezes, Parmênides, disse ele, fiquei, sobre essas coisas, nesta aporia: se é necessário, sobre elas, falar do mesmo modo como sobre aquelas, ou do modo diferente.

Será, Sócrates, que também a respeito das coisas que pareceriam mesmo ridículas, como cabelo, lama, sujeira, ou outra coisa o mais possível desprezível e vil, ficas em aporia sobre se é ou não necessário afirmar que também de cada uma delas há uma forma separada, que é por sua vez outra que as coisas com as quais nós lidamos?

De maneira alguma, disse Sócrates, mas quanto a essas coisas, isso precisamente que vemos, é isso que elas são. E acreditar haver uma forma delas é de temer que seja por demais absurdo. Entretanto, já alguma vez perturbou-me a questão sobre se não seria o mesmo com respeito a todas as coisas. Em seguida, quando me encontro nessa questão, saio fugindo, temendo um dia cair num abismo de palavreado vão e perder-me. Então, retornando para lá <onde estava>, às coisas que dissemos possuírem formas, passo o tempo ocupando-me delas.

É que ainda és jovem, Sócrates, disse Parmênides, e a filosofia ainda se apoderará, quando então nenhuma dessas coisas desprezarás. Por agora, ainda atentas para as opiniões dos homens, devido a tua idade.

90 TRADUÇÃO NOSSA. No original: It is not clear whether Socrates means “separately from one another” or “separately from their participants,” but Parmenides will take him in the latter sense..

91 TRADUÇÃO NOSSA. No original: In fact, never is the term χωρίς used by Plato of the forms outside the Parmenides.

λέγοντος δή, ἔφη ὁ Πυθόδωρος, τοῦ Σωκράτους ταῦτα αὐτὸς μὲν ἂν οἴεσθαι ἐφ᾽ ἑκάστου ἄχθεσθαι τόν τε Παρμενίδην καὶ τὸν Ζήνωνα, τοὺς δὲ πάνυ τε αὐτῷ προσέχειν τὸν νοῦν καὶ θαμὰ εἰς ἀλλήλους βλέποντας μειδιᾶν ὡς ἀγαμένους τὸν Σωκράτη. ὅπερ οὖν καὶ παυσαμένου αὐτοῦ εἰπεῖν τὸν Παρμενίδην: ὦ Σώκρατες, φάναι, ὡς ἄξιος εἶ ἄγασθαι τῆς ὁρμῆς τῆς ἐπὶ τοὺς λόγους. καί μοι εἰπέ, αὐτὸς σὺ οὕτω διῄρησαι ὡς λέγεις, χωρὶς μὲν εἴδη αὐτὰ ἄττα, χωρὶς δὲ τὰ τούτων αὖ μετέχοντα; καί τί σοι δοκεῖ εἶναι αὐτὴ ὁμοιότης χωρὶς ἧς ἡμεῖς ὁμοιότητος ἔχομεν, καὶ ἓν δὴ καὶ πολλὰ καὶ πάντα ὅσα νυνδὴ Ζήνωνος ἤκουες; ἔμοιγε, φάναι τὸν Σωκράτη. ἦ καὶ τὰ τοιαῦτα, εἰπεῖν τὸν Παρμενίδην, οἷον δικαίου τι εἶδος αὐτὸ καθ᾽ αὑτὸ καὶ καλοῦ καὶ ἀγαθοῦ καὶ πάντων αὖ τῶν τοιούτων; ναί, φάναι. τί δ᾽, ἀνθρώπου εἶδος χωρὶς ἡμῶν καὶ τῶν οἷοι ἡμεῖς ἐσμεν πάντων, αὐτό τι εἶδος ἀνθρώπου ἢ πυρὸς ἢ καὶ ὕδατος; ἐν ἀπορίᾳ, φάναι, πολλάκις δή, ὦ Παρμενίδη, περὶ αὐτῶν γέγονα, πότερα χρὴ φάναι ὥσπερ περὶ ἐκείνων ἢ ἄλλως. ἦ καὶ περὶ τῶνδε, ὦ Σώκρατες, ἃ καὶ γελοῖα δόξειεν ἂν εἶναι, οἷον θρὶξ καὶ πηλὸς καὶ ῥύπος ἢ ἄλλο τι ἀτιμότατόν τε καὶ φαυλότατον, ἀπορεῖς εἴτε χρὴ φάναι καὶ τούτων ἑκάστου εἶδος εἶναι χωρίς, ὂν ἄλλο αὖ ἢ ὧν τι ἡμεῖς μεταχειριζόμεθα, εἴτε καὶ μή; οὐδαμῶς, φάναι τὸν Σωκράτη, ἀλλὰ ταῦτα μέν γε ἅπερ ὁρῶμεν, ταῦτα καὶ εἶναι: εἶδος δέ τι αὐτῶν οἰηθῆναι εἶναι μὴ λίαν ᾖ ἄτοπον. ἤδη μέντοι ποτέ με καὶ ἔθραξε μή τι ᾖ περὶ πάντων ταὐτόν: ἔπειτα ὅταν ταύτῃ στῶ, φεύγων οἴχομαι, δείσας μή ποτε εἴς τινα βυθὸν φλυαρίας ἐμπεσὼν διαφθαρῶ: ἐκεῖσε δ᾽ οὖν ἀφικόμενος, εἰς ἃ νυνδὴ ἐλέγομεν εἴδη ἔχειν, περὶ ἐκεῖνα πραγματευόμενος διατρίβω. νέος γὰρ εἶ ἔτι, φάναι τὸν Παρμενίδην, ὦ Σώκρατες, καὶ οὔπω σου ἀντείληπται φιλοσοφία ὡς ἔτι ἀντιλήψεται κατ᾽ ἐμὴν δόξαν, ὅτε οὐδὲν αὐτῶν ἀτιμάσεις: νῦν δὲ ἔτι πρὸς ἀνθρώπων ἀποβλέπεις δόξας διὰ τὴν ἡλικίαν.

(PLATÃO, Parmênides. 130a-e).

São duas as perguntas que são formalizadas por Parmênides, e dois são os sentidos delas. A primeira (i) a acerca da separação, a segunda (ii) é acerca de quais Formas existem. Entretanto, a nossa análise, se dará no sentido inverso: analisar-se-á a segunda especulação (ii) e, só então, a primeira (i).

Na questão (ii) apresentada por Parmênides subjaz uma determinada categorização sobre quais são os tipos de Formas possuem existência, e são quatro os tipos de Forma que ele estabelece92: (i) Formas que apresentam noções geométricas ou matemáticas, como semelhança; (ii) Formas para conceitos abstratos, como justiça ou beleza; (iii) Formas para coisas naturais, como o Homem e (iv) Formas para coisas não-naturais, como partes de animais, como cabelo, e mistura de entes sensíveis, tal como: lama, que é a mistura de terra com água.

Entretanto, acerca da existência destas Formas, Sócrates não é capaz de afirmar com segurança a existência do grupo pertencente à última explanação (iv). Sócrates afirma que, ao se encontrar com este tipo de questão, “saio fugindo, temendo um dia cair num abismo de palavreado vão e perder-me (130d).” Não por acaso, esta também será a opção que o diálogo tomará: não cair num abismo de palavreado sobre a questão. O que antes foi apresentado como participação, é a possibilidade de um ente reter um predicado, portanto, a questão se há Forma para coisas como cabelo e lama, não parece fazer sentido para o diálogo, uma vez que lama e cabelo não são predicados de nada. São predicáveis – e.g.: a lama é escura – mas não são de nada predicados.

A verdade, no entanto, é que Sócrates sequer tem elementos para aceitar a existência de itens do grupo que apresenta Formas para entes da natureza (iii), pois, o homem enquanto ente na natureza de nada é predicado, mas é sujeito de predicação. Até então, as únicas entidades que serão possíveis assumir como Formas são àquelas dos primeiros grupos (i e ii) que possibilitam predicados como “semelhante”, e “justo”. Acontece que o problema da origem dos entes materiais e naturais não pode ser solucionado de antemão através das Formas, uma vez que as Formas, até o Parmênides, solucionam apenas os problemas da predicação – e, talvez, do conhecimento, com a reminiscência, e a imortalidade da alma. Acontece que esta aporia – e a aporia do terceiro homem (132a,c-e)

“[...] nos introduz um fundamental problema à teoria das Formas ao mundo natural: devemos postular Formas para elementos, ou para tipos naturais como o Ser Humano? Mas nenhuma solução é aqui proposta e nem surgirá até o Timeu93

(TRADUÇÃO NOSSA. KAHN, 2013. p4)94“.

Se não há o que discutir acerca da existência de Formas para entes naturais, para que, então, a passagem aponta?

Planejadamente, a primeira pergunta de Parmênides é se Sócrates fez por si só a divisão (χωρίς) que ele apresentou: de um lado as Formas, de outro as coisas que delas participam. De tal maneira ele pergunta com consentimento de Sócrates, se a Semelhança que há é diferente da semelhança que temos. Mas, que tipos de armadilhas poderiam guardar estas perguntas?

93 Vale a pena atentar a posição de Kahn, que apresenta que as Formas permeiam vários diálogos e, em um determinado nível da discussão, elas poderão ser objetos de investigação que de alguma maneira legitimam uma Filosofia da Natureza, em Platão. Em todo caso, isto não ocorrerá antes do Timeu, e por certo não é o momento da investigação no Parmênides. Cf. KAHN, 2013.

94 […] introduces us to the fundamental problem of applying the theory of Forms to the natural world: should we posit Forms for the elements, or for natural kinds like Human Being? But no solution is proposed here, and none will be forthcoming before the Timaeus.

Se não há resposta para a pergunta sobre a existência das Formas, parece, o único ponto importante é a demarcação da separação proposta por Sócrates. Este demarcar, portanto, apontará para os problemas da participação que serão advindos desta concepção socrática. Assim sendo, esta passagem do Parmênides tem dois objetivos: a) afastar a discussão acerca de entidades abstratas e a sua relação com a existência de entes naturais; b) introduzir as críticas à participação mediante a concepção da separação.

Benzer Belgeler