“Ambos - o civilizado e o nômade - necessitam de pontas de referência: para um é o lar estável, para o outro um trajeto habitual. Mas o nômade, de acordo com todos os testemunhos, conserva um segredo de felicidade que o cidadão perdeu, e a este segredo sacrifica a comodidade e a segurança. (...) Múltiplos são os êxitos, os álibis e as sensações da viagem, mas um só é o profundo e verdadeiro motivo interior que a determina: perseguir o segredo daquela remota felicidade” (DE MASI, 2000, p. 164).
Se, como Freud postulou em seu livro “O mal-estar na civilização”, na sociedade moderna o homem ganha segurança (ordem), mas perde sua liberdade, então a era pós- moderna pode ser definida pela busca do indivíduo pela liberdade em detrimento da segurança. Esse entendimento trazido por Bauman (1998) representa bem o que foi percebido
pela pesquisadora em relação à motivação para o “nomadismo digital” e aproveitado no discurso romântico em torno da ideia.
O discurso presente nos sites e fanpages sobre o tema é de convencimento do leitor das maravilhas da vida de “nômade digital” e de criação no outro de uma sensação de urgência para “largar tudo” e “fugir” para o mundo. A fala reforça uma angústia e uma impressão de aprisionamento promovidas pelo trabalho tradicional.
A nossa inquietação veio junto com uma época em que muita gente falava sobre isso, surgiram muitos nômades digitais para todos os lados. E tem a parte do romantismo que te atrai. “Nossa! Essa pessoa está trabalhando de qualquer lugar do mundo. Olha ela trabalhando na praia. Se ela pode, eu também posso.” Rola muito desse romantismo, um conto de fadas do século XXI (ND4).
Ao retomar a problemática desta pesquisa sobre quem são os “nômades digitais” brasileiros e como estariam viabilizando uma maior liberdade, essa percepção crítica do discurso põe em dúvida a viabilidade deste projeto de vida. Muitos sacrifícios e renúncias precisam ser feitos, abre-se mão de carreira e status, família, amigos e segurança social, em troca da liberdade desejada, assim como descrito por Bauman (1998).
A noção transmitida de uma certa facilidade neste tipo de empreitada foi desconstruída ao longo das entrevistas. Ainda que todos tenham reafirmado a viabilidade deste estilo de vida e trabalho pelo menos durante um período, nem todos conseguiram executá-lo por muito tempo.
O alto grau de mobilidade tem impacto não só no negócio, mas também em aspectos sociais e emocionais da vida do trabalhador. O isolamento foi citado por sete entrevistados como uma das razões para uma possível inviabilidade do “nomadismo digital” por um longo prazo. Diferentemente de outros tipos de teletrabalho, no “nomadismo digital”, o indivíduo se afasta tanto dos colegas de trabalho como de seus familiares e amigos. De Masi (2001, p. 214) explica que “teletrabalho não é isolamento. O número menor de relacionamentos pessoais aqui do que no escritório, com os colegas, é amplamente compensado pelo maior número de relacionamentos pessoais em família, no edifício, no quarteirão”.
Talvez por esse motivo, muitos “nômades digitais” brasileiros visitem o Brasil com regularidade. São poucos aqueles que se ausentam por muitos anos seguidos. Por exemplo, 1/4 dos entrevistados que se autodeclararam “nômades digitais” surpreenderam a pesquisadora ao informarem que não estavam em viagem, mas no Brasil. E desses, 3/4 estão nas casas dos pais, embora afirmem que devam continuar viajando posteriormente.
Essa informação revela duas características dos “nômades digitais” brasileiros: a necessidade de retornar ao seu país e a existência de uma espécie de “rede de segurança” provida pela família.
O fato de visitarem o Brasil com frequência mostra que os “nômades digitais” brasileiros não se sentem presos a uma obrigação de nomadismo ininterrupto. Eles criaram seu próprio modelo de “nomadismo digital”, o qual parece ser mais uma condição momentânea do que propriamente uma identidade. Eles transitam entrem os dois estados: quando desejam, os brasileiros “estão” “nômades digitais” e, quando não desejam mais ou não podem, eles retornam para a casa dos pais. Aparentemente, é uma questão de “estar” muito mais do que “ser”. Identidades temporárias, ao invés de perenes, são características da pós-modernidade.
Apesar de a viagem ser muito valorizada e motivação para muitos, o retorno às raízes se faz necessário. É diferente da relação superficial do nômade com sua terra descrita por Deleuze e Guattari (1997):
Se o nômade pode ser chamado de o desterritorializado por excelência, é justamente porque a reterritorialização não se faz depois, como no migrante, nem em outra coisa, como no sedentário (com efeito, a relação do sedentário com a terra está mediatizada por outra coisa, regime de propriedade, aparelho de Estado...). Para o nômade, ao contrário, é a desterritorialização que constitui sua relação com a terra, por isso ele se reterritorializa na própria desterritorialização. É a terra que se desterritorializa ela mesma, de modo que o nômade a encontra um território. A terra deixa de ser terra, e tende a tornar-se simples solo ou suporte (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p.44 ).
Para os brasileiros, o retorno constante para a sua terra e a união familiar promovem uma maior segurança para se lançarem no “nomadismo digital”. A condição socioeconômica da família, alguns com mais recursos e outros menos, contribui para uma viagem mais longa e para um recomeço, caso a experiência seja fracassada. A exploração de bens pessoais e familiares para complementar a renda oferece igualmente maior estabilidade para arriscarem- se em um formato de trabalho não convencional e de renda variável.
Essa segurança familiar acaba suprindo a ausência de segurança trabalhistas do “nomadismo digital”. Sennett (2009) aponta a flexibilidade como uma forma de precarização de direitos do trabalhador e, realmente, é o que se observa no “nomadismo digital”. O comportamento de curto prazo teria distorcido o senso de lealdade, confiança e comprometimento mútuo entre empregado e empregador, segundo Sennett (2009). Os funcionários teriam se tornado descartáveis para as empresas e vice-versa, fragilizando as
relações e reduzindo a segurança para ambos.
Contudo, os entrevistados pareceram não se preocupar com essa questão de segurança. Alguns consideram o trabalho tradicional mais precário e inseguro do que o negócio próprio ou o modelo autônomo, pois se uma empresa demiti-lo, apesar de algumas garantias, aquele patrimônio que o trabalhador ajudou a construir não lhe pertence. Enquanto isso, o empreendedor e o freelancer podem optar por algumas garantias trabalhistas do sistema previdenciário e ainda possuir como bens o seu negócio, sua marca e seu nome conhecido no mercado. O risco seria menor, na opinião de alguns “nômades digitais”, pois eles não dependeriam de um único contratante e contariam com ativos próprios.
Assim como no estilo de vida sedentário, escolhas e renúncias precisam ser feitas no “nomadismo digital”. Os conceitos de segurança e liberdade são relativos em ambos os casos. Por exemplo, apesar do posicionamento unânime dos entrevistados desta pesquisa em relação ao aumento do grau de liberdade, esse ponto se mostra questionável. Percebe-se uma certa restrição de liberdade quando o “nômade” não é capaz de financiar seus custos com o trabalho que desejou exercer e é obrigado, por vezes, a aceitar ofertas de trabalho que não lhe trazem prazer; ou quando é obrigado a morar em países com baixo custo de vida, por não ter como financiar sua estadia em lugares mais caros ou por limitação de vistos, apesar de possuir liberdade de lugar de trabalho; ou quando trabalha muitas horas e nem mesmo consegue usufruir a flexibilidade de horários pela qual lutou. Essa liberdade é relativa, portanto.
Que liberdade é essa que dizem alcançar então? Seria uma liberdade apenas em relação à sensação de enclausuramento provocada pelo ambiente de escritório, à rotina e à mecanização organizacional?
Apesar das polêmicas em relação ao “nomadismo digital”, estilo de vida e trabalho cercado por vantagens e desvantagens, em geral, os entrevistados afirmaram que não voltariam para o modelo tradicional de trabalho, mesmo quando deixarem de ser “nômades digitais”. Pode-se pensar, assim, que, de alguma forma, uma condição mais satisfatória foi alcançada por essas pessoas.
Esta pesquisa não visa defender soluções românticas ou radicais para o “mal-estar na pós-modernidade”, mas fazer refletir sobre outros modelos de trabalho possíveis para equilibrar as trocas entre segurança e liberdade, para promoção do bem-estar.