4. BULGULAR
4.2 Hastaların Beslenme Alışkanlıklarının Değerlendirilmesi
Como Michael Lewis observou em “The New Thing” (apud MAGRETTA, 2003), o modelo de negócios da maioria das empresas de internet no início dos anos 2000 baseava-se na construção de um website, na atração do maior número de pessoas possível para ele e na venda de espaços publicitários para terceiros. Esse modelo ainda é muito usado por “nômades digitais” brasileiros, que escrevem em ambientes virtuais sobre suas viagens.
Três criam conteúdo para seus próprios blogs e buscam receitas provenientes da venda de espaço publicitário pelo Google AdSense29 e demais programas de marketing de afiliados. Apesar de nem sempre terem sido citados como fontes de renda, todos os entrevistados
28 IBGE. Contas Regionais do Brasil – 2012. Disponível em:
http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/imprensa/ppts/00000019515011102014502214193696.pdf. Acesso em: 10 jul. 2016.
29 O Google AdSense é programa de afiliados criado pelo Google para veicular anúncios em websites e blogs de pessoas físicas ou de pequenas empresas. Aumentam as chances de conversão dos anúncios quando exibidos em um site baseado em conteúdo. Os donos dos “sites-vitrine” não têm qualquer custo ao se afiliar ao programa e ganham dinheiro por conversão. Disponível em: https://www.google.com/adsense/gaiaauth2?hl=pt_BR. Acesso em: 10 jul. 2016.
possuem blogs ou sites sobre suas viagens. A produção e venda de e-products também é uma opção, com a construção de uma loja online ou com a venda de e-books próprios e de fotografias tiradas durante a viagem.
Conforme o número de “nômades digitais” aumenta, a concorrência entre eles fica mais acirrada, existindo pouquíssima diferenciação entre um site de viagens e outro e, consequentemente, a renda de cada um diminui.
Assim, outras fontes de renda são necessárias. Os “nômades digitais”, em geral, prestam serviços diversos para se sustentarem. Por meio de sites de oferta de trabalho ou por meio de seus próprio sites, treze entrevistados prestam serviços de consultoria, de ciência da computação, de tradução de textos e de produção de conteúdo web para empresas.
Poucos foram outras fontes de renda citadas, mas três entrevistados financiam suas viagens totalmente ou parcialmente por meio de um salário fixo resultante de um contrato de trabalho com uma empresa, ou com o dinheiro de economias prévias, ou com a receita do aluguel de apartamentos que possuem no Brasil.
Entretanto, a renda de nove “nômades digitais” é menor do que aquela que tinham em seus empregos anteriores. Quinze trabalham como freelancer ou possuem seu próprio negócio, mas três não conseguem se sustentar desta forma, precisando gastar recursos de suas economias prévias.
Mesmo o casal de entrevistados melhor organizado financeiramente diz que o dinheiro que sobra em um mês muitas vezes serve para cobrir o déficit do mês seguinte. Por outro lado, o custo de vida seria menor do que em suas vidas sedentárias no Brasil. Muitos mencionaram a importância da disciplina e do controle de gastos equivalentes a um padrão de vida econômico, e também a lógica do trabalho autônomo “se não fizer o trabalho, o dinheiro não entra” (ND13). A formação ou experiência prévia nas áreas de administração, em negócios próprios, ou no mercado financeiro pareceram ajudar na estruturação financeira, mas não foram determinantes.
Todos disseram ter se preparado antes da viagem, seja frequentando cursos técnicos e profissionalizantes, iniciando previamente seus blogs e trabalhos online, ou economizando dinheiro. Esse comportamento demonstra que, apesar de optarem por um estilo de vida e trabalho heterodoxos, não desejam fazê-lo de maneira irresponsável. Eles entendem que a opção envolve riscos e a necessidade de um investimento prévio de capital.
Onze investiram em planejamento e preparação para a mudança de vida durante mais de um ano. Todos levaram uma reserva financeira para emergências e oito iniciaram seus negócios ou trabalhos freelancer online antes da viagem, como forma de preparação. Três
disseram que, apenas após certificarem-se que ganhariam dinheiro trabalhando de forma remota, iniciaram a viagem. Outros quatro já trabalhavam remotamente antes, então o ajuste para a viagem foi mínimo. Essas atitudes evidenciam a seriedade com o projeto.
Para formalizar seu trabalho, dez entrevistados afirmaram ter aberto uma empresa, todas elas no Brasil. Quatro optaram por não abrirem empresa e continuaram atuando como pessoas físicas e dois não responderam essa pergunta, enviada posteriormente por e-mail.
Quanto ao funcionamento do negócio, nós abrimos uma produtora no Brasil, com banco brasileiro e todos os trâmites daqui. Quando faço trabalhos como freela, recebo como pessoa física pelo PayPal30 mesmo, e sei que muitos nômades fazem isso e não tem empresa formalizada. Nós apenas formalizamos porque queremos trabalhar com empresas do Brasil e poder participar de editais aqui (ND4).
O gerenciamento do negócio e da viagem em si conta com ferramentas online e eletrônicas.
Nossos clientes são todos do Brasil. Sendo assim, não temos estrutura nenhuma fora. Conta bancária, pagamentos (todos realizados online), recebimentos, geração de boletos (pelo sistema Gerencianet)... enfim, tudo é no Brasil e tudo online. As plataformas como PayPal e PagSeguro me auxiliam a receber de alguns clientes que não conseguem pagar boleto (ou preferem usar o cartão de crédito). Os pagamentos de nossos fornecedores (servidores de hospedagem, sistemas, e parceiros) são todos via empresa também, com emissão de NF [nota fiscal] e todos os impostos e taxas. Utilizamos nossos cartões de crédito pessoais para sacar na moeda local onde estamos. Apesar das taxas, achamos que vale mais a pena do que a conversão em casas de câmbio - que sempre impõe taxas e praticam os valores que eles querem. Resumindo: nossa empresa e seus trâmites são todos no Brasil. Só nós que estamos fora (ND8).
Os brasileiros parecem mais confortáveis mantendo seus clientes e estruturas empresariais e financeiras em seu país, por mais burocrático e de cara manutenção ele seja. Treze entrevistados têm como clientes pessoas físicas ou empresas brasileiras. Quatro possuem contas bancárias no Brasil e no exterior, os demais, apenas no Brasil e nenhum apenas no exterior. Eles recebem pagamentos por serviços prestados por meio de depósitos em bancos brasileiros e, depois, transferem o dinheiro para a conta no estrangeiro. Dizem reduzir o pagamento de taxas e impostos utilizando plataformas online de envio de dinheiro entre países a uma cotação supostamente mais justa e um custo mais baixo do que os praticados em bancos tradicionais. Para evitar problemas de lavagem de dinheiro, essas
30 PayPal é um sistema online de transferência monetária entre indivíduos ou negociantes com o uso de apenas um endereço de e-mail e senha.
empresas de transferência afirmam pedir aos clientes todas as informações que a regulamentação do país exige.
Outros “nômades digitais” sofrem mais com a cobrança de impostos.
Como nossos rendimentos são no Brasil, toda a movimentação bancária se resume ao Brasil apenas. Isso significa que, infelizmente, somos penalizados com as variações do câmbio e o famigerado IOF31, quando utilizamos cartões ou fazemos saques no exterior. Para aliviar essa questão, é comum a gente levar algum dinheiro, já em dólar ou euro, os quais compramos no Brasil sempre que o visitamos (ND11).
Pela questão do Brasil ser um tanto instável, acabamos abrindo conta no exterior. Para ter uma ideia desde que saímos incluíram 6% de IOF nos cartões de crédito, débito e pré-pago. Fazemos tudo de maneira online usando internet banking e já usando novas plataformas como o PayPal (ND6).
Com negócios constituídos quase que completamente de maneira virtual, a estrutura burocrática e antiquada que envolve a manutenção legal de um negócio no Brasil é uma das reclamações dos “nômades digitais”. Precisam da ajuda de parentes para resolução de problemas que não conseguem solucionar a distância. Dependendo da cidade onde abriram a empresa, o processo pode ser mais simples.
Pela cidade ter uma estrutura burocrática antiga, sem a possibilidade de fazer sua gestão contábil e trâmites na prefeitura online, optamos por fechá-la (processo ainda em trâmite) e abrir uma nova empresa em Curitiba (abrimos no início deste ano), onde a prefeitura disponibiliza serviços digitais e é muito mais rápida e eficiente em termos burocráticos (ND8).
O fato de terem orçamentos justos e estruturas de negócios no Brasil, os recentes problemas econômicos do país, especialmente nos anos de 2015 e 2016, encurtaram ou abalaram de alguma forma suas viagens. Neste período, a moeda nacional se desvalorizou e a demanda por serviços diminuiu. Duas entrevistadas disseram ter suspendido o projeto de uma vida como “nômade digital” por falta de condições financeiras, enquanto um casal, que pensava em voltar para o Brasil, resolveu adiar o retorno para quando a economia estiver mais favorável.
Com o intuito de economizar e fazer com que suas receitas rendam mais, é comum “nômades digitais” optarem por conhecer ou passar mais tempo em países com moedas mais desvalorizadas, como na América Latina e Ásia. Um dos entrevistados explica:
É conceito usado no nomadismo ganhar em uma moeda e gastar em um país que é mais barato. As pessoas chamam de geoarbitragem. Pode também sair do país dele para morar em outro país, por questões estratégicas, por questões de negócios ou simplesmente ter um padrão de vida melhor do que tem no Brasil ou no seu país. São questões que não se fala muito quando a gente fala de trabalho remoto. No home office, a pessoa trabalha de casa, mas na mesma cidade onde já morava (ND16).
Um dos entrevistados reflete sobre o aspecto exploratório que poderia ser relacionado à migração praticada pelo “nomadismo digital”. “Associo o nomadismo digital a uma nova forma de colonialismo. Você vai para um país, você aproveita as coisas que te agradam naquele país, mas você não se envolve socialmente com aquele país” (ND2).
A “colonização”, neste caso, é motivada pelo prazer e desejo de viajar e não por possíveis necessidades de sobrevivência ou comércio, como na época das colônias exploratórias tradicionais, desde o século XVI até a primeira metade do século XXI.