• Sonuç bulunamadı

A inconveniência oficialmente exposta na motivação para a prática do ato pode levar, à primeira vista, à conclusão de que Chávez teria desviado dos limites da juridicidade, que, como dissemos, permeou as suas medidas desde os primeiros momentos da chegada ao poder. É como se o golpismo da oposição fosse a justificativa procurada para o governo passar a rumar à autocracia em nome da segurança estatal, tal como historicamente sucedeu em outras ditaduras instaladas pelo mundo, no processo que Bobbio (2010, p. 1068) chama de instrumentalização da doutrina das Razões de

Estado para fins partidários: “as classes políticas governantes, para derrotar

a oposição, desrespeitam a legalidade, chegando mesmo ao golpe de Estado, e justificam o seu comportamento imposto pelas exigências de segurança interna”.

A desvirtuação da doutrina das Razões de Estado por Chávez seria levada a efeito a partir da associação da grande mídia ao terrorismo.

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A o l o n g o d o s a n o s d o m a n d a t o p r e s i d e n c i a l , o g o v e r n o C h á v e z n ã o r e n o v o u o u t r a s c o n c e s s õ e s d e r a d i o d i f u s ã o . C i t a m o s a q u i a p e n a s o c a s o d e m a i o r r e p e r c u s s ã o , i n c i d e n t e s o b r e u m a e m p r e s a d a t r a d i ç ã o e d a d i m e n s ã o d a R C T V ( v . i t e m 4 . 2 . 3 ) .

Segundo Demétrio Magnoli (2010, p. 43), tratar-se-ia de uma adaptação venezuelana da guerra ao terror promovida por George W. Bush, como resposta aos ataques sofridos pelos Estados Unidos da América em 11 de setembro de 2001, e que, prontamente propagada, justificou uma série de arbitrariedades praticadas em todo o globo, como a perseguição a imigrantes em solo norte-americano, a ocupação do Iraque, a opressão do governo chinês aos separatistas mulçumanos do extremo oeste e a violenta campanha do governo russo na Chechênia e nas repúblicas da Transcaucásia. No caso da Venezuela, o terror seria representado pela grande mídia, que - tal como imigrantes, governantes não aliados e separatistas - deveria ser eliminada ou reprimida.

Uma conclusão como a acima colocada é, sem dúvida nenhuma, uma possibilidade a ser investigada. Todavia, não é a única, na medida em que estamos nos referindo a um país regido por Constituição instituidora de ampla gama de direitos fundamentais que impõe ao Estado o dever de atuar positivamente visando a implementação dos valores nela positivados. É possível, portanto, que a atuação estatal sobre a RCTV tenha sido produto de uma estratégia governamental em meio a políticas de democratização da mídia, na efetivação da liberdade de expressão como direito a ser exercido em favor dos cidadãos.

A fim de verificarmos qual dessas duas possibilidades realmente aplica-se ao caso, torna-se imperioso que averiguemos como o governo venezuelano foi levado a concluir pela inconveniência da renovação em questão. Trata-se de tarefa a se realizar por intermédio de análise que tenha como ponto de partida circunstâncias antecessoras ao encerramento do prazo de 20 anos de vigência da concessão da emissora, no final de maio de 2007.

Nesses termos, é preciso assinalar que, transcorrido o agitado ano de 2002, Chávez não procedeu a nenhuma medida de exceção na Venezuela. As liberdades públicas não foram suprimidas, as instituições continuaram a funcionar e a grande mídia privada, inclusive a beneficiária de concessões públicas, prosseguiu, de forma geral, nas críticas ao presidente da

república. Nada foi alterado, ainda que a democracia tenha sido seriamente ameaçada pelo golpismo opositor.

Sob esse clima de normalidade, na data de 20 de janeiro de 2003, fazendo uso das competências delineadas pelos marcos regulatórios da mídia aprovados pela Assembleia Nacional, o Ministério da Infraestrutura instaurou processo administrativo visando a apuração de infrações em tese praticadas pela RCTV. Conforme relata o Libro Blanco sobre a RCTV (VENEZUELA, 2007a, p. 297-315), o início do processo se deu mediante a publicação de um auto de abertura, assinado pelo ministro titular da pasta, no qual foram descritas, pormenorizadamente, uma série de irregularidades supostamente praticadas pela emissora ao longo do tempo, aptas a merecer averiguação por parte dos órgãos oficiais. Neste mesmo ato, determinou-se a notificação da empresa investigada para, em 15 dias, apresentar argumentos e propor meios de provas objetivando o exercício de seu direito de defesa.

Instaurado o processo, foram averiguadas algumas condutas de extrema gravidade praticadas pela emissora. Em relação ao golpe sucedido em abril de 2002, foi apurado que a RCTV (VENEZUELA, 2007a, p. 57- 64): a) recusou-se a transmitir integralmente as mensagens veiculadas pela titular do Ministério do Trabalho e pelo presidente Chávez, fazendo ainda inserir mensagem em que afirmava a suposta ilegalidade do pronunciamento oficial; b) promoveu intensa propaganda visando a derrubada de Chávez, recusando-se ainda a divulgar a versão dos governistas a respeito dos fatos que ocorriam nos agitados dias que precederam o golpe; c) procurou dar legitimidade à posse do empresário Pedro Carmona na presidência da república, fazendo seu diretor geral comparecer ao ato; d) interrompeu o pronunciamento do procurador geral Isaías Rodríguez, no momento em que ele revelou a ocorrência de um golpe de Estado no país; e) negou a dar voz a manifestantes que, após a tomada do poder por Pedro Carmona, protestavam pelo retorno do presidente legítimo; f) proibiu seus jornalistas de divulgarem a informação de que Chávez não havia renunciado e se encontrava preso; g) transmitiu pronunciamento em cadeia nacional do empresário Pedro Carmona, como se este fosse o presidente da república; h) fez divulgar, no dia seguinte ao golpe,

a mensagem de que a Venezuela regressara à normalidade institucional, como se não tivesse havido a derrubada de um presidente democraticamente eleito.

Ficou apurado, também, que por ocasião do paro patrolero sucedido no final de 2002, a RCTV incumbiu-se de criar uma realidade modelada em conformidade a interesses contra-hegemônicos oposicionistas, incitando a população à defesa de nova ruptura institucional. Para isso, a emissora veiculou anúncios publicitários e entrevistas com militares, dirigentes de partido de oposição e sindicalistas, nas quais, em geral, imputava-se ao presidente Chávez a prática de atos criminosos e incitava-se a população à derrubada deste mandatário (VENEZUELA, 2007a, p. 64-75).

Apurou-se, da mesma forma, que a RCTV deixou de transmitir programação destinada a crianças e adolescentes e utilizou-se de menores de idade na propaganda golpista; que, ao longo dos anos, realizou cartel em conjunto com a empresa Venevisión, repartindo mercado e controlando os preços de anúncios; que não cumpriu suas obrigações trabalhistas e, por fim, que foi a emissora que mais sofreu denúncias de irregularidades, formuladas

por usuários, perante a CONATEL68 (VENEZUELA, 2007a, pp. 79/128).

Realizada toda a apuração exposta, foi que se concluiu pela

inconveniência da renovação da concessão da RCTV. Segundo o Ministério

do Poder Popular para Comunicação e Informação (VENEZUELA, 2007a, p. 54), as circunstâncias apuradas levaram o governo a agir no dever de: a) honrar o artigo 108 da Constituição de 1999, que exige a garantia cidadã ao acesso universal da informação; b) adotar uma nova estratégia no modelo das comunicações do país, democratizando-o; c) promover a segurança do Estado, ameaçada pelo apoio da emissora às tentativas de rupturas institucionais ocorridas em 2002.

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C a b e l e m b r a r q u e a R C T V j á h a v i a s o f r i d o s a n ç õ e s a n t e r i o r e s p o r v e i c u l a r n o t i c i á r i o i n v e r í d i c o , p o r n o g r á f i c o e s e n s a c i o n a l i s t a ( v . i t e m 4 . 2 . 3 ) .

Benzer Belgeler