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Tarih Öğretiminde Gazete Kullanımının Eğitim Ortamına Katkısı

I. BÖLÜM

1.11. Tarih Öğretiminde Gazete Kullanımı

1.11.2 Tarih Öğretiminde Gazete Kullanımının Eğitim Ortamına Katkısı

Um gole de cachaça me deu bom conselho.

João Guimarães Rosa

A temulência rosiana propõe um outro estar-no-mundo, por outra mirada, dessa vida “aquém tumulo”, e conforta-nos ao perfazer o desvio extraindo da linguagem o suprimento, a margem de alegria, afastando-nos, ao menos por um momento, da absurdidade do mundo por intermédio de seu inebriado e inebriante estilo, em que o erotismo constitui relevante potência.

Em longa carta ao tradutor Edoardo Bizzari, datada de 3 de janeiro de 1964, Guimarães Rosa admite o caráter dionisíaco do livro Corpo de Baile e convida seu tradutor, a quem o escritor toma por sóbrio, a literalmente embriagar-se com o intuito de fazer penetrar-lhe o espírito dionisíaco contido no livro escrito com fortes traços de um sujeito temulento:

Pelo retrato seu, que vi, parece-me que não. Parece-me que Você é mais para o lado dos sóbrios, a não ser talvez un pò di vino, ou um

stregha. Se não, diria que talvez valesse a pena, agora, no acabar a “bella copia”, encher bicchiere e experimentar a companhia de sileno. Não é que eu faça isso. Não fiz. Mas, como Você já viu, o nosso “Corpo de Baile” tem no espírito e no bojo qualquer coisa de dionisíaco (contido), de porre amplo, de enfática “desmesura”. (ROSA, 1981, p.83)

Guimarães Rosa quer de Bizzarri o bêbado lúbrico, a conduta do animal solto, imprescindíveis para a captura da atmosfera de algumas novelas do livro Corpo de Baile.

Se o dionisíaco como embriaguez é “contido” e o “porre é amplo, de enfática desmesura”, temos no paradoxo desta fórmula a expressão de nossa hipótese quanto aos aspectos dionisíacos e apolíneos do texto rosiano. A presença explícita do vinho e de Sileno nas cartas entre autor e tradutor, distingue a metáfora da temulência como elemento importante no recado rosiano ao seu tradutor e, mais ainda, aos seus leitores. Mas Guimarães Rosa, ao dizer que “não faz isso”, quer dizer, não bebe, “não experimenta a companhia de Sileno”, parece propositalmente esquecido de como o

conhaque e o vinho contribuíram para a composição da novela “O recado do morro”, uma das novelas de Corpo de Baile:

O tema de O Recado do Morro (NO URUBUQUAQUÁ, NO PINHÉM) se formou quando a saudade me obrigava, e talvez também sob razoável ação do vinho ou do conhaque. (ROSA, 1967, p.158)

Ainda com relação à novela “Buriti”, a qual surge, segundo o próprio autor num sonho duas vezes repetido: “Buriti (NOITES DO SERTÃO), por exemplo, quase inteira, “assisti”, em 1948, num sonho duas noites repetido” (ROSA, 1967, p.157). Portanto, sonho e embriaguez misturam-se na escritura rosiana como elementos confessos na enunciação e importantes no enunciado. Juntos, eles traduzem as forças apolíneas (do sonho) e dionisíacas (da embriaguez).

Os Silenos, que também são conhecidos como Sátiros, segundo Grimal

são gênios da natureza que foram incorporados no cortejo de Dioniso. Eram representados de diferentes maneiras: umas vezes, a parte inferior do corpo era a de um cavalo, e a superior, a partir da cintura, a de um homem; outras vezes, a sua parte animal era a de um bode. Num e noutro caso, eram dotados de uma grande cauda, abundante, semelhante a de uma cavalo, e de um membro viril sempre erecto e de proporções sobrehumanas. Eram imaginados a dançar no campo, bebendo com Dioniso, perseguindo as Ménades e as Ninfas, vítimas mais ou menos relutantes da sua lubricidade. (GRIMAL, 2000, p.413)

A resposta de Bizzarri à provocação dionisíaca feita por Guimarães Rosa vem na carta do dia 15 de janeiro de 1964:

Não estava esquecendo a última surpresa desta carta? Na medida dos seus 54 anos de boa saúde, o seu amigo Bizzarri tem todos os bons vícios tradicionais, aqueles que, segundo o ditado italiano, reduzem o homem em “cenere” – “Bacco, tabacco e Venere”. Não fique desapontado. Bizzarri bebe. Aliás, sem ser beberrão, gosta muito de beber. Gosta de toda bebida alcóolica, autêntica: da boa cachaça brasileira ao whisky escocês, da vodka russa ao champagne francês. Só não gosta de bebidas ruins e de imitações. Gostaria muito de esperimentar a famosa “januária” que aqui em São Paulo não se encontra, ou, ao menos, não consegui encontrar. Por conseguinte, ou talvez, quem sabe, em homenagem aos meus princípios universalistas, meu principal animador nesta luta de tradutor – depois de suas cartas, foi mesmo o whisky, scotch. (BIZZARRI apud ROSA, 1981, p.85-86)

Este assunto encerra-se na carta do dia 20 de janeiro de 1964, com Guimarães Rosa prometendo enviar a Bizzarri, numa data qualquer, uma legítima “januária”18:

A januária já estaria aí com Você, como um dia estará, só ainda não sei quando, não fosse o cuidado que a gente tem de ter na obtenção da melhor, genuína e supra de não desmerecer uma fama grande e justa, nestes tempos de falsificação e comercialização indisciplinada e gananciosa (A gente põe num copo, com pedaços de gelo, fica para mim muito melhor que o uísque.) Beberemos à saúde de tudo, de Diadorim, Otacília, Riobaldo. (ROSA, 1981, p.88-89)

Na medida em que cria, segundo Afrânio Coutinho ele se deixa inebriar pelos personagens:

Essa galeria de personagens intuitivos, a que se acrescentam também outros dominados por estados de “desrazão” passageiros, como a embriaguez ou a paixão, figuram ora como secundários ora como protagonistas das estórias de Rosa, mas em ambos os casos são eles que conferem com freqüência o tom de todo o texto. Não só o foco narrativo recai diversas vezes sobre eles, construindo-se o relato a partir de sua perspectiva, com é deles que emana a poiesis a iluminar as veredas narrativas. (COUTINHO, apud ROSA, 1994, p.21)

É bastante conhecido o caso narrado pelo próprio autor, da estranha simbiose ocorrida entre ele e um conto chamado “A fazedora da velas”. De tal maneira vivenciou a ficção, que se viu doente como a própria personagem: “Daí a meses, [depois de abandonada a escritura dessa estória] ano, ano e meio – adoeci, e a doença imitava ponto por ponto, a do Narrador? Então? Mas coincidências destas calam-se com cuidado, em claro não se comentam” (ROSA, 1967, p.158). O texto de onde saiu o fragmento acima, que compõe o prefácio “Sobre a escova e a dúvida”, antes de ser editado, entre outros foi publicado na revista médica Pulso em 13/05/67 com o sugestivo nome de “Vida-arte – E mais?” Nele o autor relata as fontes não convencionais que envolvem seu processo de criação, as quais chamaríamos, por seu aspecto transgressor e mediúnico, de dionisíacas. A essas fontes o escritor chama de “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda sorte de

18 Em carta ao amigo Paulo Dantas, 10-VIII-57, Guimarães Rosa, também faz apologia da legítima Januária: “Estou tonto e alegremente de repente; tonto = “bicudo”, “pingugo”, sorvedouro, bebido, cheio de boa legítima da Januária (da januária sem atenuantes nem agravantes, dita, da qual ainda há três dias recebi presenteada uma garrafinha bonita – vinda da beira do Rio, toda sanfrancisca, via Montes Claros -: que a qual responde “sim” a todos os quisitos)!” (ROSA apud DANTAS, 1975, p.69).

avisos e pressentimentos. Dadas vezes, a chance de topar, sem busca, pessoas, coisas e informações urgentemente necessárias”. (ROSA, 1967, p.157)

É da temulência, sob o efeito do dilatamento da visão, isto é, da visão diplópica, que o artista cria outra mirada entre a embriaguez e o sonho. É deste entre- lugar, entre o dionisíaco e o apolíneo, que Guimarães Rosa retira a “irrealidade” de sua “álgebra-mágica”, diga-se, sua escritura.

Irene Gilberto Simões afirma que o Pref. NTs

sugere a visão dupla do mundo. A partir da figura do bêbado (temulento) enfoca-se a realidade “diplópica”. [E que] em comparação com os dois primeiros, este prefácio é menos “teórico” e mais se assemelha aos contos de Terceiras estórias (SIMÕES, s/d, p. 31).

Mas ela mesma, um pouco adiante, define a representação neste prefácio chamando-a de alegórica. Percebemos que, tomando a temática do bêbado alegoricamente, o autor imprime uma face importante de seu processo de criação, ou seja, que ela se constitui a partir dos impulsos da temulência. E o Pref. NTs seria a comprovação mais explícita desses impulsos. Daí não acharmos que este prefácio seja menos teórico. É a mistura inusitada de prosa-poética, narrativa e teoria, prefácio e piadas como fósforos riscados que provocam nele paragens móveis, cambaleantes, como o próprio viandante Chico, o que, em certa maneira, encobre seu tônus teórico. Chico propõe a irrealidade como maneira de estar-no-mundo. Só este recorte já cobriria, como mote recorrente, todo o texto rosiano. Esta proposta ganha força suplementar quando identificamos na escritura rosiana as ramificações dessa temulência.

Irene Simões, ao analizar o Pref. NTs, detém-se mais na visão diplópica de Chico, mas cremos que esta é antes um fenômeno do êxtase apolíneo, pórtico para a embriaguez dionisíaca. É isso que percebemos alegorizado de maneira mais dinâmica neste prefácio e que, em certa maneira, a estudiosa contempla ao citar o comentário de Benedito Nunes, quando este faz uso do vocábulo embriaguez referindo-se “à geral temulência humana e a Platão” (NUNES, 1976, p.208), ou refere-se aos coribantes, sacerdotes da deusa Cíbele. “Cíbele é importante sobretudo por causa do culto orgiástico que se desenvolveu em torno dela e que sobreviveu até época tardia do período imperial. [...] Tal como Réia, tem como servos os curetes, também chamados Coribantes” (GRIMALD, 2000, p.86). É Cíbele também que irá curar Dioniso da

loucura que lhe fora infringida por Hera, quando este passar pela Frigia, bem como o iniciará em seus ritos orgiásticos (GRIMALD, 2000, p. 122). O culto orgiástico é dionisíaco por excelência, mas, nem Nunes, nem Simões, em nenhum momento, aludem a Dioniso ou ao conceito nietzschiano de embriaguez, o qual parece-nos mais afeito para especular a “possessão” criadora do autor em análise.

De acordo com Simões,

as “duvidações diplópicas” do bêbado correspondem ao olhar de estranhamento perante o objeto, estranhamento esse que vai num crescendo no texto. À medida que observamos as diversas etapas do percurso da personagem, vamos sentindo que esta vai perdendo a noção do real e tudo vai-se duplicando até chegarmos ao “eu” duplicado. (SIMÕES, s.d, p. 31)

Este estranhamento rumo à duplicação do “eu” representa, em nossa perspectiva, a passagem do êxtase apolíneo que, por intermédio do olhar diplópico, chega ao êxtase dionisíaco.

Uma outra questão que chama a atenção para o efeito diplópico figurado no Pref. NTs é que ele representa a diplopia, também, como condição dúbia inerente à linguagem. Um temulento é aquele que percebe o estado diplópico da linguagem, isto é sua dubiedade, e o capta para traduzi-lo, sobretudo, sem macular essa diploplia. A visão diplópica de Chico, que promove a duplicação do que ele vê “nesta nossa vida de aquém-túmulo”, representa uma série de interpretações de símbolos que se tornam duplos de si mesmos ampliando ainda mais a irrealidade. A apreensão que o herói Chico faz da vida é ela mesma, duplicando-se em arte, advinda da experiência poética do herói, fruto de seu devir embriagado numa relação direta com a existência.

Curiosamente, em Ecce Homo, Nietzsche declara-se abstinente: “bebidas alcoólicas me são prejudiciais; um copo de vinho ou cerveja por dia basta perfeitamente para tornar a vida um ‘vale de lágrimas’ para mim” (NIETZSCHE, 1995, p.37). E, aproxiamando a embriaguez alcóolica provocativamente do espírito cristão, o poeta filósofo assevera:

água me basta... Tenho preferência por lugares onde se possa beber de fontes vivas (Nice, Turim, Sils): um pequeno copo me segue como um cão. In vino veritas [no vinho, a verdade]: parece que também nisso me acho em desacordo com o mundo quanto ao conceito de ‘verdade’. (NIETZSCHE, 1995, p.37)

É a vida que aparece metonimizada pela água e por um copo-cão, com e sem plumas19, a fonte embriagante de Nietzsche. É, sobretudo, no sentido da vida como fonte embriagante que o aproximamos de Guimarães Rosa. No entanto, como vimos, ao refletir sobre a psicologia do artista, Nietzsche, como já vimos, acha que a embriaguez deve energizar o corpo. Sem este procedimento não se chega a nenhuma arte. Para tanto todos, segundo o poeta filósofo, qualquer tipo de embriaguez é acertada.