Uma providência a ser tomada para adequar a matriz curricular do curso de licenciatura em Matemática à atual legislação é a implementação das 400 h de prática como componente curricular no PPP. Esse procedimento traz algumas exigências, como a necessidade de mudança na relação entre teoria e prática, muitas vezes alimentada pela ideia de que “[...] o estágio é o espaço reservado à prática, enquanto na sala de aula se dá conta da teoria” (BRASIL, 2001, p. 21).
Partindo dessa premissa, entendemos que a configuração dessa prática vai suscitar reflexões sobre o significado e o papel que a prática como componente curricular exerce na constituição do PPP da licenciatura em Matemática. Desse modo, elegemos alguns fundamentos apresentados no corpo deste trabalho como pontos de início para a apresentação e encaminhamento para análise.
Uma concepção de prática mais como componente curricular implica vê-la como uma dimensão do conhecimento, que tanto está presente nos cursos de formação nos momentos em que se trabalha na reflexão sobre a atividade profissional, como durante o estágio nos momentos em que se exercita a atividade profissional (BRASIL, 2001a, p. 22).
[...] a prática como componente curricular é o conjunto de atividades formativas que proporcionam experiências de aplicação de conhecimentos ou de desenvolvimento de procedimentos próprios ao exercício da docência. Por meio destas atividades, são colocados em uso, no âmbito do ensino, os conhecimentos, as competências e as habilidades adquiridas nas diversas atividades formativas que compõem o currículo do curso [...]. (BRASIL, 2005, p. 3)
Assim, há de se distinguir, de um lado, a prática como componente curricular e, de outro, a prática de ensino e o estágio obrigatório definido em lei. A primeira é mais abrangente: contempla os dispositivos legais e vai além deles. (BRASIL, 2001b, p. 9)
A investigação sobre a prática como componente curricular no curso de licenciatura em Matemática tem inicialmente o objetivo de compreender de que maneira o espaço referente à prática como componente curricular está configurado no interior do PPP do curso para responder às Diretrizes Curriculares Nacionais. Além disso, por meio da análise desse espaço investiga-se se os argumentos utilizados pelas diretrizes para justificar a importância da prática no contexto da formação de professores e se elas conseguem dialogar com o que está proposto no PPP do curso. É importante relembrar que o PPP do curso de licenciatura em Matemática da UNEB é unificado nos campi em que o curso é oferecido.
Para construir a configuração do espaço curricular dessa prática, observam-se primeiramente quais as características atribuídas pelo PPP à sua organização curricular, estando assim especificadas: o currículo apresenta “uma estrutura flexível que possibilita a articulação entre os conhecimentos específicos da área com outras áreas e com a realidade em que ele se desenvolve”. Para tanto, está prevista na organização curricular “uma interação entre conhecimentos científicos, pedagógicos e o eixo de formação prática nele contemplado”. O caráter interdisciplinar se fundamenta com a possibilidade de promover “aprofundamentos teóricos dos aspectos conceituais do conteúdo e reflexões históricas e epistemológicas importantes à compreensão do planejamento, à execução e à avaliação das situações de ensino e aprendizagem da Matemática” (UNEB, 2011, p. 121).
A garantia de que tais encaminhamentos serão assegurados se revela por meio de uma organização em “eixos de formação”, que já foram descritos neste trabalho. Para a compreensão da prática como componente curricular, vamos concentrar a atenção no eixo interdisciplinar denominado Seminários Temáticos (ST). Na tentativa de articular as dimensões teórica e prática, o eixo se “configura como atividade interdisciplinar” em que o “saber” e o “fazer” são direcionados para “o desenvolvimento de competências como reflexão, questionamento e atuação” (UNEB, 2011, p. 123).
O eixo integrador Seminário Temático se apresenta como um tema norteador para os quatro primeiros semestres a ele destinados. Para a Linguagem e Representação Matemática
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ele contribui fornecendo subsídios teóricos e práticos para a resolução de problemas apresentados e discutidos ao longo do semestre. Sob a temática Representação Geométrica I, vai buscar desenvolver uma percepção geométrica interligada à resolução de problemas do cotidiano. Para a Representação Geométrica II, a ênfase será na visão artística e lúdica, levando o aluno a situar-se no plano e espaço, a partir de conhecimentos oriundos dos componentes curriculares do semestre. O último tema faz referência à Pesquisa em Educação Matemática, fornecendo subsídios para que o aluno retome as discussões sobre o processo de ensino e aprendizagem, das pesquisas na área de Educação Matemática numa perspectiva de exploração e reflexão a partir dos componentes curriculares do semestre.
Observando um pouco mais a matriz curricular, podemos reconhecer no eixo Instrumentação do Conhecimento e da Produção Matemática (ICM) uma contribuição com a seleção das atividades propostas de modo a garantir uma postura investigativa, a partir de reflexões teóricas. Este eixo marca a presença em todos os semestres do curso, o que o autoriza a responder por horas de prática como componente curricular.
Seguindo o mesmo encaminhamento, fica também autorizado a responder por atividades de práticas formativas o eixo Formação Docente para o Ensino de Matemática (FDEM), em que gravitam as questões do ensino sob um olhar filosófico, sócio antropológico e didático, analisando o desenvolvimento social e propondo ações intervencionais que serão desenvolvidas ao longo dos estágios. Como pode ser observado, nesse eixo as práticas pedagógicas estão presentes na primeira metade do curso, sendo agregadas ao estágio na etapa seguinte em que se pressupõe uma continuidade.
O que se espera dessa composição em eixos de formação é que os futuros professores cheguem aos estágios supervisionados com um repertório de saberes capaz de alicerçar as vivências pelas quais passarão, quer seja para enriquecer as observações, quer seja na docência propriamente dita.
De todo modo, a certeza nesta descrição é a de que o PPP do curso de licenciatura em Matemática em análise não define textualmente como estão computadas as horas de prática como componente curricular, nem tampouco como pretende implementá-las no decorrer do processo de formação, muito menos faz referência à importância deste espaço para a formação de futuros professores de Matemática.
Por meio de um estudo da matriz percebemos que existem componentes curriculares que comportam uma carga horária tanto teórica, quanto prática, e constatamos a existência das 400 h de prática como componente curricular. No entanto, a maior preocupação não está no atendimento à legislação, mas no compromisso de assegurar as horas dessa prática, e na
compreensão de que as concepções adotadas no PPP do curso, seus objetivos, as competências e habilidades desejadas/esperadas vão refletir nas ações que vão aproximar o licenciando das atividades de prática.