Diante do que foi exposto ao longo do presente trabalho monográfico, percebe-se primeiramente que a pena, até chegar a uma forma mais humanista, passou por diversas fases evolutivas. É certo, assim, que não se pode visualizar a sanção penal meramente como um castigo ao infrator, ou seja, como uma retribuição pelo mal causado à vítima e à própria sociedade, mas também como uma forma de prevenção para que o autor do crime não volte a cometê-lo.
No direito brasileiro, para que essa prevenção seja satisfeita é necessário que ocorra a ressocialização do condenado, a qual representa, inclusive, o principal objetivo da Execução Penal. Percebe-se, contudo, que, na maioria das vezes, ela não é alcançada, pois o próprio sistema penitenciário existente não oferece estrutura para que isso ocorra, o que se constata, na verdade, é que os presídios estão cada vez mais lotados e o índice de criminalidade não diminui.
Associa-se a essa falta de estrutura a existência de uma sociedade geralmente preconceituosa e temerosa em proporcionar ao ex-apenado novas oportunidades para que ele possa reconstruir sua vida e, assim, consiga se ressocializar. Pode-se dizer que principalmente a mídia televisiva, através de seus diversos programas policiais imbuídos de sensacionalismo, contribui bastante para a formação de uma figura estigmatizada do condenado o que acarreta, na maioria das vezes, a reincidência.
O ordenamento jurídico brasileiro, objetivando facilitar essa ressocialização de modo a resguardar a privacidade do ex-apenado em relação à condenação penal, previu o instituto da reabilitação e, de forma mais prática e menos burocrática, o sigilo da folha de antecedentes, que está presente no art. 202 da Lei de Execução Penal.
Pode-se dizer que os institutos acima referidos representam, na verdade, indícios do direito ao esquecimento, permitindo que o condenado não seja visto pela sociedade como um ex-presidiário, mas como uma pessoa igual a todas as outras. A pena já foi cumprida e o condenado tem o direito de ser esquecido e retomar uma vida livre de manchas passadas.
O direito ao esquecimento, portanto, está intimamente relacionado com a busca da efetivação do ideal ressocializador da pena, pois seria impossível atingir uma ressocialização do condenado ao meio social se constantemente fosse relembrado publicamente o crime por ele cometido, o que criaria um verdadeiro estigma de criminoso.
A mídia, justificando sua atuação no direito à liberdade de imprensa e de informação, comete diversos abusos aos direitos personalíssimos, inclusive ao direito ao esquecimento, o qual, a partir da aprovação do Enunciado n. 531 do Conselho da Justiça Federal, passou a ser considerado como necessário à proteção da dignidade da pessoa humana.
Além do mais, considerando que os direitos fundamentais não são taxativos, constatou-se que o direito ao esquecimento, embora não esteja previsto expressamente na Constituição Federal, deve ser considerado um direito fundamental, ou melhor, um direito fundamental da personalidade.
Por ser um direito fundamental, ele pode entrar em colisão com outros direitos fundamentais como é o caso do direito à liberdade de imprensa e de informação, necessitando que o julgador realize um juízo de proporcionalidade para saber qual deles prevalecerá em cada caso concreto.
O Superior Tribunal de Justiça já julgou dois Recursos Especiais que retratavam colisão entre esses dois direitos, em cada um deles, considerando as peculiaridades de cada caso, foi necessário fazer um sopesamento de valores e as decisões foram diversas, um dando prevalência ao direito ao esquecimento e o outro ao direito à liberdade de imprensa e de informação.
Não é possível, portanto, determinar de forma definitiva qual deles irá prevalecer sobre o outro, contudo, existem critérios que devem ser considerados no momento do sopesamento, como a existência do interesse público e a atualidade da notícia, para que, assim, possa-se chegar a uma decisão justa e que, acima, de tudo, não viole a dignidade da pessoa humana, consubstanciada na própria ressocialização do condenado.
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