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Tanım, Kavram ve Türleri

B. Genel Olarak Erteleme Kurumu

2. Tanım, Kavram ve Türleri

No capítulo anterior, vimos que Leitão Ferreira faz alguns comentários sobre as diferenças entre emulação e tradução, prescrevendo que, no processo mimético de uma obra, o autor exceda aquele a quem imitou, e não apenas pareça que o traduziu. Entretanto, na composição da Nova arte de conceitos, o próprio Ferreira praticamente traduz, ipsis

litteris, diversas passagens de suas fontes, como a Arte dello stile, de Pallavicino. Na verdade, tal prática era mais comum do que se pode pensar, e diversos poetas a exercitaram. Como exemplo, o famoso verso de Góngora, “en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada”, incorporou-se nos mais diversos poemas, entre eles, o não menos famoso soneto de Gregório de Matos, cuja última estrofe faz a seguinte advertência a uma formosa mulher: “Oh, não aguardes que a madura idade / Te converta essa flor, essa beleza, / Em terra, em

cinza, em pó, em sombra, em nada”.226

Seguindo essa prática, D. Francisco Manuel, em A tuba de Calíope, inseriu dois sonetos traduzidos. O primeiro é de Giostiniano, sobre quem Segismundo Spina não dá

140 notícia nas notas de sua edição da quarta musa das Obras métricas. Aventamos a hipótese de tratar-se de Leonardo Giustiniani, poeta veneziano do século XIV — em geral o único com esse sobrenome constante em livros de história da literatura italiana — célebre por suas canzonette e seus strambotti, muitos deles musicados pelo próprio autor. Embora não tenhamos o soneto original, para realizar um confronto, gostaríamos de transcrever a tradução feita por D. Francisco por ela conter uma outra tópica importante da tradição: a do poema ou do canto como mensageiro do poeta, que deseja narrar à pessoa amada seus infortúnios amorosos. Nessa tópica, deve-se inferir que ou o poeta receia encontrar-se com o ser amado pessoalmente para falar de seu amor, ou, o que é mais comum, ele já o fez e não foi correspondido. Assim, por uma espécie de personificação do poema, ele cria a esperança de que seus versos possam ir até o ser amado e abrandar seu coração, obtendo os favores que ele não conseguira:

Tradução do Giostiniano

SONETO XLVI

Doces versos, por quem o auxílio espero Mais que d’Apolo, desse deus infante, Ide humildes de Flérida diante, Núncios sempre fiéis d’amor sincero. E se como comigo foi severo,

Convosco o for, o celestial sembrante,

Dir-lhe-eis se veja em vós: ver-se-á triunfante, Se já piadoso a si, se a mi foi fero.

Não temais abrasar-vos dos ardores De seus olhos; que a raios de tal sorte Nunca as humildes lágrimas têm medos. Se enfim vos abrasarem seus amores, Morrei, filhos, co pai, da mesma morte; E pois morreis honrados, morreis ledos.227

141 Esta é uma tópica existente desde a poesia medieval e que também permanece na tradição posterior a D. Francisco. Como exemplo, citemos um trecho de uma cansò228 da Comtessa de Dia, uma trobairitz do século XII, e um madrigal de Silva Alvarenga, poeta do século XVIII:

CANSÒ

Valer mi deu mos pretz e mos paratges e ma beutatz e plus mos fis coratges, per q’ieu vos mand lai on es vostr’estatges esta chansson que me sia messatges: e vuoill saber, lo mieus bels amics gens, per que vos m’etz tant fers ni tant salvatges, non sai si s’es orguoills o mals talens. Mas aitan plus li digas, messatges, q’en trop d’orguoill ant gran dan maintas

[gens.]229

MADRIGAL III Voai, suspiros tristes;

Dizei à bela Glaura o que eu padeço, Dizei o que em mim vistes, Que choro, que me abraso, que esmoreço Levai em roxas flores convertidos Lagrimosos gemidos que me ouvistes:

Voai, suspiros tristes; Levai minha saudade; E, se amor ou piedade vos mereço, Dizei à bela Glaura o que eu padeço.230

O segundo soneto traduzido por D. Francisco em A tuba de Calíope é de Vincent Voiture, poeta característico do preciosimo francês da primeira metade do século XVII, e que soube desempenhar com excelência o papel do cortesão. Segismundo Spina, em sua edição de A tuba de Calíope, transcreve o soneto de Voiture, que apresentamos a seguir em confronto com a tradução de D. Francisco:

228 A cansò é um dos gêneros nos quais os trovadores compunham seus poemas. Geralmente de temática

lírico-amorosa, a cansò costuma apresentar, após as estrofes de métrica e quantidade de versos regular, uma tornada, estrofe com menos versos à guisa de conclusão do poema, como a segunda estrofe do trecho que transcrevemos (essas são as duas últimas estâncias do poema todo).

229 CUNHA. Les voix des femmes dans l’univers roman medieval. p. 53-54: “Ajudar-me devem meu valor e

minha linhagem / e minha beleza e, mais ainda, a sinceridade do meu coração, / pelo que eu vos envio, aí, onde vos encontrais, / esta canção que me sirva de mensageira; / e quero saber, meu belo e nobre amigo, / porque me sois tão rude e indomável, / não sei se é orgulho ou má disposição. // Mas, sobretudo, quero que lhe digas, mensageiro, / que, por excesso de orgulho, muita gente sofre grande dano”. (tradução nossa, com base em traduções para o francês e para o inglês).

142 SONNET

Il faut finir mes jours en l’amour d’Uranie! L’absence ni le temps ne m’en sauraient guérir, Et je ne vois plus rien qui me pût secourir Ni qui sût rappeler ma liberté bannie. Dès longtemps je connais sa rigueur infinie! Mais pensant aux beautés pour qui je dois périr, Je bénis mon martyre, et content de mourir, Je n’ose murmurer contre sa tyrannie.

Quelquefois ma raison, par de faibles discours, M’incite à la revolte et me promet secours, Mais lorsqu’à mon besoin je me veux servir d’elle, Après beaucoup de peine et d’efforts impuissants, Elle dit qu’Uranie est seule amable et belle Et m’y rengage plus que ne font tous mes sens.231

Tradução do estimado soneto de Monsieur de Voiture, poeta francês

SONETO LXVI

Força é acabar no amor d’Urânia os dias; Tempo nem ausência saberão valer-me: Nada vejo que possa socorrer-me, Nem que saiba remir-me em tais porfias. Ânsias há muito que conheço impias;

Mas vendo as graças por quem vou perder-me Meu martírio engrandeço e, alegre em ver-me, Morro sem maldizer tais tiranias.

Razão talvez, por falso pensamento, Mostra os socorros e à batalha incita: Mas, se dela me valho em meu tormento, Despois da grave pena se me evita; E, empenhando-me mais o entendimento, Bela e amável Urânia me acredita.232

Além da questão da tradução, os sonetos abordam, mais uma vez, o confronto entre a razão e o desejo amoroso. Este, na maioria das vezes, sai vitorioso da batalha, ainda que sua vitória traga sofrimentos ao poeta e o faça aceitar o martírio em que se encontra, como mostram o sétimo e o oitavo versos, tanto do original quanto da tradução.

Benzer Belgeler