Na sociedade católica e contra-reformista da Península Ibérica do século XVII, a representação da morte era constante. Os sermões e as práticas litúrgicas eram rigorosamente elaborados para não deixar que os homens se esquecessem das palavras do
Gênesis: “quia pulvis es et in pulverem reverteris”,264 ou seja, “és pó e ao pó retornarás”
(Gn 3, 19). Essas mesmas palavras costumavam ser repetidas nos sermões de quarta-feira de cinzas precedidas da imprecação memento homo (quia pulvis es), ou seja, “lembra-te, homem (de que és pó)”. Nasce daí a tópica designada de memento homo ou memento mori (lembra-te de que hás de morrer). O soneto LXXIII de A tuba de Calíope é construído com base nessa tópica. Por um lado, as instituições da Igreja Católica, que buscavam representar a voz de Deus, lembram ao homem a todo o momento que ele é pó, infundindo-lhe o temor da morte. Por outro lado, o homem muitas vezes esquece ou quer esquecer essa condição, considerada lamentável. Isso gera um conflito de consciência, expresso pelo poema:
Em dia de Cinza, sobre as palavras: “Quia pulvis es”.
SONETO LXXIII Melhor há de mil anos que me grita
a voz, que me diz: “És pó da terra!” Melhor há de mil anos que a desterra Um sono que esta voz desacredita.
Diz-me o pó que sou pó, e a crer me incita Que é vento quanto neste pó se encerra; Diz-me outro vento que esse pó vil erra... Qual destes a verdade solicita?
Pois, se mente este pó, que foi do mundo? Que é do gosto? Que é do ócio? Que é da idade? Que é do vigor constante e amor jocundo?
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Que é da velhice? Que é da mocidade? Tragou-me a vida inteira o mar profundo! Ora quem diz: — “sou pó” — falou verdade.265
No fim, contudo, o homem se convence de que é pó e mantém consciente a tópica do
memento mori.
À condição de ser pó aludem alguns objetos conhecidos como corpos artificiais: retratos, caveiras, ruínas, relógios, labirintos, baixéis, livros, dentre outros. Além de fazerem recordar ao homem que ele um dia morrerá, esses objetos atentam para o caráter vão do culto de dons e bens materiais ou mundanos, os quais, além de serem destruídos pelo tempo, não contribuem em nada para a salvação da alma e nunca poderão ser levados para o outro mundo junto à alma do morto. Essa visão é fundamentada sobre as palavras do
Eclesiastes “vanitas vanitatum dixit Ecclesiastes / vanitas vanitatum omnia vanitas”266, de onde surge a tópica da vanitas, que consiste num certo desprezo pelo mundo material e na renúncia de todos os seus prazeres, alegrias e glórias. Um dos principais dons cultivados em vão pelos homens é a beleza. O soneto L de A tuba de Calíope ilustra bem esse tema, em cujo primeiro quarteto vemos um tradicional elogio da beleza de uma mulher:
Armas do Amor, planetas da ventura, Olhos adonde sempre era alto dia; Perfeição que não cabe em fantasia, Fermosura maior que a fermosura;267
Entretanto, como a excessiva valorização dessa beleza é pura vaidade — isto é, é vã —, o poeta traz, no segundo quarteto, um daqueles corpos artificiais a fim de advertir que a beleza se desgasta com o tempo. O objeto em questão é a sepultura:
265 MELO. A tuba de Calíope. p. 195.
266 BIBLIA Sacra Vulgata. Ecl cap. 1, v. 2. p. 986: “Vaidade de vaidades, disse o Eclesiastes: Vaidade de
vaidades, e tudo [é] vaidade”.
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Copa profunda, triste, horrenda, escura, Funesta alcova, de morada fria,
Confusa solidão, só companhia, Cujo nome melhor é “sepultura”:268
O soneto, que traz a ementa “Formosura e Morte, advertidas por um corpo belíssimo junto à sepultura”, unindo esses elementos desperta a consciência para a morte e para a vaidade das coisas terrenas, todas igualadas quando chega o seu fim, como mostram os tercetos:
Quem tantas maravilhas diferentes Pode fazer unir? — salvo se a Morte!... A Morte foi em sem-razões mais rara. Tu, que vives triunfante sobre as gentes, Nota (pois te ameaça a igual sorte) Donde pára a beleza, e no que pára.269
No primeiro apólogo dialogal de D. Francisco, Relógios falantes, os relógios são mais um dos corpos artificiais representantes da ruína que advertem para a decadência e para a vanitas. O relógio da cidade, dialogando com o relógio da aldeia, revela aquilo que simbolizam: “todos somos relógios e sabemos que não há cousa que não tenha a sua hora no mundo”.270 A partir daí, também adverte para a finitude da beleza:
Que lhe importa a D. Fulana ser toda uma tabuleta de ourives, testa de prata, cabelos de ouro, olhos de esmeraldas, faces de pérolas, boca de rubins, dentes de aljôfar, colo de cristal? Pois, em se descuidando, tal vez com a idade lhe chega sua hora de velhice, contra quem não valem todos os estofos e badulaques que inventou a vaidade e a incontinência; porque a prata se marea, o ouro se denigre, as esmeraldas embaçam, as pérolas desmaiam, os rubins descoram, o aljôfar se perde, o cristal estala e tudo muda, não só a forma, mas a sustância do que era.271
268 MELO. A tuba de Calíope. p. 152. 269 MELO. A tuba de Calíope. p. 152. 270 MELO. Relógios falantes. p. 49. 271 MELO. Relógios falantes. p. 52.
166 É importante perceber aqui o emprego de algumas metáforas cultas, associadas à temática da vanitas e do desengano, o que faz atentar para o fato de que, em geral, as obras não contêm apenas um único elemento da poética seiscentista. Assim, o relógio da cidade, tomando as metáforas mineralizantes para compor o retrato de uma mulher, ironicamente chamada de tabuleta de ourives, faz despertar o desengano em relação a tais metáforas, mostrando, um por um, o destino de cada uma.