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1.3. Araştırmanın Amacı

2.1.2. Tanılama ve Değerlendirme

Brown & Levinson (1978/87) baseiam-se no conceito de face de Goffman (1967/2005) e nas máximas de Grice (1975) para construir a teoria da polidez. Os autores constroem o conceito de face baseando-se em um duplo desejo: o desejo de ter suas ações desimpedidas, o que é chamado de ‘face negativa’, e o desejo de aprovação e apreciação, o que é chamado de ‘face positiva’. Eles desenvolvem também a noção de que existem atos que intrinsecamente representam ameaça à face, o que chamam de ‘atos ameaçadores à face’ (FTAs – face threatening acts), e que poderia ser comparado à ideia de Goffman sobre incidentes potencialmente ameaçadores à face (GOFFMAN, 2005, p. 12; e seção anterior). Nesse sentido existiriam segundo eles atos que constituem ameaças à face negativa de uma pessoa – quando uma ação é imposta a ela, por exemplo, através de uma ordem – ou à sua

13 O próprio Goffman menciona em seu livro trabalhos datados de 1944 ou 1954 sobre o conceito de face em diferentes culturas (cf. GOFFMAN, 1967/2005, p. 6)

face positiva – através de uma expressão de desaprovação, por exemplo.

As estratégias de realização de um FTA são decididas de acordo com o risco de perda de face e o peso que o FTA em questão possui para a interação e as pessoas envolvidas. Embora estes valores não possam ser de fato mensurados, podem ser estimados com base em alguns fatores, entre eles: distância social entre falante e ouvinte, poder do ouvinte em relação ao falante, grau de imposição ou custo do FTA em questão para o ouvinte. Com base nesses elementos, além de características pessoais dos interlocutores, pode-se escolher a forma de realização de um FTA (cf. BROWN; LEVINSON, 1987, p. 76-78). As estratégias de realização de um FTA são em certa medida comparáveis aos processos de evasão e corretivos descritos por Goffman (2005, p. 15-21), embora no trabalho de Brown e Levinson (1987) seja abordado um número mais extenso de estratégias.

De acordo com Brown e Levinson (1987), há cinco formas de realização de um FTA, variáveis no nível do risco de perda de face estimado. Essas estratégias podem ser observadas de forma mais clara no seguinte exemplo, que considera também as variáveis de poder e distância social.

Consideremos a situação em que alguém precisa carregar uma caixa pesada e não consegue realizar a tarefa sozinho, precisando portanto pedir a ajuda de alguém. A escolha de qual estratégia utilizar vai depender de uma série de fatores e características dos participantes da interação e da própria situação. Se a pessoa em questão ocupa uma posição de liderança em relação ao interlocutor, por exemplo, pode escolher realizar o FTA diretamente, sem amenizações (bald on record): (1) “Coloque essa caixa sobre a prateleira!”.

Esta estratégia porém não seria adequada no caso de dois participantes com o mesmo nível hierárquico. Nesse caso, a estratégia escolhida poderia valorizar a face positiva do interlocutor, realizando o FTA diretamente com polidez positiva: (2) “Ei, amigo! Me dá uma mãozinha aqui com essa caixa!”. Este exemplo mostra uma certa proximidade dos participantes, o que é indicado pelo uso da marca grupal amigo, que insere os interlocutores em um mesmo grupo, indicando portanto uma valorização de características do outro, destacando-as desejáveis e portanto valorizando sua face positiva. A expressão me dá uma mãozinha também pode ter esse efeito integrativo dos participantes.

No entanto, no caso de uma maior distância social entre os interlocutores, o uso da polidez positiva poderia se mostrar inadequado. Quando os interlocutores não se conhecem ou quando o falante está em posição hierárquica inferior ao ouvinte, uma estratégia mais

adequada seria a utilização da polidez negativa, procurando não impor nenhuma ação ao outro, dando-lhe liberdade de ação e destacando a distância e a noção de espaço no momento da interação: (3) “Com licença, se não for muito incômodo, será que o senhor poderia me ajudar a carregar essa caixa?”. Aqui, o uso da expressão ‘com licença’ abre o diálogo, indicando que não há intenção de imposição, o que é intensificado pelo uso da oração condicional (se não for muito incômodo), do futuro do pretérito (poderia) e do honorífico (senhor), destacando um distanciamento em relação ao interlocutor e evitando portanto a imposição de que o espaço do outro seja invadido.

Quando esta opção ainda parece representar um risco elevado à face, o indivíduo pode escolher realizar o FTA indiretamente, off-record, através de um comentário em voz alta mas sem fazer efetivamente um pedido direcionado a alguém: (4) “Nossa, que caixa pesada!”. Nesse caso, espera-se que a outra pessoa depreenda a necessidade de ajuda e se ofereça em ajudar.

Porém, se mesmo essa estratégia parece de alguma forma arriscada, o indivíduo pode escolher não realizar o FTA, e simplesmente (5) tentar carregar a caixa sozinho. Naturalmente, a escolha de quais estratégias serão ou não usadas na interação pode depender de outros fatores simultaneamente além dos que foram apresentados aqui. Contudo, acredito que este exemplo tenha servido para ilustrar as cinco formas de realização do FTA mostradas por Brown e Levinson (1987). Elas também podem ser vistas sintetizadas na Figura 1 mostrada abaixo:

Figura 1: Macroestratégias de realização de FTAs Fonte: Brown e Levinson (1987), p. 60 (traduzido)

estratégias, entre as quais destaco aqui as mais relevantes para este trabalho14. Como estratégias de polidez positiva destacam-se as seguintes:

(1) Preocupe-se com o ouvinte (seus interesses, vontades, etc); (2) Exagere (interesse, aprovação, simpatia com o ouvinte);

(3) Use marcadores de identidade grupal, como uso de formas de endereçamento carinhosas, uso de língua ou dialeto do grupo, etc;

(4) Procure concordar, com as subestratégias: (a) procure por assuntos seguros e (b) repita parte do que foi dito;

(5) Evite discordâncias, com as subestratégias: (a) concordância simbólica (em que o interlocutor parece concordar, mas discorda, como na expressão “sim, mas...”, que geralmente antecede discordâncias); (b) falsa concordância (em que se usam expressões como ‘então’, que passam a ideia de uma concordância, sem que haja uma de fato, como no exemplo “você vai comprar esse rádio então?”); (c) atenue opiniões (em que o falante é vago em relação à sua opinião em vez de discordar, como no exemplo “é realmente bonito, de certa forma”);

(6) Piadas, baseadas em conhecimentos e valores compartilhados e podendo minimizar alguns FTAs, como pedidos: “que tal me emprestar esse monte de ferro velho?” (referindo-se ao carro novo do ouvinte);

(7) Incluir falante e ouvinte na atividade, usando a primeira pessoa do plural, por exemplo;

(8) Dar presentes para o ouvinte (bens, simpatia, compreensão, cooperação).

Dentre as estratégias de polidez negativa, destacam-se:

(1) Seja convencionalmente indireto, com o uso de perguntas indicando pedidos por exemplo, como em “você pode abrir a janela?);

(2) Question, hedge, em que os autores definem ‘hedge’ como “uma partícula, palavra ou expressão que modifica o grau de pertencimento de um predicado ou sintagma nominal em um conjunto” (p. 145). Um ‘hedge’ pode indicar por exemplo que esse pertencimento seria parcial, ou parcialmente verdadeiro, ou mais verdadeiro do que era esperado. Em outras palavras, um ‘hedge’ seria responsável por uma relativização do enunciado ou por sua enfatização. Os autores mencionam como exemplos de hedges expressões como “eu penso/acho/suponho”, perguntas de confirmação ao fim de um enunciado “me faz um favor, você faz?”, “sim?” ou expressões como “para ser mais claro, ....”, entre outras. Eles consideram também a possibilidade de uso da entonação como um hedge (como em inglês), enquanto em outras línguas utilizam-se

14 Naturalmente há diversas outras estratégias e exemplos mencionados por Brown e Levinson (1987), mas aqui foram destacadas somente as mais relevantes para a análise. Os autores também utilizam um sistema de numeração próprio, que não foi reproduzido aqui.

partículas para tanto (como em alemão). Eles ainda salientam que o uso de elementos prosódicos e gestuais pode substituir ou enfatizar os hedges verbais. (3) Minimize a imposidão;

(4) Peda desculpas, com as subestratégias: (a) admita o impacto causado; (b) indique relutância; (c) peça perdão, como em “desculpe incomodar...” ou “desculpe-me, mas...”;

(5) Impessoalize falante e ouvinte, com as subestratégias: (a) use verbos impessoais; (b) substituição dos pronomes eu ou você por indefinidos, como alguém; (c) pluralização dos pronomes eu ou você.

Estratégias de realização do FTA indiretamente (off record):

(1) Dê pistas, usado frequentemente em pedidos, como “aquela janela não está aberta”, como um pedido para que alguém a feche;

(2) Abrande os fatos, como em “Está um pouco quente”, onde se quer implicar que está quente demais para comer ou beber;

(3) Exagere os fatos, como em “Você nunca lava a louça”.

(4) Use tautologias, o que dá a indicação de que se deve procurar por outros significados como em “guerra é guerra”;

(5) Use contradidões, como em “A: Você está chateado? / B: Sim e não”; (6) Seja irônico;

(7) Use metáforas;

(8) Use perguntas retóricas; (9) Seja ambíguo;

(10) Seja vago;

(11) Seja incompleto, use elipses.

Embora aqui tenha sido apresentada apenas uma parte das estratégias descritas por Brown e Levinson (1987), pode-se ter uma ideia da riqueza do trabalho e do material que os autores desenvolveram. Apesar da inegável importância do seu trabalho e seu papel central nos estudos da polidez, o modelo de Brown e Levinson é criticado em diversos aspectos. Uma das principais críticas refere-se à universalidade que clamam para seu modelo e que autores como Wierzbicka (2003) atribuem ao etnocentrismo do estudo. De fato, embora Brown e Levinson (1987, p. 77) utilizem certas noções de dependência cultural ao definir os parâmetros que podem afetar a forma de realização de um FTA, estas representam um aspecto marginal do seu modelo. A tendência do trabalho é claramente generalizadora e universalista, o que pode ser visto tanto no título, com o uso da palavra universais (Politeness: some universals in language use), quanto na descrição de seus objetivos: “a final goal (...) is to rebut the once-fashionable doctrine of cultural relativity in the field of interaction” (Brown e

Levinson, 1987, p. 56). Os autores acreditam que possíveis diferenças culturais no uso da polidez seriam superficiais e emergiriam dos princípios universais delineados por eles a partir da análise da polidez em culturas e línguas não relacionadas. Embora Brown e Levinson (1987) não utilizem apenas dados da língua inglesa na teoria da polidez, alguns autores (WIERZBICKA, 2003; PIZZICONI, 2006) concordam que eles partiram do ponto de vista americano/britânico para análise das línguas, sem levar em conta as particularidades culturais e linguísticas de diversos grupos culturais.

Outras críticas ao modelo incluem a concepção errônea ou deficitária de face (SPENCER-OATEY, 2008B; OETZEL; TING-TOOMEY; YOKOCHI; 2000) e a desconsideração da dimensão interpessoal no modelo (SPENCER-OATEY, 2008b). Essas deficiências atribuídas ao modelo de Brown e Levinson (1978) contribuíram para o surgimento de outros modelos, como o de scripts culturais de Wierzbicka (1991/2003), o modelo de rapport management de Spencer-Oatey (2008b), que será tratado na próxima seção, e o modelo de negociação de face, de Ting-Toomey em 1988, mencionado na Seção 2.8.

Benzer Belgeler